Estudo europeu afirma que gás natural no transporte é tão ruim para o clima quanto diesel e gasolina

Ônibus movido a Gás em Portugal

Esta é uma das conclusões de um estudo divulgado nesta quarta-feira, 24, pela ONG Transportes e Ambiente (T&E)

ALEXANDRE PELEGI

O uso de gás natural para o transporte é tão ruim para o clima quanto o uso de gasolina, diesel ou combustíveis navais convencionais, segundo um novo estudo divulgado nesta quarta-feira, dia 24 de outubro de 2018, pela ONG Transporte e Meio Ambiente (T&E – Transport & Environment).

A queima de gás em carros também emite tanta poluição do ar quanto a gasolina e a vantagem limitada sobre carros a diesel compatíveis pode ser eliminada por novos padrões planejados, aponta a pesquisa.

A ONG T&E, que publicou o relatório, tem sede em Bruxelas, e é formada por 58 organizações (48 membros e 10 apoiadores) que trabalham para promover transportes mais inteligentes e limpos em 26 países da Europa.

O estudo sugere que os legisladores europeus devem aceitar que o gás fóssil não pode ser utilizado com a missão de “limpar” o transporte e, portanto, eles devem começar a taxá-lo na mesma proporção que o diesel e a gasolina.

 

FossilGasClimateImpact_BR

Fonte: T&E – Transport & Environment

Ao levar em conta os efeitos do vazamento de metano – um gás de efeito estufa muito potente – o gás fóssil poderia aumentar as emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE) em até 9% ou diminuí-las em até 12% em todos os modos de transporte.

Se levarmos em conta os riscos de fuga de metano – um poderoso gás de efeito estufa com maior impacto climático do que o CO2 – as emissões fósseis de gás natural poderiam aumentar as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) até 9%. Ou diminuir até um máximo de 12%, se considerarmos todos os modos de transporte.

Nos automóveis o impacto das emissões de GEE do Gás Natural Comprimido (GNC) é semelhante ao diesel, enquanto nos caminhões ele se aproxima do dos melhores caminhões a diesel do setor.

Em média, na União Europeia, o gás natural paga menos imposto sobre o combustível do que o diesel (-76%).

Em países com vendas elevadas de veículos a GNC e GNL (Gás Natural Liquefeito), o gás natural tem benefícios fiscais até inferiores ao diesel. Por exemplo, a Itália consome 60% do metano usado como combustível rodoviário e detém 68% das vendas de veículos a GNC nos países europeus. Se o GNL fosse taxado como o diesel, não haveria espaço para frotas comerciais de caminhões movidos por este combustível.

Jori Sihvonen, da Ong T&E, disse: “Os carros, caminhões e navios a gás não trazem benefícios para o clima e são uma distração do nosso objetivo real, que é o transporte com emissões zero. Os governos devem resistir à ofensiva do lobby do gás e deixar de desperdiçar dinheiro público precioso em infraestrutura e incentivos fiscais para o gás fóssil”.

Ainda segundo e estudo, os veículos movidos a gás natural, incluindo o gás renovável, emitem o mesmo nível de poluição que o dos veículos a gasolina, e marginalmente em menor quantidade do que os veículos a diesel que cumprem as normas de emissão em condições reais.

Nos caminhões, o GNL pode aumentar as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx – gases nocivos à saúde), dependendo do tipo de motor, e pode disparar de forma significativa as emissões de partículas em relação ao diesel. O estudo mostra que nos carros, caminhões e navios deveriam ser introduzidas tecnologias de baixo carbono para estimular a transição para tecnologias de baixas emissões de outros poluentes que afetam a qualidade do ar.

Os governos que depositam suas esperanças de descarbonização no uso do biometano produzido a partir de resíduos devem reconhecer que essa alternativa só poderia suprir, no máximo, 9,5% das necessidades de transporte. Isto significaria também que nenhum biometano poderia ser usado para descarbonizar outros setores que já usam gás natural, como os setores residencial, de aquecimento e produção de energia, onde a rede de abastecimento já existe. O recurso a gás renovável na produção de eletricidade é caro e intensivo em emissões de carbono.

Jori Sihvonen concluiu: “A ideia de que podemos descarbonizar o transporte com gás renovável é, portanto, uma utopia. O pouco biometano e eletro-metano que teremos será necessário para descarbonizar os setores de aquecimento e energia, que atualmente dependem do gás fóssil. Incentivar o biometano nos transportes iria ser prejudicial para o clima, pois privaria os setores da indústria e de aquecimento doméstico de usar este recurso renovável limitado”.

CONCLUSÃO

A União Europeia concordou em reduzir suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) em pelo menos 80-95% até 2050. A política climática nos países integrantes da EU exigirá uma transição do petróleo, que atualmente fornece quase todas as necessidades energéticas dos transportes, para outras alternativas. Além de uma transição para tecnologias de emissão zero, como baterias elétricas ou hidrogênio, legisladores e governos em toda a Europa estão considerando o papel que o gás poderia desempenhar na descarbonização do transporte.

O relatório divulgado pela ONG T&E compila as evidências mais recentes sobre os impactos ambientais do uso de gás como combustível de transporte. Ele pode ser lido na íntegra, em espanhol e inglês, nos links:

Versão espanhol – GNC_y_GNL_para_vehículos_y_buques_los_hechos_ES

Versão inglês – CNG_and_LNG_for_vehicles_and_ships_the_facts_EN

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

 

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