O que fazer no setor de transporte para limitar o aquecimento global?

A eletrificação poderia cortar em muito as emissões de veículos de passageiros. (Na foto, ônibus elétrico da fabricante russa Volgabus, Feira de Hanover - 2018)

O Instituto ClimaInfo alinhou quais ações podem ser realizadas em diversos setores da economia para manter o aquecimento global em 1,5°C

ALEXANDRE PELEGI

O desafio de limitar o aquecimento global em 1,5°C é gigantesco, mas o enfrentamento ainda é possível, segundo a ciência climática.

O Instituto ClimaInfo fez uma análise do que precisa ser feito em cada setor da economia responsável pelas emissões de gases de efeito estufa para que esta limitação seja possível, conforme recomendado em 2015 pelo Acordo de Paris, do qual o Brasil é signatário ao lado de governos de todo o mundo.

Em linhas gerais, sabe-se que a manutenção do aumento da temperatura média global sob 1,5°C será um empreendimento massivo com implicações para todos os setores da economia – mas ainda é uma meta alcançável, afiançam os cientistas.

Para alcançar essa meta teremos de fazer de cortes nas emissões, rápidos e profundos, em todos os setores responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa“, adverte o documento produzido pelo Instituto ClimaInfo, uma organização sem fins lucrativos filiada ao Global Strategic Communications Council (GSCC), uma rede internacional de profissionais de comunicação do campo do clima e da energia.

O ClimaInfo delineou uma série de medidas de corte de emissão que poderiam ajudar a cumprir esta meta, agrupadas nos seguintes setores: oferta de energia, uso da terra, indústria, transporte e edificações.

Destacaremos aqui os desafios do setor de transportes, segundo o Instituto ClimaInfo:

O que precisa ser feito no transporte

O transporte é responsável por 14% das emissões globais de CO2. Três quartos destas emissões vêm dos veículos que trafegam nas rodovias de todo o mundo, embora a contribuição da aviação e da navegação esteja aumentando.

Existem duas principais maneiras pelas quais é possível cortar as emissões do transporte – fazer um transporte mais limpo e reduzir a demanda por transporte.

I – Tornar o transporte mais limpo

Veículos mais eficientes podem ser construídos para reduzir o consumo de combustíveis. Exemplos incluem a injeção direta de combustíveis, que torna os motores mais eficientes, e geradores/motores de partida integrados, que desligam motores e lâmpadas em momentos específicos. O uso de materiais mais leves, como a fibra de carbono, reduz o peso dos veículos, enquanto a redução do arrasto, o uso de estruturas mais leves e rodas menores também aumentam a eficiência. Para veículos de transporte de mercadorias, melhorias da eficiência podem ser combinadas com melhorias nas cadeias de suprimento, na logística e nas rotas.

A eletrificação poderia cortar em muito as emissões de veículos de passageiros e ajudar a manter alcançável a meta de 1,5°C. Se por volta de 70% dos veículos forem elétricos em 2050, as emissões anuais globais de CO2 serão reduzidas em aproximadamente 3,3 bilhões de toneladas – o equivalente a 8% das atuais emissões totais. Quinze países já anunciaram planos para acabar com a venda de carros movidos a diesel e gasolina e 20 cidades já definiram datas para banir veículos não elétricos.

Existem agora mais de quatro milhões de veículos elétricos de passageiros nas ruas de todo o mundo, incluindo 400 mil ônibus elétricos. As vendas estão se acelerando rapidamente: praticamente nenhum destes veículos tinha sido vendido antes de 2011, e da ordem de dois milhões deles estão agora sendo vendidos a cada ano. Se espera que este crescimento exponencial continue: a venda anual de veículos elétricos alcançará 11 milhões de veículos em 2025 e 30 milhões em 2030, segundo projeção da BNEF. A China será responsável por grande parte deste crescimento, com 50% da venda global de carros elétricos em 2025.

Vários governos estão investindo em estações de carregamento de baterias para encorajar as pessoas a usar veículos elétricos. Alguns exemplos:

– O governo chinês tem planos de construção de 4,8 milhões de estações de carga até 2022, o que requererá investimentos da ordem de US$ 1,9 bilhão em infraestrutura;

– O governo do Reino Unido anunciou em julho de 2018 um fundo de investimento em infraestrutura de carga de baterias de £ 400 milhões em apoio às empresas que querem instalar pontos de carga;

– A California Public Utility Commission aprovou projetos de carga de baterias no valor de US$ 738 milhões em junho de 2018;

– A New York Power Authority se comprometeu em maio de 2018 a investir até US$ 250 milhões na construção de infraestrutura para veículos elétricos.

É difícil alimentar veículos comerciais pesados com eletricidade, mas a tecnologia para isto está avançando. Caminhões elétricos e veículos comerciais leves têm sido testados em projetos de demonstração apoiados por iniciativas governamentais na Califórnia, Suécia, Alemanha e Holanda. As montadoras Tesla, Daimler, Volvo, Renault Caminhões e VW planejam comercializar caminhões elétricos em 2022.

Por outro lado, as projeções das emissões da aviação e da navegação mostram que estas devem crescer da participação atual de 20% nas emissões totais do setor de transporte global, em 2018, para 34% em 2060. O corte destas emissões será um desafio particular. Isto porque se espera que a demanda por estes dois modos de transporte cresça rapidamente, e sabe-se que é difícil substituir os combustíveis fósseis utilizados por aviões e navios por combustíveis limpos, ou substituir estes modos de transporte por outros alternativos. Biocombustíveis avançados, hidrogênio e baterias podem ser parte da solução, mas precisarão ser combinados com melhorias de eficiência. Estes setores não são cobertos pelo Acordo de Paris e ambos estão desenvolvendo planos para o corte de suas emissões.

II – Cortar a demanda por transporte

Mudanças comportamentais podem ser mais importantes para o setor de transporte do que para qualquer outro setor, e precisam ser apoiadas por políticas públicas e regulações. Estas mudanças podem ser divididas entre aquelas que reduzem a demanda por transporte, por exemplo por meio da implantação de cidades mais caminháveis e do teletrabalho, e aquelas que mudam a demanda em direção a modos mais eficientes de transporte de pessoas e mercadorias, como ônibus, bondes e trens.

Um planejamento urbano efetivo é crucial para que estas soluções tenham sucesso. As cidades precisarão de projetos que tornem mais fácil o abandono dos carros em favor de caminhadas, das bicicletas ou do transporte de massa. O planejamento integrado do uso do solo urbano e dos sistemas de transporte pode diminuir as jornadas e até evitar parte dos deslocamentos. A cobrança pelos congestionamentos e outras políticas que desencorajam o uso do carro particular, enquanto encorajam o uso do transporte público, podem ajudar a reduzir o uso do carro. A cidade de Portland, no Oregon, EUA, é líder na integração dos planejamentos urbano e de transporte. Enquanto a cidade crescia rapidamente, esta se focou no desenvolvimento e no encorajamento do uso do transporte público, e também em evitar o espalhamento da malha urbana, dando ênfase no adensamento populacional e ao uso misto das proximidades das vias e estações do Sistema de transporte público.

Cada um de nós, individualmente, terá que mudar seu comportamento para contribuir com a limitação do aquecimento global em 1,5°C. Como? Mudando a dietas de modo a reduzir o consumo de carnes, reduzindo o desperdício de comida, usando menos os carros e mais o transporte público, usando equipamentos mais eficientes e instalando melhores sistemas de isolamento térmico para dependermos menos de aparelhos de ar condicionado, nas regiões quentes, e de aquecedores de ambiente, nas regiões frias. Mas é bom ressaltar que estas mudanças comportamentais, embora relevantes, não suficientes por si só. A economia tem que mudar.

O documento completo produzido pelo Instituto ClimaInfo pode ser lido no link: http://climainfo.org.br/2018/10/21/como-limitar-aquecimento-em-15oc/

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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