Propostas são do “Movimento Respira São Paulo”. Ônibus históricos são guardados em galpão da SPTrans e nunca foram apresentados em exposições
ADAMO BAZANI
Um grupo de especialistas e admiradores de transporte limpo pede à prefeitura da capital paulista um novo espaço para o Museu do Transporte Público.
Localizado na Avenida Cruzeiro do Sul, na zona Norte, o museu foi inaugurado em 1985, por iniciativa do ex-funcionário da CMTC – Companhia Municipal de Transporte Coletivo, Gaetano Ferolla, e tem expostos veículos que marcaram diferentes épocas da mobilidade de São Paulo, como bondes, os primeiros modelos de trólebus, um ônibus executivo monobloco da CMTC e um exemplar do Fofão, ônibus urbano de dois andares que circulou pela cidade entre os anos de 1987 e 1993. Uma ideia excêntrica do então prefeito Jânio Quadros, mas que não foi de toda perdida. Serviu para mostrar que a metrópole precisava de ônibus de maior capacidade.
No entanto, o vice-presidente do “Movimento Respira São Paulo”, Norberto Pollak, disse ao Diário do Transporte que existem muito mais preciosidades dos transportes guardadas sem que a população tenha oportunidade de conhecer porque o espaço do Museu na zona Norte é pequeno.
Segundo Norberto, na antiga garagem da “Santa Rita” da CMTC, há exemplares como gerações de trólebus, o primeiro modelo de ônibus elétricos híbridos e modelos de ônibus articulados.
Em agosto do ano passado, o Diário do Transporte esteve na garagem da Santa Rita, hoje o local abriga a estrutura do Departamento de Transportes Públicos da cidade de São Paulo.
Os veículos precisam de restauro, mas pelo tempo que estão guardados, não estão em más condições.
Relembre:
Noberto diz que há um local histórico, tombado, que tem área maiore e pode ser um novo espaço para o Museu dos Transportes.
“Nós temos a ideia de utilizar um espaço que já é preservado, não pode ser derrubado, que é a antiga garagem [da CMTC] Brás, na Avenida Celso Garcia, que já foi garagem de bonde, garagem de trólebus, e tem um amplo espaço. Nós gostaríamos de levar o museu Ferolla para lá, já que suas instalações estão muito pequenas e limitadas, não cabe tudo lá dentro, tem de ficar parte guardada em outro lugar, tudo amontoado, e ainda tem a reserva técnica que caberia na garagem Brás. Caso não seja possível este espaço, estamos procurando outros. Sabemos que o poder público não tem os recursos necessários, mas a sociedade pode participar” – disse.
Segundo Norberto, outras organizações têm atuado para um novo espaço para a memória dos transportes de São Paulo.
“Nós temos veículos guardados pela SPTrans, que separou uma reserva técnica para um museu e nós estamos brigando muito com isso, junto com outros grupos, como o pessoal que está organizando a BBF (Bus Brasil Fest – exposição de ônibus antigos e novos), como o Juverci de Melo e Fábio Kelin, para tentar salvar um pouco da nossa história, porque um país sem história não vê futuro, repete os erros do passado.”
70 ANOS DE TRÓLEBUS NO BRASIL:
Trólebus Norte Americano PULLMAN STANDARD na Aclimação em 1949. – Acervo: Movimento Respira São Paulo – Reportagem: Adamo Bazani
O Movimento Respira São Paulo e demais entusiastas de meio ambiente e mobilidade também querem promover no ano que vem uma comemoração especial pelos 70 anos do trólebus no Brasil.
A primeira linha do País começou a circular em São Paulo, em 22 de abril de 1949, com trólebus norte-americanos, entre a Aclimação / Praça João Mendes, num trajeto de 7,2 km.
A ideia que foi apresentada à SPTrans, é fazer um desfile a partir da Aclimação, em homenagem à primeira linha até o centro da cidade. Há rede aérea ainda disponível para o percurso.
O desfecho do desfile seria uma exposição de fotos, documentos e veículos.
Diversas cidades do País tiveram sistemas de trólebus, mas São Paulo é ainda o que reúne a maior frota, com 200 unidades.
Atualmente são três sistemas brasileiros apenas, o da capital (operado pela empresa Ambiental Transportes entre parte da zona Leste e a região central), o do Corredor ABD (operado pela empresa Metra, com aproximadamente 90 unidades entre as zonas Leste e Sul da cidade de São Paulo e o ABC Paulista) e Santos (com seis unidades na frota, em apenas uma linha, operada pela Viação Piracicabana, mas os veículos pertencem à prefeitura).
São Paulo deveria ter uma das maiores frotas do mundo ainda hoje. Em 1978, o projeto Sistran, organizado pelo engenheiro Adriano Branco, na gestão do prefeito Olavo Setubal, previa ampliação da rede e mais de 1200 veículos.
Se o projeto fosse colocado em prática e grande parte da rede não fosse desativada, a cidade de São Paulo estaria bem avançada na questão dos transportes limpos sobre pneus, que ainda é um tema que gera embate entre diferentes montadoras de veículos, organizações em prol do meio ambiente, donos de empresas de ônibus e poder público.
Na opinião de Noberto, grande parte da rede de trólebus foi desativada em São Paulo e diversas cidades aboliram o sistema por falta de visão e por questões políticas, muitas delas relacionadas à descontinuidade administrativa entre prefeitos de partidos diferentes.
Norberto conta que, em viagens internacionais, é possível ver trólebus modernos, juntamente com bondes.
“Estive no começo do ano em Seattle, nos Estados Unidos, e em Vancouver, no Canadá, e o trólebus são todos eles de alimentação dupla, ou seja, de bateria lítio e carregam na rede. O motorista recebe por sinal de rádio quando deve abaixar e levantar a alavanca, o que acontece apenas com um toque no painel, não é mais preciso sair do trólebus e puxar lá na parte de trás. Quando você anda nas ruas de Seattle e também de Vancouver, você vê um balé de alavancas subindo e descendo. Isso dá flexibilidade ao trólebus, que evoluiu muito mais que a essência do ônibus ciclo diesel, que é basicamente o mesmo conceito há 40 anos. Várias cidades europeias estão voltando ao trólebus e ao bonde, não o VLT, o veículo leve sobre trilhos, mas ao bonde mesmo, com menos segregação no espaço urbano, mas modernizado.” – disse.
Trólebus moderno no Brasil, com ar-condicionado e sistema para wi-fi, no Corredor ABD. Foto e Reportagem: Adamo Bazani
Assim, segundo Norberto, homenagear e entender a história do trólebus, como propõe o evento pelos 70 anos do veículo no Brasil, é discutir o futuro do transporte limpo.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
