Secretário-Geral da ONU clama por urgência no combate ao aquecimento global

Publicado em: 11 de setembro de 2018

Em discurso contundente, António Guterres afirma que precisamos nos afastar rapidamente da dependência dos combustíveis fósseis, e repensar modelos de cidades e transportes

ALEXANDRE PELEGI

O secretário-geral da ONU, António Guterres, fez um discurso inflamado nesta segunda-feira, dia 11 de setembro de 2018, em Nova York, pedindo atenção ao mundo para os efeitos cada vez mais desastrosos da mudança climática hoje fora de controle.

Guterres convocou governos, empresas e cidadãos a agir com determinação e urgência para combater o aquecimento global.

“A mudança climática é a questão que define nosso tempo – e estamos em um momento decisivo. Se não mudarmos de rumo até 2020, poderemos perder a nossa chance de evitar as consequências desastrosas da mudança climática descontrolada”, afirmou.

Citando o Acordo de Paris, Guterres afirmou que faltam liderança, senso de urgência e um compromisso verdadeiro com uma resposta multilateral decisiva. “Chegou a hora de nossos líderes mostrarem que se importam com as pessoas cujo destino elas têm nas mãos. Precisamos deles para mostrar que se importam com o futuro – e com o presente”, afirmou.

Nossas cidades e setores de transporte precisarão ser revisados”, disse Guterres, cujo discurso foi focado na questão das energias renováveis, alertando que “precisamos nos afastar rapidamente da nossa dependência dos combustíveis fósseis”.

Abordando inicialmente o custo que ela causou, não só ao clima, mas aos países, Guterres ressaltou que, durante a última década, “o clima extremo e o impacto na saúde da queima de combustíveis fósseis custaram à economia norte-americana pelo menos 240 bilhões de dólares por ano”.

E citou casos exitosos de países e cidades que migraram para formas limpas de energia:

Em Bangladesh, a instalação de mais de quatro milhões de sistemas solares domésticos gerou mais de 115 mil empregos e economizou 400 milhões de dólares em lares rurais que antes consumiam combustíveis poluentes”, exemplificou, lembrando que uma mudança para a energia renovável “não apenas economizaria dinheiro, mas também criaria novos empregos, desperdiçaria menos água, aumentaria a produção de alimentos e limparia o ar poluído que está nos matando”.

Citou os casos de países ricos em combustíveis fósseis, como os Estados do Golfo e a Noruega, que “estão explorando maneiras de diversificar suas economias”. Destacou que a Arábia Saudita “está investindo pesadamente em renováveis ​​para passar de uma economia de petróleo para uma economia de energia”, e “o fundo soberano de 1 trilhão de dólares da Noruega – o maior do mundo – afastou-se dos investimentos em carvão e de várias empresas de papel e celulose devido às florestas que destroem”.

Para aqueles que acreditam que o desafio é grande demais, o secretário-geral da ONU ressaltou que humanidade “já enfrentou e superou imensos desafios; desafios que nos exigiram trabalhar juntos e deixar de lado a divisão e a diferença para combater uma ameaça comum”.

António Guterres citou um forte aliado na batalha contra as mudanças climáticas: a tecnologia.

O crescimento da energia renovável tem sido enorme. Hoje, ela é competitiva – e até mais barata – do que o carvão e o petróleo, especialmente se for considerado o custo da poluição.

No ano passado, a China investiu 126 bilhões de dólares em energia renovável, um aumento de 30% em relação ao ano anterior.

A Suécia deve atingir a meta que se auto impôs para a energia renovável em 2030 já neste ano – 12 anos antes.

Em 2030, a energia eólica e a solar poderiam movimentar mais de um terço da Europa.

O Marrocos está construindo uma fazenda solar do tamanho de Paris, a qual abastecerá mais de um milhão de casas até 2020, com energia limpa e acessível.

A Escócia abriu o primeiro parque eólico flutuante do mundo.

Na Tailândia, o Solar Power Company Group – liderado por uma mulher – viu potencial nos incentivos fornecidos pelo governo e desbloqueou ainda mais financiamento privado para construir 36 parques solares que representam quase 20% da produção solar do país”.

Com relação às empresas, Guterres destacou haver “sinais promissores” de que “estão despertando para os benefícios da ação climática“.

“Mais de 130 das maiores e mais influentes empresas do mundo planejam energizar suas operações com 100% de energia renovável. Dezoito multinacionais mudarão suas frotas para veículos elétricos. E mais de 400 empresas desenvolverão metas baseadas na ciência mais recente para gerenciar suas emissões”.

Aos que não apostam num futuro verde, disse Guterres, “a alternativa é um futuro sombrio e perigoso”.

Os que apostam, “entendem que este é o caminho para a prosperidade e a paz em um planeta saudável”.

Ressaltando que vivemos um momento de definição, Guterres afirmou que “a  transição para um futuro mais limpo e mais verde precisa ser acelerada”.

Estimando que durante a próxima década “o mundo investirá cerca de 90 trilhões de dólares em infraestrutura”, ele alertou que “temos de garantir que esta seja sustentável, ou nos amarraremos a um futuro perigoso e altamente poluente. E para que isso aconteça, os líderes do mundo precisam se apresentar”.

O chefe da ONU terminou dizendo que o mundo “está caminhando para a beira do precipício”, mas que ainda existe tempo de atuar. Segundo ele, “cada dia sem agir é um dia mais próximo de um destino que ninguém deseja”.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Deixe uma resposta