Pesquisa da UFMG aponta que veículos e apps se multiplicaram na cidade
ALEXANDRE PELEGI
Pesquisa inédita no país, realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta resultados preocupantes relativos aos serviços prestados por aplicativos de transporte de passageiros, como Uber, Cabify e 99.
Com as principais conclusões publicadas no Estado de Minas (EM) desse domingo, dia 2 de setembro de 2018, o trabalho da UFMG mostra que, ao lado da queda da qualidade do serviço, os aplicativos têm levado à precarização das condições de trabalho dos condutores.
O estudo foi feito em Belo Horizonte, mas seguramente pode ser observado como uma realidade que tem se revelado em várias cidades do mundo.
Em Nova York, por exemplo, após conseguir aprovar na Câmara da cidade uma legislação que restringe a expansão do Uber e define pagamento mínimo a motoristas, o prefeito Bill de Blasio comemorou, afirmando que a pausa na emissão de novas licenças é necessária para “uma indústria que foi autorizada a proliferar sem qualquer verificação ou regulamentação adequada”. Relembre:
Os fatos comprovados pelo estudo da UFMG são em essência similares ao que levou a cidade de Nova York a combater a liberdade de atuação dos aplicativos: a disseminação das plataformas fez explodir o número de carros e motoristas associados e também de novos apps.
A pesquisa, sob coordenação do pesquisador Fábio Tozi, professor do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da UFMG, aponta as consequências da disseminação descontrolada das plataformas digitais: exposição dos condutores a longas jornadas aliada à pressão dos custos para manutenção dos veículos. A longo prazo essa soma de fatores dificulta a atividade e os investimentos para manter os veículos em boas condições.
O resultado, segundo a matéria do Estado de Minas, já pode ser observado tanto em conversas com motoristas, quanto usuários de BH: “carros cada vez mais sucateados e qualidade das corridas em queda livre”, descreve o texto.
Entrevistado pelo EM, o professor Fábio Tozi explica: “A tecnologia dos aplicativos gera um volume muito grande de pessoas disponíveis e elas acabam entrando nessas plataformas. Isso não quer dizer que o dinheiro não circule. O motorista consegue ter dinheiro a curto prazo, mas não consegue perceber que a médio e longo prazos os gastos são altos e vão ser pagos por ele. Não está incorporado o desgaste, a manutenção, o seguro, além da depreciação do veículo”.
Tozi continua: “Como os carros rodam muito, o envelhecimento é intenso e a manutenção é alta, enquanto o retorno se torna cada vez menor. Quanto mais velho ficar o carro, mais consumirá em manutenção. O sistema e a forma como tudo isso funciona vão levar ao envelhecimento do carro”.
A matéria, assinada pelo jornalista Guilherme Paranaiba, cita o crescimento da frota dos aplicativos como um dos fatores que pesaram passaram a prejudicar os motoristas, que passaram a ter menos corridas disponíveis.
Resta saber se novos estudos trarão conclusões semelhantes às obtidas em estudos no exterior: as empresas de transporte individual competem com o transporte público, e não com carros particulares. E desarticulam e inviabilizam o serviço de táxi.
NOVA YORK
O prefeito de Nova York, após tentar sem sucesso em 2015 limitar temporariamente o crescimento do Uber na cidade, conseguiu finalmente em julho deste ano aprovar uma dura legislação que contempla as maiores preocupações do gestor público: a impossibilidade dos motoristas de ganhar a vida e o custo econômico que o congestionamento das ruas causa para as empresas da cidade.
Se na primeira vez em 2015 o prefeito acabou derrotado, após a empresa Uber fazer uma campanha milionária de anúncios na TV além de forte pressão sobre os vereadores, este ano a situação mudou radicalmente, propiciada justamente pelas próprias empresas, cujos carros invadiram a cidade. Se em 2015 contavam-se 12.600 veículos circulando pelas ruas de Nova York, em 2018 esse número saltou para 80.000, sendo que a cada mês são acrescentados mais 2.000.
O drama de seis taxistas que se suicidaram pela concorrência predatória das plataformas digitais trouxe uma forte pressão social, o que levou a Câmara de Nova York a finalmente concordar com o prefeito: é preciso fiscalizar não apenas os serviços prestados, como ainda controlar e limitar as licenças concedidas livremente, pelo bem dos motoristas e da cidade.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
