Relatório do Observatório do Clima aponta que caminhões emitem mais gases do efeito estufa do que todas as termelétricas em operação no Brasil

Foto: divulgação

Transporte individual emite mais de três vezes em comparação com o transporte coletivo por ônibus, apesar de transportar menor número de pessoas

ALEXANDRE PELEGI

O Observatório do Clima (OC) lança hoje o relatório “Emissões de Gases de Efeito Estufa no Brasil e suas implicações para políticas públicas e a contribuição brasileira para o Acordo de Paris“.

O documento é uma síntese dos 4 relatórios analíticos setoriais do SEEG – Sistema de Estimativas de Emissões de Gases para as emissões brasileiras até o ano de 2016.

A síntese do relatório pode ser traduzida como uma dura mensagem para o próximo presidente: “o país não está na trilha de cumprir sua promessa para o clima, e mudanças recentes na política ambiental tendem a afastá-lo ainda mais de seus compromissos”, afirma o OC.

O Observatório é uma coalizão das mais relevantes organizações da sociedade civil do setor ambiental.

O novo relatório traz uma análise técnica das emissões brasileiras em cinco setores, e tem a intenção “de oferecer à sociedade informações importantes que explicam a trajetória recente de nossas emissões e transmitir recomendações aos candidatos nas eleições de 2018”.

Mudanças climáticas são o maior desafio ao desenvolvimento de qualquer nação neste século, e quem pretende comandar o país pelos próximos quatro anos precisa apresentar planos robustos para enfrentar o problema”, diz o documento que apresenta o relatório.

TRANSPORTES É MAIOR EMISSOR NO SETOR DE ENERGIA

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O setor de energia – que inclui produção e consumo de combustíveis e energia elétrica – representa a terceira maior fonte de emissões brutas de Gases de Efeito Estufa no Brasil, com 19% do total de 2016 (423,4 milhões de toneladas de CO2e), atrás apenas de agropecuária (499 milhões de toneladas) e mudança de uso do solo (1,167 milhão de toneladas).

Foi neste setor, de acordo com o relatório, onde mais cresceram as emissões entre 1970 e 2016, um aumento de quase quatro vezes.

O relatório do OC aponta que “a partir de 2009 houve forte crescimento das emissões deste subsetor, em especial no transporte de cargas e no transporte individual de passageiros. No caso dos veículos de passageiros, o crescimento das emissões se deu por dois fatores. Primeiro o forte aumento da quilometragem total rodada por automóveis e motocicletas. Segundo, pela queda da participação do consumo de álcool e o aumento da demanda por gasolina a partir de 2009 devido à perda de competitividade do etanol em relação à gasolina nos preços relativos ao consumidor final. Essa tendência começou a se reverter em 2013. Em 2015 e 2016, as emissões por transporte de passageiros caíram, em decorrência da recuperação da indústria do etanol”.

O vilão das emissões continua sendo o transporte de cargas que, segundo o relatório, “permanece um segmento de emissões elevadas e mais difícil de equacionar, devido à predominância do modal rodoviário no país (65% do transporte de carga é feito por rodovia, contra 53% na Austrália, segundo país com maior predomínio deste modal)”.

Os caminhões surgem assim como a maior fonte emissora: “lançaram 84,5 milhões de toneladas de CO2e no ar em 2016, mais do que todas as termelétricas em operação no Brasil (54,2 Mt CO2e)”.

SETOR DE TRANSPORTES SÓ EMITE MENOS QUE AGROPECUÁRIA:

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Os dados das emissões segundo as atividades econômicas que as originam indicam que a atividade agropecuária é a principal fonte de gases de efeito estufa no Brasil, respondendo por 74% das emissões em 2016.

O setor de transportes vem na sequência, com 9% das emissões, todas oriundas do consumo de combustíveis fósseis.

O relatório informa que o transporte individual (automóveis e motocicletas) “emite mais de três vezes em comparação com o transporte coletivo (ônibus), apesar de transportar um número menor de pessoas”. O transporte rodoviário de cargas também se destaca por emitir quase cinco vezes mais que a soma de todas as emissões de transporte aéreo, ferroviário e hidroviário.

Para o setor de transportes especificamente o Observatório do Clima recomenda uma “rediscussão do papel do petróleo na economia brasileira nos próximos 20 anos e das políticas de subsídio para essa fonte fóssil de energia”. Veja abaixo as 10 recomendações na íntegra:

RECOMENDAÇÕES DA OC:

  1. Definição de uma nova governança climática do Brasil que seja orientada pela ciência e os compromissos no contexto do Acordo de Paris
  2. Suspensão de propostas e de negociações com setores do Parlamento que possam levar a retrocessos ou flexibilizações na legislação ambiental
  3. Revisão dos compromissos do Brasil para alinhá-los às metas do Acordo de Paris para 2025 e 2030, buscando de evitar aquecimento global além de 1,5°C
  4. Rediscussão do papel do petróleo na economia brasileira nos próximos 20 anos e das políticas de subsídio para essa fonte fóssil de energia
  5. Ampliação do Programa de Agricultura de Baixo Carbono (Programa ABC) e inclusão de emissões nos critérios do sistema de subsídios federais do setor
  6. Aceleração do processo de implementação de mecanismo(s) de precificação de carbono no Brasil, a partir do diálogo entre Governo e sociedade civil
  7. Adequação de políticas públicas e planos de desenvolvimento (em infraestrutura, energia, agropecuária e indústria) à Política Nacional sobre Mudança do Clima
  8. Aprimoramento da gestão e planejamento da Política Nacional sobre Mudança do Clima com efetiva participação da sociedade
  9. Estabelecimento de uma lei de responsabilidade climática que consolide pactos internos para cumprir as metas assumidas pelo Brasil e as aprofunde
  10. Ampliação da agenda climática do país, com direcionamento de recursos para institutos de pesquisa em mudança do clima e fortalecimento de programas locais

O documento síntese dos 4 relatórios analíticos setoriais do SEEG – Sistema de Estimativas de Emissões de Gases pode ser lido na íntegra no link:

Relatorios-SEEG-2018-Sintese-FINAL-v1

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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