Enquanto ônibus a hidrogênio no Brasil não saem da garagem, Alemanha terá trem até o final do ano

Início das operações está previsto para dezembro de 2021.

Primeiro trem do mundo a hidrogênio é da francesa Alstom, que obteve autorização do Governo Alemão para serviços com passageiros

JESSICA MARQUES/ADAMO BAZANI

A fabricante mundial de trens, Alstom, anunciou que até o final deste ano terá sua composição de passageiros movida a hidrogênio em circulação na Alemanha.

Segundo a empresa, as autoridades alemãs acabaram de conceder autorização para a circulação.

Em novembro de 2017, a Alstom fechou um contrato com o governo de Baja Sajonia, no noroeste da Alemanha, para a entrega de 14 trens a hidrogênio.

Os trens Coradia iLint, construídos na fábrica local de Salzgitter e em Tarbes, no sul da França, estão previstos para transportar passageiros entre Cuxhavem, Bremerhaven, Bremervörde e Buxtehude, a partir de dezembro de 2021.

O trem a hidrogênio é o primeiro com a tecnologia de célula de combustível que faz o transporte de passageiro, conforme contou Enak Ferlemann, secretário de Estado na área ferroviária, que atua no Ministério dos Transportes, na Alemanha.

“É uma alternativa eficaz e pouco poluente ao diesel, sobretudo nas linhas secundárias, onde as catenárias não são econômicas ou não estão disponíveis” — disse.

Os veículos funcionam com uma célula de hidrogênio, que produz energia elétrica para o funcionamento da composição. Os trens também emitem pouco ruído e, segundo a Alstom, soltam apenas vapor de água e água condensada.

BRASIL:

Já no Brasil, a situação do hidrogênio como matriz energética para transporte coletivo está bem diferente do que é visto na Europa e Ásia. Apesar de grandes investimentos, ora com verbas públicas, ora com recursos internacionais, os avanços ocorrem de maneira bem mais lenta.

Há quatro ônibus a hidrogênio no Brasil. Nenhum está transportando passageiros.

Relembre: Governo de São Paulo considera ônibus articulado a hidrogênio a partir do gás natural 

Em 2017, um relatório da Secretaria de Energia e Mineração do Estado de São Paulo mostrou que o governo estava estudando a possibilidade de continuar com os investimentos no projeto de ônibus a hidrogênio.

De acordo com o documento, a proposta havia sido levada ao BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social em 2016.

COMO FUNCIONA

Ônibus a hidrogênio – Continuidade do projeto da EMTU, com incorporação da tecnologia de produção de hidrogênio a partir da reforma de Gás Natural: Desenvolvimento e submissão de proposta ao BNDES em 30/04/16 para financiamento de projeto, no valor de R$ 16 milhões, com contrapartida de 20% com recursos de P&D da Comgás, e participação do RCGI, Comgás, Concessionária Metra, EMTU e seus parceiros. Essa proposta é composta pelo: Desenvolvimento de planta de produção de hidrogênio a partir de reforma de gás natural para utilização em veículos de transporte público de passageiros (ônibus) da EMTU (2ª geração); Estudos comparativos de tecnologias de produção de Hidrogênio pela tecnologia da Eletrólise e reforma de gás natural; Desenvolvimento de ônibus articulado movido a hidrogênio – 3ª geração – e comparativo de desempenho operacional com ônibus movido a gás natural.

De acordo com tese sobre produção de hidrogênio do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte, a produção do hidrogênio a partir do gás natural traz vantagens, como a eficiência e o menor custo, porém, tem a desvantagem de emitir poluentes, mesmo que em proporções menores que um ônibus diesel lançaria no ar.

Hidrogênio a partir do gás natural

De acordo com FURIGO (2007), é a alternativa mais barata e eficiente, o hidrogênio é obtido quebrando as moléculas de hidrocarboneto que compõem o combustível. Grande parte da produção de hidrogênio hoje é feita a partir da reforma catalítica do gás natural (cerca de 90%).

Sua grande desvantagem é a emissão de dióxido de carbono (CO2), e também mantém a dependência do petróleo, fazendo com que não se invista em fontes renováveis.

AINDA NÃO AVANÇOU:

Até agora, o Brasil possui quatro ônibus a hidrogênio, mas que não são ainda utilizados pelos passageiros. Os veículos estão encostados na garagem da operadora do Corredor ABD.

O projeto teve custo total de mais de US$ 16 milhões, como aponta o próprio site da agência do Governo Federal que financia pesquisa e inovação, a Finep, sendo na época US$ 12,3 milhões do Global Environment Facility (GEF), aplicados por meio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), e R$ 8,4 milhões da Finep – Relembre:  http://www.finep.gov.br/noticias/todas-noticias/5045-novos-desafios-para-a-implantacao-de-onibus-a-hidrogenio-sao-debatidos-na-finep

O primeiro veículo foi apresentado à população no dia 1º de julho de 2009. Na época, o governador de São Paulo era José Serra e a promessa era de que até 2011 a rotina dos transportes seria marcada por esses ônibus que em vez de soltarem fumaça, emitem vapor d’água durante a operação.

O ônibus quase nem rodou em testes no Corredor Metropolitano ABD, que liga São Mateus, na zona leste da capital paulista, ao Jabaquara na zona sul, por municípios do ABC. A capacidade de passageiros era pequena, 63 pessoas entre sentadas e em pé. A lotação limitada se dava porque os tanques e todo equipamento para células de hidrogênio ficavam na parte de trás, roubando espaço interno. Mas os problemas não foram apenas estes: baixo desempenho e  custos tornavam o projeto, desafiador, no mínimo.

Apesar de a apresentação do primeiro veículo ter ocorrido em 2009, o chamado “Projeto Ônibus Brasileiro a Hidrogênio” teve origem em 16 de janeiro de 2002, quando foi publicada a manifestação de interesse para avaliação do mercado e tentativa de formação de Consórcios para desenvolvimento e fabricação dos veículos. Apenas em novembro de 2006, é que o projeto foi lançado formalmente e consistiu na aquisição, operação e manutenção de até quatro ônibus com célula combustível a hidrogênio, conforme a própria EMTU: http://www.emtu.sp.gov.br/emtu/empreendimentos/projetos-de-desenvolvimento-tecnologico/onibus-a-hidrogenio.fss

Todo este projeto custou até agora, de acordo com o portal do Ministério das Minas e Energia, mais de US$ 16 milhões de dólares, com financiamento público e internacional. O projeto foi coordenado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU),  Agência Brasileira de Cooperação (ABC), direção do Ministério das Minas e Energia (MME),  e recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e da Agência Brasileira de Inovação (Finep). Entre as fabricantes que participaram, estavam Tutto Trasporti, que nesse período mudou de direção, Marcopolo com a carroceria.

A garagem teve de contar com uma estação inicial de abastecimento, que logo se tornou obsoleta.

O projeto continuou até que em 15 de junho de 2015, às 10h, e, no mínimo quatro anos de atraso, o governador Geraldo Alckmin participava do lançamento de três novos modelos, também com carroceria Marcopolo e chassi do Grupo Tutto já sob nova direção.

Os veículos ficaram mais modernos. Não havia mais o problema de espaço interno reduzido, já que os equipamentos e os tanques de hidrogênio ficaram na parte superior do ônibus.

Nasceu assim a expectativa de o projeto deslanchar e, finalmente, os passageiros andarem nos veículos. Uma nova estação de abastecimento também foi apresentada dentro da garagem.

Mas operação que é bom, quase nada.

Os três veículos circularam de maneira esporádica entre os meses de julho de 2015 e março de 2016, com poucas viagens comerciais.

Apesar de todo o entusiasmo passado nas notas oficiais à imprensa pela EMTU- Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, depois de março ninguém conseguiu ver mais esses veículos no Corredor ABD.

EMTU CONSIDERA PROJETO UM SUCESSO:

Em resposta à reportagem no site Diário do Transporte, sob título “Governo de São Paulo considera ônibus articulado a hidrogênio a partir do gás natural” a EMTU/SP esclarece que o projeto dos ônibus movidos a célula a combustível hidrogênio alcançou seus objetivos no Brasil, tendo colocado em operação comercial uma frota com um combustível totalmente limpo. Com esse desempenho, o Brasil entrou para um seleto grupo de países (Alemanha, Inglaterra, Holanda, Suíça, Itália, Noruega, Estados Unidos, Canadá e China).

O programa dos ônibus movidos a hidrogênio não contou com recursos financeiros da EMTU/SP ou do Governo do Estado de São Paulo. A EMTU/SP foi designada para ser a Coordenadora Nacional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, que entrou com o apoio financeiro do Global Environmental Facility (GEF), além de recursos provenientes da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), por intermédio do MME. Para o desenvolvimento de todo o projeto foram destinados US$ 16 milhões.

A EMTU/SP sempre foi pioneira em testar novas tecnologias como o ônibus a gás, o ônibus elétrico com baterias e veículo movido a etanol. Apesar de testar e verificar a viabilidade técnica, a empresa não tem a responsabilidade de manter a frota ou multiplica-la. O plano de expansão da frota de veículos movidos a hidrogênio depende da implantação de uma rede nacional de fornecedores de peças e componentes e também de mecanismos de incentivos governamentais para que as empresas operadoras do transporte público possam se interessar pelo programa.

O projeto Ônibus movido a Célula de Hidrogênio tinha vigência até 31/03/2016 e circulou no Corredor ABD até início de junho de 2016. Para não interromper um programa tão vitorioso, a EMTU/SP já vinha, muito antes dessa data, prospectando novas parcerias para possibilitar a continuidade operacional dos ônibus e da estação em função de não haver mais compromissos entre os parceiros de projeto.

Uma das possibilidades é essa publicada no Diário Oficial que seria a incorporação da tecnologia de produção de hidrogênio a partir da reforma de gás natural. Essa proposta é composta pelo desenvolvimento de uma planta de produção de hidrogênio, a partir da reforma de gás natural, para utilização em veículos de transporte público de passageiros da EMTU/SP; Estudos comparativos de tecnologias de produção de Hidrogênio pela tecnologia da Eletrólise e reforma de gás natural; Desenvolvimento de ônibus articulado movido a hidrogênio e comparativo de desempenho operacional com ônibus movido a gás natural.

A EMTU/SP considera muito importante a operação e o desenvolvimento da tecnologia do hidrogênio, sendo que todo o esforço dispendido tem relevante importância para o Brasil, uma vez que trouxe conhecimento técnico e desenvolvimento à indústria nacional.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Jessica Marques para o Diário do Transporte

 

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