Transporte público perde passageiros em países mais ricos, diz levantamento do The Economist

Publicado em: 24 de junho de 2018

Metrô em Nova Iorque é um dos que mais perdem demanda

Movimento pode se repetir em países em desenvolvimento. Entre as causas sugeridas, estão novas relações de consumo e trabalho, além dos aplicativos de transporte, mas a individualização do transporte ainda é o maior concorrente do transporte coletivo público. As consequências disso podem custar caro

ADAMO BAZANI

Os aplicativos de transporte, como Uber e Lyft, e novas relações de consumo e trabalho, nas quais a internet tem um papel fundamental para reduzir as necessidades de deslocamentos, são apontados por especialistas como causas do enfraquecimento da demanda do transporte público em países desenvolvidos, onde as redes de ônibus e metrô são, em geral, de qualidade. Mas o grande concorrente do transporte público coletivo é ainda o transporte individual privado, que conta com estímulos cada vez maiores, num modelo econômico que ainda premia a “individualização” dos deslocamentos.

E o movimento pode se repetir, mesmo que com outros ritmos e proporções, em países em desenvolvimento, como o Brasil.

O jornal The Economist fez um levantamento com as agências públicas de transportes coletivos de cidades de países ricos e, com exceções como Sidney e Tóquio, em todos os casos pesquisados, a perda de demanda dos ônibus, VLTs, bondes, metrô e trens, é grande.

E o transporte coletivo perde, mesmo com as medidas restritivas aos carros. Veja alguns exemplos.

EUA:

Segundo a American Public Transportation Association, o número de viagens vem caindo em todo o País. Alguns exemplos chamam a atenção:

– Los Angeles: Desde 1990, três impostos aumentaram para financiar o transporte coletivo. Redes de trens e metrô e de corredores de ônibus rápidos de alto padrão se expandiram. Mesmo assim, nos últimos cinco anos, as viagens de transportes público na região metropolitana de Los Angeles caíram 19%.

– Nova Iorque: Entre abril de 2017 e abril de 2018, foram realizadas 2,8% menos viagens nos transportes públicos nos dias úteis e 4,2% aos fins de semana.

– Chicago e Washington: quedas de demanda acima de 4% no último ano.

CANADÁ:

– Toronto: Queda no número de passageiros adultos desde 2014. Entretanto, subiu o número de crianças nas redes de ônibus e metroferroviárias, que contam com gratuidade.

EUROPA:

– Londres (Inglaterra): Queda de 5% nas viagens de ônibus desde 2014. No ano, desde março, a queda no Metrô foi de 1,4%, o que significa 19 milhões de viagens a menos. Isso ocorre mesmo com o crescimento de 1% no crescimento da população em Londres e de 3,3% no nível de emprego.

– Paris (França): O número de passageiros transportados em 2017 retrocedeu aos níveis de 2012.

– Berlim (Alemanha): As viagens em transporte público crescem numa proporção equivalente à metade do tempo de trabalho das pessoas.

– Madri (Espanha): Entre 2007 e 2013, o metrô perdeu 19% da demanda. Grande parte deste número é reflexo da crise econômica que diminuiu as atividades econômicas e as necessidades de deslocamentos. Mas, passando a crise, a recuperação da demanda ocorre em taxas muito pequenas, abaixo do esperado.

Há questões pontuais que podem explicar o aceleramento da queda das viagens nos coletivos em algumas cidades. Em Paris e Londres, as pessoas declararam ter medo de ataques terroristas em transportes públicos. Em Nova Iorque, o Metrô está “rangendo”, com infraestrutura deteriorada, reflexo de baixos investimentos.

Em outras cidades, o mau tempo em algumas épocas do ano e problemas de tráfego gerados por obras também são fatores citados.

Mas, segundo os especialistas ouvidos pelo periódico britânico, não são explicações suficientes, já que está havendo uma mudança de comportamento das pessoas nas cidades.

Em Nova Iorque, por exemplo, onde o “deteriorado” metrô perde demanda, entre janeiro e abril de 2018, a demanda dos ônibus foi 7,6% menor do que a autoridade de transporte local esperava.

Segundo os estudos de gerenciadoras locais de transportes analisados pelo The Economist, as pessoas nas cidades parecem ter gostado das “soluções de transporte sob demanda”. Serviços que pegam o passageiro na porta de casa e deixam na porta do destino, com baixo custo, têm agradado.

“Talvez o transporte público tenha parecido relativamente sombrio porque as pessoas adquiriram melhores opções. O Uber, o Lyft e outros serviços de carros de passeio provavelmente estão atraindo as pessoas para longe dos trens e ônibus, assim como estão demolindo o comércio de táxis. Em San Francisco, o transporte público é responsável por 16% de todas as viagens de um dia para o outro, e o passeio é de 9%. As pessoas em geral parecem usar o Uber e o Lyft para chegar a lugares bem servidos pelo transporte de massa (veja o mapa). Um estudo da cidade feito por cinco acadêmicos californianos perguntou aos clientes que eles teriam feito sua viagem mais recente se o serviço não existisse. Um terço respondeu que eles teriam tomado transporte público. Em um estudo de Boston, 42% disseram a mesma coisa.” – diz a publicação.

HOME OFFICE:

A maior parte dos deslocamentos de transporte público em todo o mundo ocorre por motivo de trabalho.

Quando as pessoas não precisam se deslocar para trabalhar, o transporte público é o primeiro a sentir.

Outros motivos de viagens de transporte público são educação e compras.

No mundo todo, o Home Office cresce assim como as compras on line e a chamada EAD – Educação à Distância.

Os exemplos não faltam onde a queda de demanda dos transportes públicos é mais acentuada.

Segundo o British Retail Consortium, neste último mês de maio, as compras em lojas físicas caíram 1,5% em comparação a maio de 2017. O motivo, segundo a entidade com sede em Londres é o aumento das compras on line.

Já o mais recente levantamento do instituto de opinião pública, Gallup, mostrou que 43% das pessoas no mercado formal, trabalham pelo menos parte de suas jornadas remotamente.  Em 2012, este número era de 39%.

Na Grã-Bretanha, segundo as últimas estatísticas oficiais, o número de pessoas que trabalham exclusivamente em casa subiu de 2,9 milhões em 1998 para 4,2 milhões em 2014.

VIAGENS DE CARRO AINDA ATRAEM MAIS:

Mais ainda, o grande motivo para as pessoas deixarem o transporte público é o alto investimento que o transporte privado recebe todo o mundo.

Financiamentos cada vez mais facilitados, o desenvolvimento da indústria automotiva que consegue fazer carros mais baratos e o preço do petróleo que caiu nas últimas décadas são fatores que fazem em todo o mundo que mais pessoas se interessem pelos carros.

Em quase todas as cidades do mundo rico, a competição mais acirrada pelo transporte público não vem do Uber, do ciclismo ou do apelo de trabalhar no jardim das traseiras. Pelo contrário, vem da condução. Na América, 76% dos passageiros viajam sozinhos para trabalhar, e a participação aumentou um pouco na última década. A explicação final para o esvaziamento de ônibus e trens é que a viagem de carro solitário se tornou mais atraente.

Certamente é mais barato. O preço do petróleo começou a cair no verão de 2014. Desde então, ele se recuperou, mas não aos níveis elevados de cinco anos atrás. Enquanto isso, os motores dos carros se tornaram mais frugais. O petróleo mais barato reduz consideravelmente o custo da condução em toda a América, onde o combustível é apenas levemente tributado. Mesmo na Grã-Bretanha, dados da Fundação RAC, um grupo de pesquisa, sugerem que a inflação de custo de condução (que inclui combustível, bem como seguro e assim por diante) tem sido menor do que a inflação de ônibus ou trem nos últimos dez anos.

Apesar de um renascimento urbano exaltado, os subúrbios da América e os “exurbs” mais distantes estão crescendo mais rapidamente do que suas cidades centrais. Muitos desses lugares têm transporte público ruim e muito espaço para carros, graças a regras que obrigam os desenvolvedores a fornecer um número mínimo de vagas de estacionamento. Algumas cidades europe4ias estão se expandindo também. Berlim, por muito tempo uma cidade barata (e um refúgio de artistas como resultado) está se tornando onerosa. Knight Frank, um agente imobiliário, diz que os preços das casas na cidade aumentaram 21% no ano passado. Aqueles que saem de Berlim em busca de moradias mais baratas encontram uma rede ferroviária empobrecida, com apenas um trem por hora em algumas linhas. Então eles dirigem. – diz parte da matéria.

No caso específico dos Estados Unidos, o transporte público é muito usado por imigrantes e pessoas de menor renda. Mas esta classe também tem conseguido comprar carros.

No sul da Califórnia, o transporte público é muito usado por imigrantes pobres, especialmente imigrantes do México e da América Central. Mas pesquisas feitas por Michael Manville e outros da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, mostram que esse grupo está correndo para as estradas atrás de seus próprios volantes. Entre 2000 e 2015, a proporção de lares de imigrantes mexicanos sem carro caiu de 16% para 5%. Enquanto isso, a população imigrante de Los Angeles e seus arredores está se tornando um pouco menos hispânica e um pouco mais asiática. “Os países com maior probabilidade de nos enviar passageiros estão nos enviando uma proporção menor de imigrantes”, diz Manville.

GRANDES PREOCUPAÇÕES:

Todos os dados trazidos no levantamento mostram situações preocupantes no mundo desenvolvido que podem ecoar em cidades de países em desenvolvimento.

Os modelos econômicos ainda têm estimulado a propriedade individual na mobilidade. Comprar carros é um hábito cada vez mais incentivado e fácil em quase todas as cidades.

Os aplicativos de transportes alegam que tiram carros particulares das ruas, mas estes veículos também são carros, com baixa capacidade e que ocupam os espaços públicos proporcionalmente e em números concretos muito mais que ônibus, VLTs e ferrovias.

Além de haver um impacto no trânsito, a poluição também é outro reflexo.

Isso sem contar com o fim social do transporte público, que pode estar em risco.

Gratuidades não são exclusivas dos ônibus e trens brasileiros.

Em quase todas as cidades do mundo, enquanto o número de passageiros pagantes é cada vez menor, cresce o total de usuários com os benefícios de gratuidades.

Hoje, parte destas gratuidades no mundo desenvolvido é bancada por subsídios, mas a maior parcela vem das tarifas cobradas dos pagantes.

No Brasil, na maior parte dos casos, estes benefícios estão embutidos nas tarifas de ônibus, trens e metrô.

Com a tendência de mais pessoas nos carros, na internet e nos aplicativos, como ficarã o financiamento do transporte público coletivo? Quem vai pagar a conta quando as gratuidades superarem os pagantes?

Será o Uber? Será o e-commerce?

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Comentários

  1. Joao Luis Garcia disse:

    Excelente material
    Venho afirmando desde 2013 quando houve o estopim da crise da tarifa no País
    O Transporte Público nunca esteve tão mal, basta verificar o alto índice de endividamento do setor
    A queda de passageiros aliada ao aumento da gratuidade e aos aplicativos de transportes está acabando com o setor
    E para agravar mais ainda a crise atual, temos o poder judiciário que nunca interferiu nas concessões de tarifa anteriormente, hoje tornou-se o Sr da razão para o assunto
    Contratos são desrespeitamos, cláusulas de reajuste da tarifa passaram a inexistirem na visão do Poder Concedente.

  2. Rogerio Belda disse:

    Interessante estas observações. É difícil imaginar como seria diferente quando se trata de futuro.Nas cidades europeias é muito ampla a concessão de gratuidades. Não se trata de benemerência: É o estimulo para as pessoas usarem menos os automóveis. Isso poderá parecer estranho para brasileiros urbanos, mas acontece que se todos os moradores de uma cidade usassem automóveis, o espaço necessário p/a circulação seria equivalente à área da cidade – “aporéticamente” ela teria que ser construída em outro local. Eu já disse isso, mas nunca é demais repetir, porque pouca gente acredita ou não querem acreditar.

  3. Rogerio Belda disse:

    Os espiritas tem um ditado “Quem não vem pelo amor, vem pela dor”. Poderia aplicar-se também ao transporte coletivo urbano porque se todas as pessoas capacitadas usassem automóveis para se deslocarem na cidade, o espaço viário necessário para circulação e estacionamentos seria maior que o tamanho da cidade! Curiosa condição que um filósofo classificaria como “aporética”. Rogerio Belda

    1. Joao Luis Garcia disse:

      Boa noite

      Acredito que a concessão de gratuidade só pode dar certo em um transporte público estatizado, agora em um serviço que é operado pela iniciativa privada e a operadora como qualquer empresa e qualquer ramo de atividade, visam lucro, como fomentar a gratuidade ?
      Outra coisa, quando se fala na Europa deve-se levar em consideração que na grande maioria as operadoras são estatais ou de capital misto.

  4. Rogerio Belda disse:

    Ainda assistiremos mais mudanças no comportamento dos viajantes diários e metrópoles.
    Mas, há uma realidade que não muda sem que venham a ocorrer diversas transformações revolucionarias no modo de vida urbano; Pois se todos os habitantes de uma cidade passarem a usar automóvel todo o espaço urbano terá que ser destinado à circulação viária …… e a cidade teria que ser construída em um outro local… ( Esta é uma situação que é denominada pelos filósofos de “aporética”! TRADUÇÂO: sem saída…

  5. Rodrigo Zika! disse:

    Mesmo em países com uma malha superior ao do Brasil, ainda tem isso, porém tem diversos fatores além desses, os carros elétricos são baratos em países Europeus e EUA, assim muitos migram pra esses modelos, e outros por motivos já citados, esses países diferente do Brasil, são seguros pra morar, menos violência, pessoas mais felizes, melhores condições de vida etc, além da malha cicloviária, tem tudo isso que conta.

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