OPINIÃO: Tecnologia nos transportes, prioridade nos investimentos

Foto: divulgação

ALEXANDRE PELEGI

O X da questão é o fato de que uma grande quantidade de pessoas mora em um município vizinho, mas trabalha no Município do Rio de Janeiro. O primeiro problema disso resultante é o do transporte: se uma pessoa vive na cidade A e se desloca para a cidade B, que prefeito é responsável por isso? O de A ou o de B? Em alguns casos, a questão pode ser resolvida apelando para uma instância superior (o estado), mas muitas vezes isso não é possível. (Rio: a governança, Fabio Giambiagi)

Existe hoje no mundo uma preocupação que perpassa os principais atores e agentes da mobilidade urbana: a necessidade de se otimizar a infraestrutura de transportes existente nas grandes cidades. São protagonistas deste cenário, entre outros, tanto as grandes montadoras, quanto startups e institutos de pesquisa de universidades e fundações.

A Ford, por exemplo, não quer ser vista “só como uma montadora”, quer se tornar uma empresa de “serviços de transporte” altamente tecnológica: não mais uma simples “vendedora de automóveis”, mas uma empresa capaz de responder à rápida urbanização. O mesmo vale para as demais montadoras: com discursos diversos, almejam perseguir o mesmo destino.

A questão principal é cristalina: o setor automobilístico está sendo posto contra a parede por projetos desenvolvidos no Vale do Silício, como os carros elétricos da Tesla Motors Inc., o programa de carro autônomo do Google, e o negócio de compartilhamento de caronas da Uber, apenas para citar, quiçá, os mais importantes.

Com o esgotamento da infraestrutura urbana dificultando a cada dia a vazão do enorme fluxo de veículos nas cidades, a busca por otimizar o espaço urbano existente não é, na verdade, o principal objetivo, mas sim a natural decorrência de se atender ao cliente do automóvel. O foco está em se buscar uma redução do desconforto gerado pelo trânsito e seus naturais efeitos colaterais, que vão desde o estresse na direção, até os acidentes no viário (desde os mais graves até os mais banais). Fala-se agora em Uber movido a carros voadores…

A busca para diminuir o desconforto do consumidor da “solução-automóvel” conta com investimentos pesados em traquitanas tecnológicas. São aplicativos que “ensinam” o melhor caminho ao motorista; que possibilitam uma redução de tempo de viagem para quem não abre mão do transporte individualizado, como o Uber  e similares; incluem tecnologias embarcadas em veículos que tornam o ato de dirigir mais seguro e prazeroso, eliminando-se dificuldades banais como atender (ou ligar) o celular enquanto trafega, estacionar sem riscos e manobras desnecessárias, a eliminação de pontos cegos na direção; etc.

É conhecida a tecnologia já existente em países como Inglaterra e EUA, que regula a velocidade da via em função do volume de tráfego. Tudo feito para otimizar ao máximo o viário existente, diminuindo-se a necessidade de pesados investimentos em obras civis, como o aumento de faixas em avenidas ou estradas, e a construção de viadutos e túneis.

O que se vê, no entanto, é que a enormidade de investimentos em pesquisas para reduzir o desconforto do transporte motorizado individual é desproporcional ao problema central das grandes metrópoles: a dificuldade de mobilidade da maioria dos cidadãos. Soluções para garantir maior conforto para o usuário do transporte de massa passam por questões bem mais humildes, como, por exemplo, garantir regularidade no tempo do percurso e otimizar ao máximo a utilização da rede de transportes, integrando de forma inteligente e pragmática os mais diversos modais disponíveis nas cidades.

Um artigo publicado no site da ANTP há exatos dois anos, de autoria do engenheiro Peter Alouche, propunha um debate necessário na busca da máxima eficiência de uma rede de transportes numa metrópole como São Paulo. Seu foco é o setor de trilhos, mas este debate deve ser estendido para toda a rede (o que inclui calçadas e ciclovias, além de ônibus), o que nos leva, naturalmente, a uma questão ainda mais necessária: a autoridade metropolitana na área de transportes públicos.

Mais que otimizar a infraestrutura viária existente (e é preciso que se defina com clareza que em benefício da maioria dos cidadãos), é essencial otimizar o uso inteligente da atual rede de transportes das cidades. E nisso a tecnologia será vital. Desde que, claro, posta a serviço de um Plano de Mobilidade Urbana integrado a um Plano Diretor, contribuindo decisivamente para sua máxima eficiência.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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