OPINIÃO: Cidades habitáveis, saudáveis e competitivas

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ALEXANDRE PELEGI

Nesse 2018, como acontece nos últimos anos, muitas cidades brasileiras celebrarão com eventos e ações práticas o “Dia Mundial Sem Carro”.

O “sem carro” da frase, por evidente, indica a necessária reflexão que todos precisamos fazer sobre os efeitos causados pelo uso abusivo do automóvel às nossas cidades. Um uso estimulado por políticas públicas de seguidos governos desde Juscelino Kubitscheck, sem exceção, e que sempre tiveram na indústria automotiva o foco central de suas ações.

Como diz o provérbio, o uso do cachimbo nos deixou a boca torta…

O mal está feito. De setor mais protegido da economia brasileira, as montadoras espelham hoje o cruel retrato da crise de nosso tecido urbano: os nefastos efeitos da opção pelo transporte motorizado individual espetaram uma conta impagável para nossas cidades.

Esta conta já foi (e continua sendo) mensurada em vários segmentos, que abarcam desde a saúde pública – o que passa pelos acidentes de trânsito, pelos assustadores efeitos ambientais e seus danos para as pessoas e o planeta, sem esquecer o sedentarismo, até desaguar na economia, ao tornar as cidades cada dia mais caras ao alargarem as distâncias e os tempos de percurso. A qualidade de vida despenca, consequência natural de uma comédia de seguidos erros humanos.

A cidade com a cara do carro é o local do concreto, que aparta as pessoas, que segrega classes, que afasta bairros, que subverte as receitas públicas. Uma máquina de sorver dinheiro, o hábito de utilizar automóvel provocou desequilíbrios monumentais. Se a maioria dos recursos públicos vai para estimular e justificar o uso do carro como transporte preferencial, é natural que o “primo pobre” da história – o transporte coletivo urbano – sofra as consequências. Afinal, sem dinheiro não há transporte público coletivo de qualidade (e a continuar assim, não haverá transporte público em quantidade suficiente).

É comum ouvir na imprensa (nos noticiários da TV principalmente) críticas seguidas à má qualidade dos serviços de ônibus e trilhos, como se isso fosse decorrente apenas de problemas de gestão ou até mesmo da má vontade do gestor. Mas é raro ouvir qualquer explicação sobre os motivos reais que nos trouxeram a tal situação.

Inverter uma história que começou errada, que permaneceu errada e insiste em se perpetuar, é a tarefa histórica que os gestores municipais precisam urgentemente assumir como questão central. Embora a maior parte dos problemas ocorra nas cidades, responsabilidade imediata dos gestores municipais, temos os deslocamentos metropolitanos, que vivem realidade tão grave quanto: uma rede composta por vários modos de transporte, controlada isoladamente por vários níveis de governo.

Outras cidades e regiões metropolitanas do planeta já descobriram, não é de hoje, que é ilógico manter os privilégios do automóvel e, ao mesmo tempo, garantir cidades habitáveis, saudáveis e competitivas.

Alexandre Pelegi – editor da Revista dos Transportes Públicos

(Editorial da Revista dos Transportes Públicos, nº 148)

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