Ônibus de Londres mantém programa para pessoas com dificuldades de aprendizagem

Foto: James O Davies /English Heritage

Programa chamado “Big Day Network”, da Transport for London (TfL), realiza encontros de conscientização em garagens de ônibus, reunindo Ongs, gerentes da empresa e motoristas. Há três anos, a Rede reúne sugestões e ideias

ALEXANDRE PELEGI

Com informações e textos do jornal The Guardian (UK)

Mario Christodoulou afirma à reportagem do jornal inglês The Guardian que, para ele, os ônibus são essenciais. “Eu uso ônibus todos os dias para ir ao trabalho e às compras; é a minha única maneira de viajar“, ele diz.

Christodoulou, morador da região sudoeste de Londres, é um atuante defensor na Ong “Kingston Involve”, que atua com pessoas que sofrem de algum tipo de transtorno de aprendizagem. Como parte de seu trabalho é defender os direitos de pessoas com deficiência, ele está envolvido na Big Day Network, da Transport for London (TfL), autoridade do transporte público, responsável para a maioria dos aspectos do sistema de transporte na Grande Londres, na Inglaterra.

Nesse dia, o “grande dia em rede”, são organizados encontros de conscientização sobre diversas formas de deficiência. Os eventos são feitos em garagens de ônibus, reunindo pessoas que sofrem de diferentes tipos de transtorno de aprendizagem, equipes de apoio e motoristas de ônibus e gerentes da TfL.

Cabe lembrar que “dificuldade de aprendizagem” é uma expressão usada para se referir a condições sócio biológicas que afetam as capacidades de aprendizado de indivíduos. Ou seja, não se trata de alguém mais ou menos inteligente. O também chamado transtorno de aprendizagem pode ser explicado como a dificuldade importante e permanente para o aprendizado da leitura, da escrita, da aritmética e outros conteúdos específicos.

Segundo a TfL, a Rede se reúne 3 vezes por ano, e também trabalha em eventos e projetos adicionais. Nestas ocasiões, membros e apoiadores de grupos que lutam em defesa de pessoas com dificuldades de aprendizagem de toda a região de Londres têm a oportunidade para falar diretamente com os gerentes e funcionários da TfL sobre os serviços de transportes que usam, e as informações que desejam acessar.

Atualmente a Rede conta com 50 membros de Ongs na cidade – 37 pessoas com dificuldades de aprendizagem e 13 apoiadores -, e já realizou eventos em 15 das 80 garagens da cidade nos últimos três anos, em parceria com George Marcar, gerente de comunicações da TfL.

As discussões são realizadas em um ônibus estacionado no interior de uma garagem, o que ajuda as pessoas a visualizar as questões levantadas.

Christodoulou afirma que estes eventos, que debatem problemas de deficiências em ônibus, são importantes, “para que possamos compartilhar informações uns com os outros sobre problemas que afetam as pessoas“. E conclui: “É importante ouvirmos os motoristas de ônibus e eles nos ouvirem.”

Os ônibus são o tipo de transporte público mais utilizado pelos londrinos portadores de deficiências de aprendizagem, de acordo com pesquisa da TfL. De 58 londrinos com problemas de aprendizagem, 91% deles disseram que usaram ônibus em seus deslocamentos durante um período de 12 meses.

O design acessível é a principal razão para a popularidade do ônibus entre a população. A TfL diz que todos os 9.000 veículos operados pelas nove empresas de ônibus na cidade estão equipados com rampas automáticas.

Depois de uma recente decisão da Suprema Corte, o governo prometeu aos usuários de cadeiras de rodas que iria aprimorar seus direitos ao uso dos ônibus. A TfL lançou em agosto de 2017 um projeto de plano de ação de acessibilidade nos transportes (todos os modos) que visa melhorar ainda mais a situação dos cadeirantes. Veja no link: https://www.gov.uk/government/consultations/draft-transport-accessibility-action-plan

A Lei da Igualdade (Equality Act), aprovada pelo Parlamento do Reino Unido em 2010, definiu, no caso da pessoa com deficiência, que os empregadores e prestadores de serviços têm o dever de fazer ajustes razoáveis em seus locais de trabalho para que essas pessoas possam superar as barreiras enfrentadas. A Lei se aplica também aos provedores de transporte, que devem fazer ajustes para estes passageiros, garantindo-lhes acessibilidade total.

A realidade, no entanto, torna-se mais desafiadora, especialmente se a deficiência não for óbvia. Horários, informações sobre tarifas e comunicação com os motoristas podem ser mais difíceis para os passageiros portadores de deficiências de aprendizagem, e a atitude do público pode levar essas pessoas a se sentirem intimidadas. Um relatório recente da Ong Papworth Trust destacou essas questões nos ônibus, com as seguintes sugestões às autoridades e empresas de transportes:

– Anúncios de áudio e visual precisam ser de boa qualidade e verificados regularmente, para garantir que as pessoas possam ver, ouvir e entender;

– Uma área de assentos prioritários nos ônibus, especial para pessoas com deficiências visuais e auditivas, de modo que as informações sejam mais acessíveis a elas;

– Treinamento sobre a situação vivida por pessoas com deficiências deve ser incorporado como parte do treinamento compulsório dos motoristas de ônibus (a cada cinco anos) como requisito essencial.

John Hersov, um consultor freelancer empregado pela TfL que coordena o Big Day Network, diz que cada evento de ônibus envolve até 12 pessoas – geralmente 10 participantes com deficiência de aprendizagem e dois apoiadores, às vezes incluindo cuidadores familiares. As pessoas compartilham suas experiências com o objetivo de melhorar a confiança dos indivíduos em viajar e ajudar a equipe a tornar os serviços mais acessíveis.

Christodoulou estava entre os passageiros e funcionários em um evento recente da Rede na garagem de ônibus Fulwell, no sudoeste de Londres. No início do evento, ele reconheceu uma motorista de ônibus de uma de suas viagens regulares, e contou como uma saudação simples pode fazer uma viagem parecer mais acessível: “Ela sempre diz olá quando eu entro no ônibus, ela é muito amigável”.

Os funcionários da TfL dizem que os motoristas devem estar mais conscientes das necessidades de mobilidade de pessoas cujas deficiências não são óbvias. E eles poderiam usar seus sistemas de áudio para repetir informações exibidas nas telas se o ônibus estiver lotado e a visão dos passageiros que usam cadeiras de rodas estiver obscurecida.

Ao fim do encontro da Rede, Christodoulou conclui: “Achamos que as coisas estão melhorando nos ônibus de Londres“.

TRANSTORNOS DE APRENDIZAGEM:

Os tipos mais comuns de dificuldades de aprendizagem são a dislexia (cuja principal característica é a dificuldade de ler e escrever); a TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade); a disgrafia (dificuldade na fluência escrita em diversos aspectos, cometendo diversos erros de ortografia e na formação das palavras); a discalculia (não habilidade de execução de operações matemáticas ou aritméticas); a dislalia (distúrbio que afeta a fala, caracterizado pela dificuldade em articular as palavras corretamente, entre outros.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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