OPINIÃO: Reminiscências de uma passageira de bonde

Av. São João com Largo do Paissandu (à esquerda). Bonde tipo Centex (ex-New York) 1837 na linha 19 Perdizes - Praça do Correio. Foto: Earl Clark, 9/1963, do site: http://www.tramz.com

MELI MALATESTA

Parece que o meu destino de profissional dedicada à mobilidade urbana foi marcado desde a minha mais tenra infância. Caçula temporona de quatro filhos, numa família onde pai e mãe trabalhavam, nunca tive o gosto de ser levada à escola pela mão da minha mãe, como as demais crianças.

No máximo ela me levava ao ponto de parada do bonde onde meu pai, no estribo de um daqueles abertos, me puxava para a ida à pré-escola. Fico imaginando a correria que deveria ser encaixar essa rotina no intervalo do almoço deles.

BONDE 551

Era num desses, o bonde aberto, que meu pai me puxava para me levar ao jardim de infância Foto: Bill Janssen, site: http://www.tramz.com

Aos sete anos, já morando em outra casa, comecei a frequentar o mesmo colégio de freiras onde minhas irmãs estudavam. Este colégio não ficava perto de casa. Tínhamos que pegar condução, no caso, a linha de bonde Jardim Paulista – Asdrúbal Nascimento. O bonde era daqueles fechados e chamados por todos de “camarão”.

Aprendi a escalar os altos degraus para subir no bonde com a impaciência da minha irmã adolescente. Mas no ano seguinte ela passou a estudar no período manhã e assim, por não ter mais ninguém para me levar, passei a ir sozinha para a escola com oito anos. Me sentia muito importante porque me considerava responsável e confiante, afinal já conhecia bem o caminho. Também havia mais um motivo: tive direito a herdar um relógio de pulso já usado por minhas irmãs. Ele serviria para controlar meu horário, principalmente para não perder o bonde.

Minha mãe também me fez prometer nunca tentar atravessar sozinha uma grande avenida que ficava quase ao final do trajeto para a escola. Deveria sempre pedir a uma senhora, tinha que ser mulher porque pedir para homem era perigoso. Prometi, mas nunca cumpri, morria de vergonha em abordar pessoas por um motivo, ao meu ver, tão inútil.

Todos os dias aguardava o mesmo bonde que passava no mesmo horário, dirigido pelo mesmo motorneiro. Éramos amigos e ele chegava a reduzir a velocidade e me esperar, quando via que ainda não tinha chegado no ponto. O bonde era frequentado pelos mesmos passageiros, inclusive por outras crianças como eu. Muitos deles vizinhos, moravam pertinho de casa e conheciam meus pais. Era como se fossemos uma grande família, a família do bonde.

CAMARAO

No curso primário, dos 7 aos 10 anos, era passageira da linha Jardim Paulista – Asdrubal Nascimento e o bonde fechado era chamado de “camarão”. Foto: Bill Janssen, site: www.tramz.com

Aliás naquela época, início dos anos 60, meus pais assim como tios e amigos adquiriram seus automóveis. Mas estes ficavam parados nas garagens, só eram utilizados aos finais de semana para visitas, passeios mais longos ou viagens. No dia a dia todos usavam transporte coletivo, na maioria bondes.

O trajeto da linha de bonde que eu utilizava era assim: começava na Rua Maestro Chiafarelli, prosseguia pela Rua Pamplona, Avenida Paulista, virava à esquerda, pela Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, até Rua Asdrúbal Nascimento, aos pés do Viaduto Dona Paulina. O trajeto de volta era o mesmo. Isso significava conversões à esquerda, em plena Avenida Paulista, para a Rua Pamplona ou para a Brigadeiro. Ainda com direito à paradinha do bonde e descida do motorneiro para acertar a direção do trilho com uma enorme chave. E toda essa manobra ocorria na maior tranqüilidade, sem buzina e congestionamento.

Eu adorava ficar na frente, ao lado do motorneiro e vê-lo dirigir o bonde com aquela espécie de alavanca para a esquerda ou direita. Me parecia muito fácil, sem precisar de força, tanto que uma vez tomei coragem e pedi para ele me deixar dirigir o bonde só um pouquinho. É claro que ele teve juízo para negar.

Mas nem tudo era fácil no uso dos bondes. Os cortes de energia elétrica eram frequentes e assim muitas vezes ficávamos muito tempo parados numa enorme fila de bondes, aguardando a energia voltar. Os que podiam desciam e prosseguiam a pé. Por não ter tanta certeza de saber o caminho, só me restava permanecer sentadinha aguardando a energia voltar ou a vinda de um dos meus pais para me resgatar, mesmo que isso demorasse uma eternidade.

Quando fui para o ginásio em outra escola, o novo trajeto só era servido por ônibus e assim tive que abandonar meu querido bonde. Aliás os ônibus, tidos como transporte moderno, cada vez mais tomavam conta das avenidas da cidade em trajetos que se sobrepunham e substituíam as linhas de bonde. Tanto que o bonde que eu usava todos os dias não durou muito depois que deixei de usá-lo em 1966.

Nos anos seguintes a substituição do sistema de bondes, lentos e obsoletos, por linhas de ônibus ágeis e modernas pareceu ser um processo natural para todos. Afinal ônibus eram mais novos, podiam mudar trajeto e não paravam por falta de energia. Assim a desativação da última linha de bonde em 1968 foi irreversível e marcada até como uma evolução.

Só que os ônibus não foram exatamente aquela maravilha e logo se tornaram ineficientes, não confiáveis e caros. Talvez porque se investiu mais em infraestrutura para estimular o uso dos automóveis como alargamento e modernização de vias, novas avenidas, pontes e viadutos. Neste mesmo tempo poucas melhorias foram feitas para melhorar o transporte coletivo.

Por este motivo as pessoas passaram a usar cada vez mais os carros da família. Senti isso principalmente na faculdade, uns dez anos depois, quando me vi como uma minoria que ainda pegava ônibus. A maioria dos meus colegas e amigos já tinha seu próprio veículo ou dividia um com outro membro da família. Ninguém mais queria saber de ônibus.

Hoje em dia, vivemos o resultado de decisões imediatistas e até mesmo equivocadas, como as que substituíram o bonde pelo ônibus e este pelo automóvel. Elas tornaram o que São Paulo é hoje: uma cidade onde não se investiu para valer em transporte público coletivo de qualidade.

Isso faz com que olhemos para trás com saudades dos bondes que deixaram de fazer parte do nosso cotidiano há 50 anos, e sonhemos com a volta deles, agora denominados de VLT, o bonde do século XXI.

Meli Malatesta (Maria Ermelina Brosch Malatesta) – Arquiteta pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, mestrado em Transporte a Pé na FAUUSP e doutorado em Transporte Cicloviário pela FAUUSP; presidente da Comissão Técnica Mobilidade a Pé e Mobilidade da ANTP. Escreve também para o Blog “Pé de Igualdade”, do site Mobilize.

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