OPINIÃO: Marginal subvertida

Rio Tamanduateí, Av. do Estado (São Paulo) - 2011 Foto: Daniel Souza Lima

ANTENOR PINHEIRO

Parece um carma maldito, mas toda cidade tem seus cursos d’água sacrificados em nome do tal “progresso”. Ineficientes gestões públicas deste Brasil mal resolvido fizeram (e ainda fazem) de seus córregos e rios, indecentes esgotos a céu aberto ou mesmo fechados, e às suas bordas, as marginais, vias expressas associadas a severos eventos de trânsito e outras feiuras.

Em São Paulo, o Anhangabaú e Tamanduateí, recolhidos aos subterrâneos paulistanos, ou o Tietê e Pinheiros, expostos aos olhos de todos. Em Belo Horizonte, o Arrudas… E por aí vai! É só pesquisar e constatar o desprezo deliberado e continuado com as belas paisagens de outrora.

Todos invariavelmente sufocados por cimento, aço e asfalto; todos condenados a dar suporte ao tráfego de carros, prioritariamente.

Resido em Goiânia, capital originada dos arraiais fundados pelos bandeirantes de Vila de São Paulo de Piratininga, caminhantes do sertão oeste brasileiro. Do Arraial de Sant’Anna (atual cidade de Goiás) dos séculos coloniais, Goiânia herdou o status de nova capital, construída sob a égide do modernismo e monumentalidade franceses de traços Art Dècó no primeiro século republicano (1933). No entanto, ao longo de sua história, também teve destruídos elementares e nobres conceitos urbanísticos que abortaram a chance desta nova urbe constituir-se exemplo de cidade-jardim neste embrutecido continente.

Na altura de seus jovens 84 anos, Goiânia já coleciona horrorosos exemplos de como maltratar suas belezas naturais. Um deles é a marginal botafogo, aquela cruel camisa-de-força que constrange o córrego de mesmo nome – espécie de lacre que sufoca o curso d’água mais influente na escolha do local para a implantação do plano urbanístico da cidade. Começou como inofensiva ciclovia, mas virou esse monstrengo perigoso que mata gente no trânsito e solapa orçamentos públicos com recorrentes desmoronamentos. Lembra Brecht: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”, simples assim!

Nasci distante 60 metros de sua margem, parto normal, tomei banho no seu leito e nas cristalinas bicas d’água de seus barrancos. Fiz cinzeiros da sua argila. Pesquei lambaris e lobós.

Colhi capins-navalha surgidos das locas pra alimentar meus preás e vi belas mulheres suburbanas lavar roupas e filhos sobre pedras à sua beira.

Quando chovia forte, era aquela festa. As águas ganhavam velocidade estupenda, porque ali está o seu perfil mais baixo, próximo do beijo do ribeirão Anicuns e, pouquinho mais pra frente, o abraço do rio Meia Ponte. Mas as enchentes eram dóceis, teatrais. Suas águas acomodavam-se em obediência à calha natural. Dançavam abalroando as próprias ondas que fazia, feito aplausos explosivos que resultam respingos ao alto, como a um balé aquático. E ao lamber as bordas, sedimentos se rendiam avermelhando seu curso. Jovens e adultos, íamos ao mais alto dos barrancos assistir ao espetáculo…. Belo!

Mas o “progresso” chegou e subverteu-o os governantes. A exemplo de córregos e rios urbanos de outras capitais, como dito, mereceu a ignorância em forma de concreto e curvou-se à demanda dos carros. No lugar de capins e folhagens, de barrancos e bicas, forjaram concreto neles e asfalto para os carros.

Motivações políticas, econômicas e especulativas orientaram sucessivas gestões da cidade de sorte a sufocar-lhe o bucólico. E agora o gestor pede socorro diante da fúria de suas águas somadas a outras desgovernadas e as do próprio ceu. Os carros estão ameaçados, e já se perguntam os viventes de olhos arregalados: o que seria da cidade sem a marginal botafogo?

Respondo: seria!

A solução plausível é aquela que vem sendo adotada por metrópoles igualmente corrompidas mundo afora: devolver ao curso do córrego o que lhe suprimiram. Remover o lacre que lhe impuseram; humanizar suas margens; incluir gente nelas; criar espaços lineares para encontro de pessoas; inserir num desenho urbano ativo as belezas que o urbanismo consequente é capaz de oferecer; resgatar a urbanidade; cuidar do bom córrego que tantas gerações banhou, devolvendo-o às próximas, enfim!

Ninguém deixará de ter e usar carro por causa de uma marginal viária derretida. E isto vale pra todas!

Antenor Pinheiro – jornalista, perito criminal, comentarista de mobilidade urbana da CBN Goiânia e membro da Associação Nacional de Transportes Públicos/ANTP.

2 comentários em OPINIÃO: Marginal subvertida

  1. Prezado Antenor
    Excelente artigo e comentários.
    Cidades do mundo com uma gestão municipal responsável e séria resolveram e reverteram a situação dos rios que cruzam as cidades. Os rios passaram a ser local de lazer, turismo e mesmo transporte público. Por que não aplicar programas sérios e competentes que deram certo em outras cidades do mundo para limpar os rios?
    Faz muitos anos que a cidade de São Paulo e municípios vizinhos investem (ou gastam mal) milhares de reais dos nossos impostos para “revitalizar os rios”, mas de fato continuam os rios um esgoto aberto.
    Cada dia que passo nas marginais de São Paulo, eu vejo os rios Tiete e Pinheiros com aquela cor cinza ou preta, penso comigo mesmo – é “um atestado de incompetência do poder público da Grande São Paulo”

  2. Sr Antenor Pinheiro
    Não podemos comparar o Brasil dos anos 50, 60, 70, 80 com as ideias ambientalistas e de mobilidade urbana que temos nos dias atuais. O nosso problema é que não temos uma cultura educacional do COLETIVO URBANO, DO VIVER EM SOCIEDADE, DO CIDADÃO PARTICIPATIVO e etc.. Nós somos um Brasil onde somente os nativos são brasileiros e pensam no “coletivo ” o restante somos estrangeiros e não temos vinculo com a terra. Na Europa que quase foi dizimada por duas Grandes Guerras Mundiais as autoridade no pós 1945 enfrentaram muitos problemas pois tudo estava destruído e para construir de novo precisaram de leis especificas, regras, e muita energia para desenvolvimento dos ideais do coletivo urbano e preservação da natureza. Mas aqui no Brasil qualquer cidadão entendia que os nossos rios seriam esgotos a céu aberto , fonte inesgotável de água para mover, gerar ,eletricidade e desenvolvimento de cidades tudo isto sem responsabilidade nenhuma pois os nossos políticos não tinham e não tem responsabilidade no crescimento sustentável das cidades. O grande segredo para mudarmos ESTE CARMA MALDITO ” se chama educação . O nosso lema ORDEM E PROGRESSO alias que esta na bandeira nacional não é entendido pelo cidadão pois o mesmo não tem escolaridade como a maioria dos nossos políticos. Pior é que o Brasil não tem futuro, pois nenhum governante aprova com seriedade disciplinas escolares especificas para o meio ambiente e pior ainda não existe interesse da sociedade. .

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