Pesquisa aponta que transporte coletivo tem apoio popular, mas muitos ainda resistem a alterar privilégios dos automóveis

Foto: divulgação

Enquanto o carro é apontado por 30% dos entrevistados como o transporte ideal, o ônibus fica com apenas 19%

ALEXANDRE PELEGI

O ônibus continua mal na fita quando se trata da percepção popular. Apesar disso, ao mesmo tempo em que sua avaliação é negativa, quando comparado ao carro muitos se dizem dispostos a apoiar mudanças gerais na mobilidade e no viário urbano que possam garantir sua melhoria. Mesmo que isso se dê à custa dos automóveis, que perderiam alguns dos privilégios que acumularam ao longo das décadas num país desbragadamente amante do transporte individual.

Esta é uma parte do que mostram os dados de uma pesquisa inédita, divulgada pelo Jornal O Globo em sua edição desta terça-feira (16), feita pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS) em parceria com o Instituto Escolhas.

Feita com 3 mil pessoas em todo o país, retira uma amostra realista do transporte público no Brasil.

APOIO POPULAR

A visão negativa que os brasileiros têm das empresas operadoras dos sistemas de ônibus, trens e metrô, por boa conta devido à insegurança e à falta de conforto, leva a maioria a apontar o carro como o melhor meio de locomoção no Brasil.

Enquanto o carro é apontado por 30% dos entrevistados como o transporte ideal, o ônibus fica com apenas 19%, seguido de bicicleta (16%), Metrô (12%) e Moto (11%). Na sequência vem  andar a pé (6%), Uber (3%), trem (2%) e táxi (1%). A má colocação do Metrô, poer exemplo, deve-se ao fato da pesquisa ser feita em todo o país, onde este modal, quando presente, não se dá de forma homogênea.

A percepção do transporte público (ônibus, metrô e trem) recebeu na pesquisa 35% de menções negativas, ao passo que o automóvel recebeu 15%. Quando as menções são positivas, os dados trocam de posição: o automóvel tem 31% de menções positivas, enquanto o transporte coletivo apresenta apenas 2%.

Em resumo, a pesquisa mostra o que os brasileiros pensam sobre a mobilidade urbana hoje no país: que é preciso melhorar a qualidade do transporte público, e que existe o desejo confesso de que ônibus, trens e metrô devem ser o principal meio de locomoção da sociedade.

O apoio popular a eventuais mudanças que permitam uma melhora significativa do transporte público no país pode ser vista nas respostas que vinculam apoio eleitoral a candidatos e suas propostas sobre mobilidade:

= 85% prometem votar naqueles candidatos que renovarem a frota de ônibus de sua cidade;

= 82% em candidatos que aumentarem investimentos em sistemas de trens e Metrô;

= 84% dedicariam seu voto em candidatos que prometerem construir ciclovias;

= 57% votariam naqueles que reduzissem as vagas de estacionamento em áreas comerciais.

Logo, ao mesmo tempo em que há forte apoio para melhorar as condições do transporte público, há também as dúvidas que o veem como algo complexo para ser alterado.

A própria perda de privilégios dos carros é bem reduzida, segundo a pesquisa, e isso pode ser visto em temas polêmicos como pedágio urbano e aumento de impostos para carros movidos a gasolina e diesel.

No primeiro caso, 34% votariam em candidatos que criassem um pedágio urbano, de restrição à circulação de automóveis em determinadas regiões das cidades, mas 56% se mostram contra propostas dessa natureza.

Já no caso do aumento de impostos para veículos (como a Cide Municipal, por exemplo, dentre outras alternativas), 57% se mostraram contrários, contra apenas 30% que se disseram favoráveis. Não há ainda no brasileiro um forte conhecimento que vincule o uso de combustíveis fósseis à má qualidade do ar, ou ao aquecimento global. Outros dados:

= 51% pretendem comprar um carro nos próximos três anos; metade de quem respondeu a este desejo é jovem, entre 16 e 34 anos, possui curso superior completo ou incompleto (71%), e integra as classes B e C.

= Dos 49% que restam, que afirmaram não pretender comprar um carro nos próximos três anos, o motivo alegado é a falta de dinheiro (49%). Mas 25% afirmam que têm convicções pessoais para rejeitar a compra de um carro próprio.

O dado acima que nos leva a concluir que o carro como meio de transporte ideal é um desejo que diminui à medida que se aumenta a renda.

Outro dado que confirma essa tese, que antagoniza renda e desejo pelo carro: 32% dos que dizem que o automóvel particular é o meio de transporte ideal estão entre os que têm renda familiar de até dois salários mínimos; para os de renda familiar maior (sete salários mínimos ou mais), esse percentual cai para 25%.

De novo: os mais colocados na escala social têm uma visão mais crítica do automóvel como veículo de transporte.

Outro dado que deve preocupar o sistema de transporte coletivo é a concorrência dos aplicativos de transportes de passageiros: 49% dos que passaram a usar apps como Uber, Cabify e 99, disseram que antes usavam ônibus, metrô ou trem para ir trabalhar ou ir à escola. O táxi perdeu menos: 37%.

Enquanto as montadoras investem fortunas para convencer os consumidores de que ter um carro é, além de um objeto de desejo, uma ferramenta essencial para a mobilidade nas cidades, o transporte público pouco ou quase nada investe na divulgação de teses que só poderiam ajudá-lo a vencer muitas das barreiras que o impedem de ser mais eficiente e sedutor.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

4 comentários em Pesquisa aponta que transporte coletivo tem apoio popular, mas muitos ainda resistem a alterar privilégios dos automóveis

  1. Também, como vou de ônibus. Se a demora para passar um é gritante.

  2. Aqui na cidade onde eu moro:
    Ônibus sujos, quebrados, barulhentos, e lotados.. Sem conforto e pior excesso de velocidade. Uma cidade com aproximadamente 115 Mil Hab, jamais poderia ter uma passagem custando R$ 3,20 , caríssima e um serviço péssimo. Total aproximadamente R$ 128,00 / mês levando se em conta 3,90 / litro da gasolina . da quase 33 litros de gasolina aditivada eu rodo o mês inteirinho não preciso do ônibus, se for gasolina comum ou andar no etanol é melhor eu garanto o seguro do carro total do veiculo isto em um FIAT UNO Way ano 2008 . Vantagem do seu carro, :Vc houve a musica que vc deseja, carro limpo, vc mesmo pagando estacionamento particular ainda é bom negocio. no meu caso a empresa tem estacionamento inclusive para funcionários terceirizados.O transporte publico será um bom negocio quando: Houver transparência e . responsabilidade tanto pela prefeitura quanto pelas empresas de ônibus.
    Valor de Outorga municipal é uma absurdo , este valor não deveria ser cobrado, mas em contra proposta deveria ser investido na passagem de ônibus , na realidade uma passagem de ônibus urbano não deveria ultrapassar valor de R$ 1,50 .

  3. Amigos, bom dia.

    Não é a visão dos brasileiros.

    É o que o buzão é.

    Todo serviço ou produto FALA por si só, se é bom o ruim.

    O problema do buzão é um só.

    ELE NÃO ATENDE O MERCADO / NÃO FUNCIONA.

    Fora é claro o quanto colocado pelo Sr. Wilson, no comentário supra, economicamente ele é inviável.

    Se quiser fazer o buzão funcionar é fácil, mas o puuuuuuuuuuuuuuuuder não quer.

    Quanto a questão econômica está de impossível solução, afinal o Barsil não tem solução, pois é um páis de cultura inflacionária além do $alário mínimo ser surreal para o quanto descrito constitucionalmente .

    “Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

    IV – salário mínimo , fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;”

    Buzão em Sampa, só por obrigação.

    MUDA BARSIL

    Att,

    Paulo Gil

  4. O fato de a ideia do carro como meio de transporte ideal diminuir de acordo com o aumento da renda pode estar ligado ao fato de essas pessoas morarem em áreas mais bem servidas de transporte público. Digo isso pela minha experiência morando em São Paulo no bairro da Pompeia e trabalhando no centro da cidade. O meu trajeto está muito bem servido de opções de transporte (ônibus, metrô e ciclovia), e eu não sinto necessidade de ter um automóvel. Porém, não me arrisco a dizer o mesmo de quem mora na Zona Sul ou Leste da cidade e faz o mesmo trajeto.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: