Nova York planeja retirar US$ 5 bilhões de investimentos em combustíveis fósseis e processar grandes empresas petrolíferas

Cidade de Nova York processa 5 grandes companhias de petróleo, alegando que elas contribuíram para o aquecimento global

Segundo o prefeito Bill de Blasio, “cabe às empresas de combustíveis fósseis, cuja ganância nos colocou nesta posição, bancar agora o custo de tornar Nova York mais segura e resiliente”

ALEXANDRE PELEGI

A cidade de Nova York está buscando liderar uma dupla batalha: contra as mudanças climáticas e a administração Trump. A arma para a guerra é um plano do prefeito Bill de Blasio, que tem combina duas ações, uma de mercado, e outra judicial. De Blasio anunciou que quer desinvestir US$ 5 bilhões em ações de combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, processar as empresas petrolíferas mais poderosas do mundo por sua contribuição para o aquecimento global.

Algo como “paguem por seus crimes com os lucros que ganharam às custas da saúde do planeta”…

Autoridades da prefeitura estabeleceram como objetivo alienar os fundos de pensão de Nova York de um total de US$ 189 bilhões de empresas de combustíveis fósseis, num prazo de cinco anos. É uma ação que, conforme afirmam, está “entre os esforços de desinvestimento mais significativos do mundo até esta data“.

Atualmente, os cinco fundos de pensão da cidade de Nova York têm cerca de US $ 5 bilhões (R$ 16,2 bilhões) em investimentos no mercado de combustíveis fósseis. O estado de Nova York também já anunciou que analisa como desinvestir aplicações em ações do setor.

A cidade de Nova York está olhando para as gerações futuras, tornando-se a primeira grande cidade dos EUA a alienar nossos fundos de pensão do segmento de combustíveis fósseis“, disse Bill de Blasio, prefeito de Nova York.

Ao mesmo tempo, estamos trazendo a luta contra as mudanças climáticas diretamente para dentro das empresas de combustíveis fósseis, que já conheciam os efeitos que causavam ao meio ambiente e, mesmo assim e intencionalmente, induziram o público a proteger seus lucros. À medida que as mudanças climáticas continuam a piorar, cabe a estas empresas, cuja ganância nos colocou nesta posição, bancar o custo de tornar Nova York mais segura e mais resiliente“.

De Blasio disse que a cidade está levando ao tribunal federal as cinco empresas petrolíferas – BP, Exxon Mobil, Chevron, ConocoPhillips e Shell -, devido à sua inegável e decisiva contribuição para a mudança do clima no planeta.

Os documentos apresentados ao tribunal afirmam que Nova York sofreu inundações e erosão graças às mudanças climáticas e que, devido às ameaças futuras que a estão ameaçando, quer “transferir os custos de proteger a cidade dos impactos das mudanças climáticas para as empresas petrolíferas, que fizeram quase tudo o que podiam para tornar a situação ainda mais grave”.

A declaração de Nova York ao tribunal afirma que apenas 100 produtores de combustíveis fósseis são responsáveis por quase dois terços de todas as emissões de gases de efeito estufa desde a Revolução Industrial (século 19), com as cinco empresas citadas figurando como as maiores contribuintes para esse estado de coisas.

O caso também ajudará a colocar em evidência que empresas como a Exxon conheciam há décadas o impacto das mudanças climáticas, mas usaram estas informações somente para minimizar e até mesmo negar estes efeitos publicamente. O procurador-geral de Nova York, Eric Schneiderman, está investigando a Exxon sobre esta acusação.

Nova York foi maltratada pelo furacão Sandy em 2012, e hoje enfrenta gastos que aumentam em dezenas de bilhões de dólares somente para proteger as áreas baixas da cidade, como a região da Baixa Manhattan e a área ao redor do aeroporto JFK. As ações visam impedir que tais áreas sejam inundadas por novas tempestades severas, agravadas pelo aquecimento térmico e pelo aumento dos níveis do mar. O gabinete do prefeito De Blasio afirma que a mudança climática é “talvez o desafio mais difícil que a cidade de Nova York enfrentará nas próximas décadas“.

O processo movido por Nova York ecoa um esforço semelhante realizado na Costa Oeste do país, onde dois condados da Califórnia e uma cidade estão processando atualmente 37 empresas de combustíveis fósseis por emitirem níveis perigosos de gases de efeito estufa. Uma dessas empresas, a Exxon, reclamou que foi alvo de uma “junção de interesses e de políticos oportunistas” como parte de uma “conspiração” para forçá-la a cumprir variados objetivos políticos.

A ação na justiça e o desinvestimento em ações de empresas petrolíferas são fatos que talvez definam uma severa linha divisória rígida entre Nova York e a administração Trump a respeito do tema “mudanças climáticas”.

Sob Trump, o governo federal tentou retirar os EUA dos acordos climáticos de Paris, derrubar as políticas e os acordos firmados pela gestão Barack Obama e franquear vastas áreas de terras e águas do país para atender à ganância e aos interesses de empresas que atuam com carvão, petróleo e gás.

De Blasio e o chefe da Controladoria da cidade, Scott Stringer, foram pressionados durante vários anos por ativistas ambientais para tirarem os fundos de pensão de Nova York de qualquer ligação com o mercado de combustíveis fósseis. Alguns ambientalistas alegavam que a cidade estava sendo lenta demais em usar sua influência na luta contra as mudanças climáticas.

Stringer admitiu que o desinvestimento será “complexo” e demandará algum tempo, mas que os fundos de pensão da cidade poderão promover a sustentabilidade, ao mesmo tempo em que conseguirão proteger a aposentadoria dos professores, policiais e outros trabalhadores da cidade.

“A cidade de Nova York se torna hoje uma capital da luta contra as mudanças climáticas neste planeta“, disse Bill McKibben, co-fundador do grupo climático 350.org.

Com suas comunidades excepcionalmente vulneráveis a um aumento do nível do mar, a cidade de Nova York está mostrando o espírito que a tornou famosa – não está fingindo que se vincular às empresas de combustíveis fósseis poderá, de alguma forma, lhe garantir benefícios, mas, ao invés disso, as enfrenta diretamente nos mercados financeiros e nos tribunais”.

Christiana Figueres, representante da ONU que chefiou as negociações para o acordo climático de Paris, acrescentou: “A transição exponencial para uma economia livre de combustíveis fósseis é irrefreável e os governos locais têm um papel crítico a desempenhar. Não há tempo a perder”.

Portanto, é extremamente encorajador ver a hoje a prefeitura de Nova York intensificar sua luta para proteger a cidade e exercer seu papel como investidores, protegendo seus beneficiários do risco climático“.

Nova York se junta a cidades como Washington DC e Cidade do Cabo, na África do Sul, em ações de desinvestimento, juntamente com universidades como Stanford, na Califórnia e Oxford, no Reino Unido.

O Fundo Rockefeller Brothers, notável por seus vínculos no passado com o setor petrolífero, que garantiram a riqueza no mercado de petróleo de John D Rockefeller, também tem procurado retirar seus investimentos alocados em empresas de combustíveis fósseis.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Adaptação de matéria publicada nesta quarta-feira, 10 de dezembro, no jornal inglês The Guardian

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: