OPINIÃO: “Uberizar” ou não? Eis a questão

Ônibus seletivos, carros alugados, carros de aplicativos, ônibus em corredores, táxis, bicicletas. Se há público e necessidades para todos, por que não integrá-los?

Jurandir Fernandes

Eleonora Pazos

 O fenômeno da economia compartilhada acelerou-se desde a crise de 2008. Seus limites em expansão ainda não nos permitem uma definição unificada podendo ser interpretada sob diferentes rótulos: economia colaborativa, sob demanda, peer-to-peer, de custo marginal zero. Há quem prefira dizer que se trata de um estágio do capitalismo baseado em multidão.

Dentre outras, três forças impulsionam a economia compartilhada: a tecnologia, através da internet e dos telefones inteligente, as questões ambientais e de sustentabilidade e a recessão econômica que leva todos a usar racionalmente o que possui e a evitar o desperdício ao máximo.

Nas crises, as pessoas perdem o poder de compra e ao mesmo tempo ganham consciência sobre as decisões de compra. Precisamos comprar um serviço ou o bem que presta aquele serviço? Precisamos ter um carro ou apenas pagar pelas viagens que fazemos? Nas crises pensamos no essencial. Tornamo-nos mais pragmáticos. Menos possessivos, até porque não há recursos para todos. Muito menos recursos infinitos.

A economia de partilha requer diferentes atores sobre os quais a recessão desempenhou papel crucial, mas é inegável que as novas tecnologias de comunicação reativaram o antigo conceito de comunidade. O homem é um ser social. Sempre foi. Das cavernas às megalópoles gostamos de estar juntos. E compartilhar é reflexo, é resultado deste estar juntos.

O setor da mobilidade sente os reflexos da economia compartilhada através de dezenas de aplicativos. A mobilidade está no centro de uma revolução e tem que apropriar-se urgentemente dos benefícios deste novo cenário, fortemente disruptivo, com enorme potencial social, econômico e ambiental.  É urgente a atenção dos governos e dos setores que lidam com a cadeia produtiva da mobilidade para esta nova realidade.

A maioria das atividades da economia compartilhada fica numa “área cinzenta” ao tentarmos posicioná-la dentro do arcabouço legal existente. A velocidade das mudanças tecnológicas em muito supera a capacidade de adequação da legislação vigente. Este descompasso gera disputas, muitas vezes violentas, entre o velho e o novo. Sempre foi assim. Nada a estranhar. Errado é pensar que as leis existentes impedirão o nascimento do moderno e que o ultrapassado permanecerá para sempre.

A história nos ensina que tais mudanças são irreversíveis. Séculos atrás, os barqueiros de Londres  tentaram barrar as pontes sobre o Tâmisa, os luddistas quebraram as máquinas que ameaçavam seus empregos. Há quem pense que as leis são perpétuas e que a evolução da humanidade é regida por elas.

Estas barreiras contra o novo estão se rompendo. A população aderiu de forma estrondosa aos aplicativos e à economia compartilhada. Novos termos, novos conceitos estão nos corações e mentes. Uber já virou verbo e substantivo. Blá-blá-blá não é mais conversa fiada. É carona. É viagem compartilhada. As empresas tradicionais que enxergaram o novo estão aderindo e revigorando seus negócios. O arcaico, que resiste a estas evidências, busca criar barreiras legais que lhe assegurem os cartórios e seus cartéis.

É triste ver representantes do povo no Congresso defendendo os cartéis que durante décadas exploraram este mesmo povo. Proibir que um transporte por aplicativo viaje para uma cidade vizinha é desconsiderar a realidade da nossa conurbação. É ignorar as regiões metropolitanas.

Obrigar ao uso da placa vermelha é matar a dinâmica da economia compartilhada. Exigir que o motorista tenha carro próprio é o mesmo que obrigar a que todo o transporte de uma empresa seja de propriedade dela. É ignorar a modalidade da locação e do leasing.

Os aplicativos também transformarão o transporte coletivo tradicional e sua forma de prestar o serviço nas nossas cidades. A flexibilidade da mobilidade integrada proporcionada pela economia compartilhada revigorará todo o transporte público. Da bicicleta ao ônibus.

Daí a urgência de novos modelos de contratos do serviço público de transporte que permitam a participação dos atores tradicionais do setor, operadores e gestores, públicos ou privados neste novo cenário econômico. A camisa de força de velhas leis impedirá que os atuais prestadores de serviço se modernizem, pois baterão de frente com os órgãos reguladores que passam a exercer um papel no mínimo esdrúxulo: o de manter parada a roda da evolução, e mais, a contragosto da população.

Precisamos de leis e de regras contratuais novas que dinamizem a evolução e não das que perenizam o atraso. As licitações em curso ao não levar em conta o que está ocorrendo hoje vai nos levar amanhã às manchetes das lutas de rua entre o atrasado e o novo. A população já aderiu ao novo com seus 200 milhões de celulares inteligentes em operação e cobrará, com razão, a sua fatura.

 

Jurandir Fernandes é Presidente da União Internacional de Transporte Público na América Latina.

Eleonora Pazos é Diretora da UITP América Latina.

 

  • As opiniões publicadas no site são independentes e nem sempre significam o posicionamento editorial do Diário do Transporte

6 comentários em OPINIÃO: “Uberizar” ou não? Eis a questão

  1. Vagner Alexandre Abreu // 31 de outubro de 2017 às 18:07 // Responder

    Estranho o ex-secretário de transporte metropolitano ser a favor da Uber…

  2. Ótimo texto. É preciso modernizar o taxi e não tentar tornar o novo em obsoleto. Precisa acabar com quantidade regulada de licença de táxi, que cria um mercado paralelo de alvarás. Rever o a forma de cobrança. Não há motivo pra o Estado regular o preço.. Bandeira 1 ou 2.!

  3. O Brasil está sendo gerenciado, pelo exterior. Outras modalidades estão surgindo e não vai parar por aí. Se não fazemos eles fazem o cobram muito caro. UBER não é brasileira,mas poderia ser.

  4. Amigos, boa noite.

    Não há a questão.

    Já Uberizou; só os Jurássicos fingem não enxergar.

    Além da legislação não acompanhar a evolução operacional, o pior É O EXCESSO DELAS.

    O Barsil só rodará após eliminarmos 95% das leis ou mais.

    Ninguém consegue trabalhar na legalidade é impossível.

    MUDA BARSIL.

    Att,

    Paulo Gil

  5. Discordo do artigo. A economia compartilhada nada mais é do que um jeito moderno de se chamar o “bico”. As empresas reduzem custo jogando para o trabalhador o risco de ter ou não demanda, trabalhando a margem das leis trabalhista ou patrocinando desmontes nestas leis, afim de que sua forma de trabalhar, ilegal e degradante, se torne legal, embora não menos degradante. É preciso regular esta atividade, dar segurança jurídica aos trabalhadores, responsabilizar as empresas. As exigências que foram propostas são de praxe para os demais operadores de transporte do país.
    Não é possível desassociar que o Uber responde a inúmeros questionamentos judiciais mundo afora devido a precarização da mão-de-obra e ausência de responsabilidades trabalhistas. A Cia também vive momentos conturbados devido a fraudes administrativas que culminaram na saída de seu presidente. Não vejo no artigo qualquer menção relativo a proteção ao trabalhador e ao usuário.

  6. Acho um tema controverso mas o Uber tem um elemento estrutural que o proprio nome diz “transporte por demanda” logo onde não tiver demanda suficiente ele aumenta o preço para valer a pena, já que não tem preço público e sim tarifa “dinâmica”. Já posso antever o primeiro assalto ao bolso do trabalhador ou usuário quando liquidarem o taxi e ai nem tem parâmetro para definir a concorrência. O segundo momento será o Uber Ônibus ( que começa com o Uber Pool” , com certeza bem precarizado pois não terão controle (onibus velhos -basta ver o fretamento clandestino) e pegando passageiros nos “filet” e abandonando as áreas carentes loge do centro onde o custo é maior. Preparemos então para reivindicar em presas públicas para tender as areas carentes e de pouca demanda. teremos cidades organizadas por quem pode pagar pois vão acabar as gratuidades sociais (idosos, pessoas com deficiência e estudantes de 50%) não terão pontos de ônibus e por ai vai… Que os desvalidos e moradores das periferias se preparem, se tem precaridade hoje nos transportes se preparem que no futuro ,com a urberização será bem pior pois vai valer só o lucro sem a presença reguladora do Estado.

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