Flxible da Expresso Brasileiro: Um tesouro, um amigo

Modelo marcou história dos transportes no País

Jornalista encontra um dos ônibus mais emblemáticos da história dos transportes do País, fotografa, e logo passa para colega

ADAMO BAZANI

Um tesouro é percebido sem dificuldades por quem observa.

Não precisa ser especialista para notar o diferente, o raro e o belo, mesmo que com as marcas do tempo.

Foi o que aconteceu na última terça-feira, 10 de outubro de 2017, com o amigo e colega de profissão, o jornalista Vagner Magalhães, hoje no setor de comunicação e jornalismo da Câmara Municipal de São Paulo.

Indo para o trabalho, o jornalista encontrou ainda no bairro onde mora, em Perdizes, na zona Oeste de São Paulo, um ônibus diferente, necessitando de restauro, mas que guardava uma beleza de ar nostálgico.

Vagner não teve dúvidas e logo fotografou o ônibus em vários ângulos e mandou para este repórter que escreve.

O ônibus era nada mais, nada menos que um dos 30 Flxible VL-100 norte-americanos trazidos ao Brasil, pela Expresso Brasileiro, em 1956 e, que por causa de polêmicos problemas alfandegários, no Porto de Santos, ficaram quase três anos parados.

Modelo que circulou pela Expresso Brasileiro. Um exemplar encontrada por jornalista em São Paulo

Estes veículos, dotados de todas as inovações esperadas de um ônibus na época, foram comprados pelo dono e fundador da Expresso Brasileiro, o empresário espanhol Manoel Diegues, para fazer concorrência com a Viação Cometa, na disputadíssima linha Rio-São Paulo.

Se hoje, com a popularização da aviação, a rota é ainda a mais lucrativa do transporte rodoviário interestadual do País, imagine nos anos 1950, quando o Governo Federal estimulava os transportes rodoviários. As estradas eram sinônimos de glamour. Até governantes faziam viagens de ônibus.

Para a rota, em 1954, o major italiano Tito Mascioli, fundador da Cometa, importou também dos Estados Unidos, 30 unidades dos luxuosos GM PD 4104, chamados por aqui de Morubixabas. Com um ônibus extremante confortável, a Cometa começou a atrair mais passageiros na rota Rio-São Paulo.

O “Morubixaba” da Cometa que brilhou na rota Rio-São Paulo

A Expresso Brasileiro não poderia ficar para trás.

As polêmicas quanto à retenção dos Flxible começam aí. Há versões que dizem que nesta época, o Governo Federal, com o intuito de incentivar a indústria automobilística no Brasil (e não necessariamente DO Brasil), criou dificuldades para a importação de veículos montados. Então, a Expresso Brasileiro teria colocado na documentação de importação que se tratava da compra de motores e equipamentos marítimos. Quando os veículos chegaram de navio em Santos, isso deu problema.

Uma curiosidade é que o motor Detroit Diesel transversal de 211 cavalos, usado nestes ônibus, também foi conhecido como GM Marítimo por equipar algumas embarcações como as balsas que faziam a travessia – Santos / Guarujá – do canal de acesso ao porto de Santos.

Mais uma curiosidade: era o mesmo motor usado no modelo concorrente da Cometa.

Modelo Flxible VL 100 em São Paulo, em 11.10.2017. Beleza e requinte que chamam a atenção até nos dias de hoje.

Outra versão é que, sabendo que a concorrência seria acirrada, a Viação Cometa teria usado “sua influência” junto ao Governo para “dificultar as coisas” para a Expresso Brasileiro.

A Cometa tinha nomes fortes em sua administração, como do advogado João Havelange, homem de confiança de Tito Mascioli.

Sim, é o mesmo João Havelange que foi presidente da Fifa, a federação internacional de futebol, que morreu aos 100 anos de idade, em 16 de agosto de 2016.

João Havelange se tornou estratégico na Cometa. Getúlio Vargas, em 11 de março de 1942, declarou, por meio de um decreto presidencial o confisco dos bens de todos imigrantes que tinham nascido na Alemanha, Itália e Japão, países que formavam o chamado Eixo, na Segunda Guerra Mundial.

O Brasil tinha declarado apoio aos países Aliados, encabeçados por EUA, Inglaterra e França.

Para não perder a Cometa, o major italiano Tito Mascioli, que não mais atuava na carreira militar, integrou João Havelange, que nasceu em 8 de maio de 1916, no Rio de Janeiro, à administração da Cometa. Havelange se tornou sócio da empresa.

O executivo ficou na Cometa até 2002, quando a empresa foi adquirida pelo Grupo JCA, que também reúne empresas como Viação 1001, Auto Viação Catarinense, Macaense, Expresso do Sul e Rápido Ribeirão Preto.

Os Flxible VL (Vista Liner) circularam na rota Rio-São Paulo até aproximadamente 1967, quando parte da frota foi operar na empresa de fretamento Breda, de São Bernardo do Campo, onde ficou até o início dos anos 1980.

Relembre esta história:

HISTÓRIA: Os Flxible também brilharam na Breda e na telonas – De Diplomata para Bandeirante até ser Estrela de Cinema

Na pressa, para chegar ao trabalho, o jornalista não conseguiu conversar com o homem que estava com o ônibus, rebocado por um guincho Scania azul claro, de modelo que também marcou a história dos transportes.

Tudo indica, porém, que o clássico Flxible, que enquanto esteve na Expresso Brasileiro foi apelidado de Diplomata, seria restaurado.

Valeu o registro!

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

5 comentários em Flxible da Expresso Brasileiro: Um tesouro, um amigo

  1. Amigos, bom dia.

    Nooooooossa que registro sensacional.

    Se fosse eu que tivesse visto esse Flxible, creio que eu tinha tirado umas 100 fotos no mínimo.

    Rsssssssssssssssssssssssssssss

    Sensacional, muito obrigado Vagner e ao Adamo, por nos dar este presente para uma saborosa leitura
    do domingo de manhã sobre a história do buzão ainda mais deste ícone o Flxible.

    Eu com certeza teria chegado atrasado ao trabalho e teria conversado com o guincheiro para saber mais detalhes.

    Como um frete de guincho para rebocar um buzão deve ser caríssimo, com certeza esta joia deve ir para restauro.

    Quem sabe o dono não se anima e conta para o Diário a história.

    Eu tenho na memória com se fosse hoje, os lindos, charmosos e com o seu “ronco incrível” (motor marítimo), os Flxible´s da Breda que ficavam estacionados no aeroporto de Congonhas.

    São várias as perguntas sobre o Flxible da fotos.

    Mas uma interessante é:

    De onde será que ele veio ??

    Att,

    Paulo Gil
    “Buzão e Emoção é a Paixão”

  2. Existe outro exemplar desse modelo sendo restaurado na região deo ABC/SP

  3. A empresa Cati Rose está restaurando um desse

  4. Se alguém souber algum contato do proprietário tenho interesse em falar com ele, possuo 2 motores para este modelo de ônibus, detroit diesel 6-71

  5. Pérsio Cupertino de Paiva // 24 de novembro de 2017 às 12:59 // Responder

    Lindo o ônibus!
    Será que ele vai ficar aí na rua se deteriorando mais ou será que pertence a um colecionador que vai reformá-lo?

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