OPINIÃO: De patinho feio a vilão

Ônibus recebem pouca prioridade na cidade. Quando há áreas que deveriam ser exclusivas, coletivos têm de dividir espaço com outros veículos

Francisco Christovam (*)

O ônibus nunca foi tratado com o devido respeito e quase sempre foi considerado o patinho feio do sistema de transporte urbano. Há quem, inclusive, proclame que o ônibus é um mal necessário à própria vida das cidades; afinal, ele congestiona o trânsito, provoca acidentes, faz muito barulho, polui o ar e, ainda, presta um serviço que deixa bastante a desejar.

No caso de São Paulo, em especial, a sociedade critica, os políticos ignoram, as autoridades negligenciam, alguns formadores de opinião detonam e muito poucos usuários reclamam. Entretanto, poucos sabem que, para suprir a insuficiência de sistemas de transporte de grande capacidade, como trens e metros, todos os dias, uma frota de quase 14 mil ônibus urbanos circula pela cidade, rodando aproximadamente 3,5 milhões de quilômetros, transportando cerca de 6 milhões de pessoas, que realizam 10 milhões de viagens. O sistema de transporte por ônibus em São Paulo opera mais de 1,3 mil linhas, emprega cerca de 80 mil trabalhadores e gera mais de 300 mil empregos indiretos.

Essa frota circula em mais de 4,3 mil quilômetros de ruas e avenidas, mas em apenas 500 quilômetros de faixas exclusivas e 250 quilômetros de corredores de ônibus há alguma prioridade para o transporte coletivo. No resto do viário os ônibus disputam espaço com os carros, motos, caminhonetes e caminhões.

Apesar de tudo isso, o sistema de transporte por ônibus de São Paulo registra uma reclamação a cada 77 mil usuários transportados; um acidente a cada 550 mil quilômetros percorridos; um atropelamento, com vítima fatal, a cada 10 milhões de quilômetros rodados e uma tentativa de assédio sexual reportada a cada 90 milhões de passageiros transportados.

É certo que as reclamações, os acidentes e qualquer tipo de assédio devem ser eliminados ou reduzidos a um número mínimo. Por outro lado, é impossível oferecer serviço de qualidade quando os ônibus não têm faixa de domínio própria e circulam por ruas esburacadas, os semáforos não conferem nenhuma prioridade aos coletivos, os passageiros andam e esperam pelos ônibus em calçadas mal cuidadas e praticamente não recebem informações sobre as condições operacionais das linhas.

Mais recentemente, outras responsabilidades começaram a ser atribuídas aos ônibus.

A frota em operação contribui com menos de 8% do material particulado e do gás carbônico lançados, diariamente, na atmosfera. Todavia, nos debates sobre uma nova lei de controle das alterações climáticas, os ambientalistas não medem palavras para considerar o ônibus como o suposto responsável pelas mortes que a poluição provoca na população paulistana.

Na Semana da Mobilidade, realizada no mês de setembro, autoridades citaram estatísticas e usaram o aumento dos atropelamentos por ônibus para justificar o acréscimo do número de multas aplicadas às empresas operadoras. Se de um lado, esse tipo de acidente não se resolve com aplicação de multas, de outro, nenhuma menção foi feita ao lançamento de campanhas educativas que pudessem alcançar o pedestre, o usuário e até o próprio motorista dos ônibus.

Melhor, então, deixar os ônibus estacionados em locais bem visíveis, pois ônibus parado não congestiona as ruas e avenidas, não provoca acidentes, não causa atropelamentos, não cria ambiente favorável ao assédio moral e sexual, não faz barulho e não polui o ar da cidade.

E, também não transporta as pessoas; mas, afinal, quem se preocupa com isso?

Hipotecando o devido respeito aos ônibus, mesmo com todas as adversidades e dificuldades operacionais, ainda é esse meio de transporte que leva as pessoas, diariamente, para o trabalho, para a escola, para o hospital, para o lazer, para as compras e, ao final do dia, de volta para casa. Existem modelos matemáticos que podem prever, com relativa precisão, o quê aconteceria numa cidade como São Paulo se não houvesse os ônibus. A resposta: a cidade simplesmente deixaria de existir!

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(*) Francisco Christovam é presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo – SPUrbanuss. É, também, vice-presidente da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de São Paulo – FETPESP e da Associação Nacional de Transportes Públicos – ANTP.

6 comentários em OPINIÃO: De patinho feio a vilão

  1. JOAO LUIS GARCIA // 3 de outubro de 2017 às 16:22 // Responder

    O poder público infelizmente sempre usou o transporte como um plataforma eleitoral, haja visto o Exmo. Prefeito Municipal Sr. João Dória, que congelou a tarifa e hoje a cidade sofre a falta de verbas, pois para manter o sistema funcionando o subsídio é cada vez mais necessário.
    Sobre o ” mal necessário ” infelizmente em uma cidade aonde os corredores de ônibus não são prioridade, aonde se brinca de mobilidade com ciclovias pouco utilizadas, aplicativos de transporte que não recolhem divisas ao município (pelo menos se recolhem são muito menos que as empresas de ônibus, táxis, metrô e outros meios de transportes ” legalizados ” ).
    Além da insegurança contratual que o setor tem enfrentado com a interferência do poder judiciário que passou a emitir parecer sobre a concessão de reajuste da tarifa pública (ítem previsto em contrato de concessão) e parecer sobre os contratos de concessão em vigor.
    E se não bastasse ainda temos o STF que deveria se portar de maneira isenta e julgar em cima da Constituição Federal, simplesmente se transformou em um Legislador da Política desse País.
    Hoje o que vemos é uma inversão de valores e infelizmente os mesmos políticos que criticam os empresários são os que na época da eleição solicitam apoio.

    • João Luis Garcia, bom dia.

      Perfeito o seu comentário.

      Você fez o Raio X do Barsil de hoje.

      Não temos mais o Porder Judiciário.

      Hoje temos o Poder Administrativo, pois hoje ele só administra o Barsil ao invés de resolver conflitos.

      Nem as cláusulas dos contratos valem mais, é isso ai.

      Abçs,

      Paulo Gil

  2. Brilhante artigo! Está mais do que na hora de recolocar os ônibus no seu devido lugar, dando-lhe a importância que merecem. É o modal que resolve os maiores problemas do transporte em SP. Falta mais metrô e mais trens. Logo, mais ônibus.

  3. Excelente texto!

    É muito fácil criticar (principalmente sem o devido conhecimento). O difícil é reconhecer a essencialidade e os benefícios do transporte urbano por ônibus.

  4. Amigos, boa noite.

    Os tempos mudaram, e apesar dos pesares o buzão não é vilão.

    O problema NÃO é o buzão.

    O problema é a interferência e a INJESTÃO do puder sobre o buzão.

    O dia que o puuuuuuuuder se tocar e trabalhar como tem de trabalhar o buzão rodará numa boa.

    Uma outra solução era o puuuuuuuuuuuuder não fazer mais nada e deixar quem sabe operar o buzão
    trabalhar em paz.

    Nem competência para firmar contrato de manutenção de semáforo a PMSP quiçá o resto.

    Cuidar do pavimento da faixa do buzão, nem pensar.

    Uma coisa é certa, o buzão não é nem patinho feio e muito menos vilão.

    Agora o puder é pato feio, vilão e tudo de ruim que existe, isso sim.

    Att,

    Paulo Gil

  5. Adorei o texto , até que enfim falou se um pouco da verdade . Tantos problemas na cidade e uma das únicas coisas que funciona todos os dias 24 horas e sempre criticada ( como esse caso da poluição , será que é o ônibus que polui levando centenas de pessoas por carro ou um automóvel que em 80% dos casos leva uma pessoa só , ou as motos que quase não tem nenhum controle de emissões , carburadas e 2 tempos )
    Acho que as pessoas devem se especializar um pouco nos assuntos e não vir com baboseiras sem fundamento ! Os caminhões que circula na cidade tem uma idade média de 14 anos e os ônibus 6 anos de média ( quem está poluindo mais ) mas sempre o ônibus que leva a bronca . A única hora que o ônibus polui e quando o poder público deixa incendiarem eles ( isso sim tem que ser visto ) por um ponto final nisso chega de fogo !
    Chega de teatro vamos cuidar do nosso transporte e dar o valor que ele merece !

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  1. Transwolff

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