“Funilaria de empresa de ônibus é celeiro de artesãos”

Odair Gomes ao lado de trólebus modernizado. Um dos grandes desafios d equipe de funilaria da empresa

Frase é de Odair Gomes de Oliveira, que chefia no setor de funilaria e pintura da Metra e conta um pouco da rotina de trabalho do setor. Muitas soluções usadas pela indústria de chassis e carrocerias saem das oficinas das garagens, que adotam técnica e muita criatividade para deixar os veículos de transporte coletivo mais adequados a cada realidade de operação

ADAMO BAZANI

Quem pensa que o setor de funilaria de uma empresa de ônibus serve apenas para consertar os veículos que batem está bem enganado.

Na verdade, assim como a mecânica e elétrica, a funilaria tem seus cronogramas de manutenções preventivas e fazem alterações nos veículos para adequar os ônibus às características de cada operação. Todas essas alterações respeitam as normas veiculares previstas pelas fabricantes e por leis que regulamentam o setor automotivo e a operação dos transportes coletivos;

“O setor de funilaria de uma empresa de ônibus é especial. Possui toda uma dinâmica e o profissional tem de saber da técnica, mas tem de ser criativo. Funilaria de empresa de ônibus é um celeiro de artesãos” – disse o responsável pelo setor na Metra, empresa que opera ônibus e trólebus no Corredor ABD, entre a cidade de São Paulo e o ABC Paulista, Odair Gomes de Oliveira.

Profissional há quase 40 anos no setor de transportes, Odair conta que atualmente muitas fabricantes de chassi e carroceria têm dado mais ouvidos aos profissionais de funilaria que não apenas sugerem alterações nos modelos como também desenvolvem muitas soluções em conjunto com os engenheiros da indústria.

“Antigamente não era assim. Fazíamos as alterações e ficava por isso mesmo. Hoje não, a indústria vem até a gente e segue nossas sugestões. Tanto é que as novas gerações dos modelos de ônibus já saem com as mudanças. Não é que os engenheiros fizeram errado, mas nós sugerimos melhorias para deixar os ônibus e trólebus cada vez mais adequados – contou.

O profissional citou três exemplos recentes.

O Trólebus Novo da Metra, o Millennium BRT de 18 metros, e o ônibus de 23 metros, o “superarticulado” Millennium BRT, vinham com a sanfona da articulação num nível muito rente ao limite inferior da carroceria, fazendo com que a articulação pudesse raspar em valetas, subidas ou lombadas.

Odair conta que a Metra e outras empresas apresentaram a solução de deixar “a sanfona” mais alta, o que já é adotado de fábrica na nova reestilização do Millennium BRT.

Profissional da funilaria realinha “sanfona” da articulação. Projeto teve parceria com o pós-venda da fabricante

Outro exemplo é a tampa traseira, na região do motor do Millennium BRT 23 metros a diesel, Mercedes-Benz O 500 UDA.

“Devido à possibilidade de superaquecimento, para evitar o problema, fizermos com moldes que nós mesmos criamos, uma área maior para ventilação.” – explica.

Odair mostra até onde ia a abertura da tampa traseira. Espaço de entrada de ar foi ampliado

Já para o compartimento lateral do motor, onde há radiadores e bombas, a equipe da Metra desenvolveu uma rede que evita poeira, terra e restos de vegetais nos componentes.

“Além da poeira da cidade, por causa da poluição, há o Corredor Verde e existe o risco das folhas de árvores entrarem. Então elaboramos telas de proteção que não prejudicam a ventilação, mas barram a sujeira mais grossa” – explicou.

Tela de proteção especial elaborada pela Metra para proteger motor e componentes

Outra atribuição da funilaria da Metra é a preparação de viaturas especiais para socorro e manutenção. O departamento praticamente se transforma numa espécie de fábrica de veículos personalizados, sempre, seguindo as exigências e as recomendações dos fabricantes originais e das leis de trânsito e que regem sobre o setor automotivo.

Normalmente, as viaturas são feitas em micro-ônibus do Grupo ABC, ao qual pertence a Metra, que já atingiram a idade máxima permitida para o transporte urbano regular.

Respeitando as características estruturais dos veículos, os profissionais desmontam o interior e retiram as chapas. A estrutura, chassi e a mecânica básica são mantidas.

Algumas peças, como cambões, bancadas, ganchos e cilindros, são feitas dentro da própria garagem. O desenho destas peças também é elaborado pelos profissionais da funilaria da Metra.

Alguns equipamentos nos veículos também são ampliados para as novas finalidades de apoio e socorro. Por exemplo, os micro-ônibus originalmente com duas baterias acabam recebendo quatro para socorro elétrico. Modelos que possuem um reservatório de ar acabam recebendo duas unidades para reparos relacionados aos pneus.

Estrutura de micro-ônibus que vai se transformar em viatura de apoio. Veículo vai receber mais baterias e reservatórios de ar

Micro-ônibus já transformado. Parte interna virou uma mini oficina

Muitas vezes, os materiais usados para confecção das novas peças são feitos a partir de chapas e vigas resultantes da própria atividade habitual da funilaria. Assim, há uma reutilização e reciclagem dos materiais do setor.

Outro trabalho realizado pela funilaria é modernização de veículos antigos para operação ou restauro para acervo histórico.

Odair lembra que entre 2013 e 2015, houve a modernização de 22 trólebus Torino Geração 4 chassi Volvo, que receberam novos equipamentos elétricos, iluminação e interior.

“Foi um projeto desafiador e bastante trabalhoso. Por serem trólebus, a vida útil é bem maior que ônibus a diesel. Os veículos, ano 1986, estavam ainda na idade permitida, mas precisam ter maior eficiência e oferecer mais conforto.  Trocamos as borrachas das janelas, o piso por um modelo mais leve e antiderrapante, os faróis e lanternas (conjuntos óticos dianteiro e traseiro) receberam led, os bancos dos passageiros foram trocados por modelos mais ergonômicos. Os 22 trólebus foram revitalizados” – lembrou.

A restauração de ônibus e trólebus antigos requer um verdadeiro trabalho artístico dos profissionais da empresa.

Caio Vitória Volvo B 58. Modelo do início dos anos 1990 marcou história na Metra e foi restaurado para acervo.

Muitas vezes, há poucas referências sobre estes ônibus que foram modificados com o tempo e precisam voltar ao estado original. Alguns nem fotos sequer possuem com as características originais. Assim, o conhecimento, a memória, a pesquisa e o gosto pelos transportes por parte dos funcionários falam mais alto. Entre cortes metálicos, injeções de plástico, colagem e soldas, a história dos transportes é reconstruída. Muitas peças acabam sendo fabricadas na funilaria. Como são ônibus bem históricos, vários componentes dos ônibus e trólebus não são mais encontrados no mercado.

A transformação de ônibus comuns urbanos para as características de ônibus escolares também é outro trabalho da funilaria na Metra.

“O trabalho é bem caprichado, já que estes ônibus recebem novos padrões de segurança. A portas central e traseira são retiradas e a estrutura do local é preparada para receber janelas. Não dá para simplesmente tirar a porta, fechar a parte da lataria e colocar uma janela no lugar. Há toda uma preparação para que o veículo continue com segurança e ao mesmo tempo com uma estética agradável, sem remendos. Os bancos são reposicionadas de acordo com a nova configuração interna e recebem cintos de segurança para as crianças” – explicou.

Ônibus preparado para transporte escolar antes operava no corredor

Interior também foi mudado, com bancos reposicionados que receberam cintos de segurança para as crianças

FUNILARIA NO DIA A DIA:

Para os veículos que prestam serviços no dia-a-dia do Corredor da Metra, as manutenções da funilaria são intensas e rigorosas.

Existem as manutenções corretivas, que atendem a ocorrências como batidas, arranhados amassados e quebra de componentes internos, mas o trabalho que mais mobiliza os profissionais se refere às manutenções preventivas e preditivas.

A manutenção preventiva da funilaria ocorre no mesmo dia da manutenção programada da mecânica. Isso é feito para o veículo parar uma vez apenas. O ônibus ou trólebus, logo após passar pela inspeção mecânica, vai até a funilaria onde é submetido a uma avaliação geral.

Lona e perfis metálicos da articulação já realinhados um pouco acima do limite inferir da lataria. Solução impede que equipamento arraste em valetas e inclinações

Entre os itens que a funilaria verifica na manutenção preventiva estão a tapeçaria dos bancos, a condição dos balaústres, os retrovisores, possíveis trincas e oxidação em lataria, eventualidades de parafusos soltos e se estão em boas condições os adesivos obrigatórios pelo contrato de concessão, como os indicadores de acessibilidade, número telefônico para contato e prefixo do veículo. A funilaria também verifica como estão as alavancas dos trólebus, as rodas, as capas amarelas dos balaústres e as articulações, quando o ônibus for dessa configuração. Na manutenção preventiva, a sanfona da articulação é limpa e analisada pelo setor. São verificados na articulação a condição das lonas e dos perfis metálicos que unem a estrutura.

 

Fabricados pela empresa Rubiner, os componentes da articulação vêm com marcação do tempo de fabricação e têm um cronograma de manutenção

Limpeza e manutenção da articulação, perfis e lonas são de responsabilidade da funilaria. Data de fabricação determina manutenção e vida útil

A manutenção preditiva, como o nome sugere, prediz ou tenta prever o que pode acontecer na operação. Muitas vezes são necessárias algumas alterações dependendo da realidade operacional do veículo e da linha.

As alterações que são feitas em conjunto com fabricantes, como foi mostrado no início da matéria, também entram na manutenção preditiva. Por exemplo, realinhamento da altura da articulação, colocação de telas de proteção nas grades de motor, reposicionamento de peças, respeitando as normas veiculares.

O objetivo é evitar problemas e deixar o ônibus ou trólebus sempre disponível para a população.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

4 comentários em “Funilaria de empresa de ônibus é celeiro de artesãos”

  1. Amigos, boa tarde.

    Parabéns Ádamo, mais uma matéria aula do buzão, sensacional.

    Outro dia eu tinha observado uma sanfona raspar no chão, bacana a ideia.

    Sr. Odair, vou lhe dar uma sugestão.

    Essas suas ideias não pode “doar” para as montadoras, não, tem de vender, sabe por que ?

    Porque as montadoras vão ganhar dinheiro em em cima das suas boas ideia.

    A prática só quem tá no dia a dia tem e as montadoras só pensam em design, não pensam em funcionalidade.

    Mas eu gostaria de saber mais sobre essa transformação de buzão escolar, isso é doação para o estado? Por que precisa transformar para escolar ??

    Outra curiosidade que eu tenho é porque nos carros de manutenção são tiradas as janelas e chapeiam a carroceria todinha ?

    Será que é para a segurança dos equipamentos internos ??

    Sr. Odair parabéns pelas suas ideia, sensacionais.

    A nova grade de ventilação ficou showwwwwwwww.

    Att,

    Paulo Gil
    “Buzão e Emoção é a Paixão”

  2. Sensacional reportagem. Parabéns Adamo.

  3. Cleyton Alves de Siqueira // 28 de setembro de 2017 às 19:33 // Responder

    Excelente matéria

  4. José Roberto Grivol // 7 de novembro de 2017 às 09:37 // Responder

    parabenizo também ao meu amigo Odair, grande e competente profissional, o qual, tive o enorme prazer em conhecer e fazer parte de uma empresa do grupo. Abraços!!!!!!

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  1. Conheça os bastidores do setor de funilaria das empresas de ônibus | UCT - Universidade Corporativa do Transporte

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