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Uma nova chance para os trólebus de São Paulo

Trólebus evoluíram com o tempo

Rodrigo Alves de Paula

Sustentabilidade é a palavra de ordem para toda a sociedade mundial e o cenário não é diferente na área de mobilidade urbana. Na cidade de São Paulo, encontra-se em elaboração um grande projeto de mobilidade sustentável envolvendo a frota de veículos existentes na metrópole; em discussão na Câmara Municipal, o projeto prevê que a emissão de materiais particulados seja reduzido em 78% e de óxido de nitrogênio em 74% até o ano de 2027. Por outro lado, a prefeitura anunciou, recentemente, que 60 ônibus elétricos à bateria serão adquiridos e incorporados à frota de ônibus urbanos municipais.

NR: O Diário do Transporte mostrou com exclusividade que a compra destes ônibus segue travada porque o veículo não teu autorização de operar e pelo fato de não terem ocorrido reuniões entre empresas de ônibus e prefeitura de São Paulo para definir a remuneração e detalhes operacionais sobre estes veículos. Relembre:

EXCLUSIVO: Compra de novos ônibus não poluentes está travada em São Paulo, mesmo após anúncio da prefeitura

A tendência é que o investimento em mobilidade sustentável seja cada vez maior em São Paulo nos próximos anos.

Porém, uma tecnologia comprovada, ecologicamente correta e eficiente de mobilidade urbana já está presente nas ruas de São Paulo há quase 70 anos: o trólebus.

A primeira linha de trólebus de São Paulo (e do Brasil) foi inaugurada em 22 de Abril de 1949, dentro do plano de investimentos da Cia. Municipal de Transportes Coletivos (CMTC) na recuperação da rede de mobilidade urbana da cidade; o serviço pioneiro ligava a área central com o bairro da Aclimação. Em 1965, a rede de trólebus já atendia a bairros como Vila Formosa, Tucuruvi, Pinheiros e Ipiranga; na mesma época, a CMTC fabricava seus próprios ônibus elétricos com motores Villares e chassis GMC reciclados (esses carros ganharam o apelido de Villarinhos e rodaram até 2002).

A década de 1970 foi marcada por duas crises de fornecimento de petróleo ao Ocidente, o que fizeram os preços dos combustíveis atingirem níveis altos no Brasil. Diante desse quadro, foi desenvolvido o SISTRAN, um grande plano de mobilidade urbana que previa, entre outras propostas, a ampliação da rede de trólebus na cidade de São Paulo. Parte desse plano chegou a ser executado, com a introdução de novos serviços de trólebus ligando a área central aos bairros de Santo Amaro, Penha, São Mateus, Casa Verde e Vila Prudente; um desses serviços, o corredor Bandeira – Terminal Santo Amaro, era praticamente um BRT operado por trólebus, pois os veículos rodavam em canaletas exclusivas nas avenidas 9 de Julho e Santo Amaro.

No auge do sistema, durante a década de 1990, a rede de trólebus era de 343 Km, com 24 linhas e uma frota de 557 veículos, conforme mapa produzido pela equipe do site Respira São Paulo:

No fim da década de 1990, após a extinção da CMTC, novos trólebus foram adquiridos e um serviço especial central foi implantado pela SPTrans, ligando os terminais Pedro II, Bandeira e Princesa Isabel: era o Circular Central, com três linhas:

CC1 – Terminal Bandeira/Terminal Princesa Isabel

CC2 – Terminal Parque Dom Pedro II/Terminal Bandeira

CC3 – Terminal Parque Dom Pedro II/Terminal Princesa Isabel

Infelizmente, no começo dos anos 2000, parte da rede de trólebus de São Paulo foi desativada. Os motivos alegados foram a falta de recursos para a restauração do sistema (a infra-estrutura se encontrava em precárias condições) e a introdução do novo sistema de transporte Interligado mediante reforma dos corredores. 142,4 Km de rede foram desmantelados e 344 veículos (incluindo os Villarinhos, os trólebus Mafersa e até mesmo os trólebus Mercedes-Benz/Neobus adquiridos nos anos 1990) foram desativados. A rede de trólebus passou a ter somente 10 linhas, atendendo somente à área central e Zona Leste.

Entre 2009 e 2014, porém, toda a frota remanescente de trólebus em São Paulo foi renovada, com a aquisição de ônibus com piso baixo e alguns modelos com 15 metros de comprimento. Atualmente, a cidade conta com 201 trólebus em operação, todos fabricados nesse último período de renovação.

Hoje, apenas 1,4% da frota de quase 15 mil ônibus urbanos em operação nas ruas paulistanas são ecologicamente corretos, incluindo aí os trólebus, os veículos movidos à etanol e os dois elétricos à bateria em testes. Recente estudo do Greenpeace mostrou que, se toda a frota paulistana de ônibus diesel fosse trocada por veículos elétricos, num período entre 2020 e 2050, quase 13 mil vidas seriam salvas das complicações provocadas pela poluição atmosférica.

O trólebus é uma tecnologia que poderia ser novamente abraçada pela sociedade paulistana. A má imagem dos trólebus perante à população se deveu à deterioração do sistema durante a década de 1990, quando a rede aérea não recebia a sua devida manutenção e panes decorrentes de alavancas desconectadas, veículos velhos e falta de energia tornavam as viagens por trólebus uma verdadeira aventura.

Hoje em dia, a tecnologia presente em nosso país pode fazer do trólebus uma alternativa viável, econômica e eficiente de modal nos principais eixos de transporte coletivo. O trólebus apresenta algumas vantagens sobre os ônibus elétricos à bateria:

Além de tudo isso, o Brasil tem know-how na área de trólebus, podendo projetar modelos articulados e biarticulados com tecnologia semelhante ao existentes em países como Suíça, Alemanha e Polônia. Recentemente, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) testou um trólebus com motor de tração em corrente alternada, apresentando bons resultados e que pode proporcionar a redução no número de subestações necessárias para a operação do sistema.

Já a rede aérea pode proporcionar altas velocidades operacionais, caso a mesma seja mantida adequadamente; em alguns países, a rede aérea flexível praticamente elimina os riscos de escape das alavancas dos veículos, tornando as operações mais confiáveis e eficientes.

Considerando tudo isso, a distribuição ideal dos modais de tração no serviço urbano de ônibus em São Paulo poderia ser assim:

Algumas linhas troncais existentes em São Paulo poderiam ser operadas por trólebus articulados e biarticulados, tais como:

As linhas já existentes de trólebus seriam mantidas.

Com o advento da nova licitação dos transportes públicos por ônibus em São Paulo, é proposto que os consórcios vencedores adquirem a frota necessária de trólebus caso a SPTrans decida pela expansão do sistema, deixando uma cláusula que os deixariam ciente disso (não especificando a quantidade de frota de trólebus a ser adquirida no futuro). A rede aérea seria licitada separadamente, tendo como acionistas os consórcios operadores das linhas da região e empresas especializadas em manutenção elétrica, bem como a AES Eletropaulo.

A necessidade de tornar a cidade de São Paulo mais limpa e com qualidade de vida melhor abre oportunidades para a aplicação de novas tecnologias e o resgaste de algumas tecnologias já aprovadas ao longo do tempo. Por favor: deem uma nova chance aos trólebus de São Paulo.

Referências:

Rodrigo Alves de Paula, é graduando da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba

 

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