Associação Nacional alerta empresas de ônibus a tomarem cuidado com Refrota

Ônibus da Suzantur em Mauá. Empresa vai ter de tirar do próprio bolso, R$ 3 milhões por causa do Refrota

Cláusula que atrela financiamento somente à quantidade de veículos e não ao valor, prejudicou o primeiro negócio

ADAMO BAZANI

O Diário do Transporte revelou com exclusividade na semana passada que o primeiro financiamento do Refrota, programa com recursos de R$ 3 bilhões do FGTS para substituição de ônibus urbanos com juros mais baixos, registrou problema por causa de uma cláusula pouco esclarecida pela Caixa Econômica Federal – CEF.
A linha de financiamento é atrelada somente à quantidade de ônibus estipulada no momento da adesão da empresa ao Refrota e não o valor total dos veículos.
Mas como os recursos demoram para sair, no período entre a assinatura da proposta de adesão e a liberação do dinheiro, pode ocorrer aumento nos preços dos chassis e carrocerias, tornando insuficiente a verba disponibilizada para o financiamento.
Diante desta situação, a NTU -Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, que reúne mais de 500 viações no país, enviou circular para todas associadas orientando os donos de empresas de ônibus a tomarem cuidado com o Refrota.
A orientação é que as empresas de ônibus façam uma nova cotação dos veículos quando houver resposta positiva da Caixa Econômica Federal sobre a liberação do dinheiro e não assinem o contrato caso os recursos não sejam suficientes para a compra da frota estipulada. As alternativas são pedir à Caixa uma revisão de valores, da quantidade de ônibus e, se não houver acordo, desistir do financiamento.
Confira:

Circular_Ampla_010_2017

O problema ocorreu com o único contrato assinado até agora envolvendo a empresa de ônibus Suzantur, que opera os transportes municipais em Mauá, na Grande São Paulo.
A companhia conseguiu R$ 30,3 milhões para 100 ônibus, sendo que R$ 28,7 milhões financiados e R$ 1,5 milhão de contrapartida da empresa.
O dinheiro demorou quatro meses para sair entre as primeiras negociações e a resposta positiva da Caixa. Quando saiu, as carrocerias e chassis já estavam mais caros e os R$ 30,3 milhões não foram mais suficientes para 100 ônibus. A empresa perdeu nessa, mais de R$ 3 milhões.

Relembre:

EXCLUSIVO: Regra “oculta” do Refrota pode desestimular renovação de ônibus, dizem empresários

Não é o primeiro problema envolvendo Refrota, que foi anunciado oficialmente em janeiro deste ano, mas já noticiado em dezembro do ano passado.
O lançamento ocorreu em janeiro de 2017, mas este primeiro financiamento que teve problema, só foi assinado seis meses depois, em 12 de junho.
A Caixa Econômica pedia um seguro para ônibus.
Ocorre que não existe seguro para ônibus urbanos no mercado brasileiro, o que inviabilizava qualquer proposta.
A Caixa propôs um seguro, cuja franquia era de 75% do valor do ônibus, ou seja, na prática, cobria apenas 25% de quanto vale veículo.
Para piorar, não cobria atos de vandalismo e fortuitos populares, como incêndio e ataques.
Ocorre que a grande maioria de ocorrências que resultam em perda total em ônibus urbanos é relacionada justamente aos ataques e à incêndio .
Pelas condições de operação dos veículos urbanos, as possibilidades de colisão com perda total, por exemplo, são pequenas. A velocidade é baixa e os trajetos são menores e repetidos várias vezes por dia, ampliando o conhecimento do motorista.
Também não há praticamente roubo ou furto de ônibus urbanos , o que ocorre mais com veículos do padrão rodoviário e fretamento.
Assim, não haveria razão de existir este seguro proposto pela Caixa.
Depois de muitas negociações, a garantia para o financiamento se tornou os recursos dos Vales-Transportes de cada sistema de ônibus – um dinheiro que entra antecipadamente ao serviço prestado e pode ser retido pelas administrações públicas ou associações e sindicatos locais de empresas.
Mas os problemas atuais do Refrota não se restringem ao valor do financiamento defasado em relação às variações de preços de chassis e carrocerias.
Há uma questão burocrática que reduz a garantia de montadoras e encarroçadoras de ônibus.
Em linhas tradicionais, como do Finame, após a liberação do crédito, o banco operador se torna responsável pela negociação. Caso haja inadimplência por parte da empresa de ônibus, a produtora tem uma garantia.
Pelo Refrota, o modelo é diferente. É a empresa de ônibus que assina primeiramente e, depois da autorização da viação, é que as produtoras de chassi e de carroceria são notificadas.
Segundo fontes das empresas e de fabricantes ouvidas pelo Diário do Transporte, o modelo gera insegurança.
A Caixa Econômica Federal, em resposta, disse que segue as regras de financiamento pelo FGTS.

Confira áudio no final do texto, na rádio ABC:

Regra do Refrota desestimula empresários de ônibus

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

1 comentário em Associação Nacional alerta empresas de ônibus a tomarem cuidado com Refrota

  1. Edigar Pereira da Costa // 7 de agosto de 2017 às 09:21 // Responder

    Como quaisquer financiamentos, sejam públicos ou particulares, sempre haverá custos à mais para quem está solicitando. Estava fácil demais esse tal do Refrota com tantos benefícios e facilidades exorbitantes e essa pulga estava coçando na minha orelha desde quando a notícia foi dada aqui no Diário do Transporte. Quando algo grande vem com tanta facilidade e com promessas demais, é que a gente tem que desconfiar e ficar com um pé atrás, melhor ainda, ficar com os dois, e o velho ditado nos ensina isso: “Quando o Milagre é Grande, o Santo Desonfia”. O governo brasileiro, com uma carga tributária criminosa e sangrenta, que pega todo mundo no famoso “Pega-Ratão”, aí é que a casa cai mesmo, vamos ver se o governo muda essa regra do financiamento para que as Empresas de ônibus não tenham muita dificuldade para renovar a frota dos coletivos.

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