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Contribuições do Congresso da UITP – 2017

Foram apresentadas experiências e dificuldades relacionadas a mudança do modelo de negócios dos transportes públicos e nas relações entre autoridades, concessionários e agencias reguladoras.

VALESKA PERES PINTO

A promoção  a cada dois  anos do Congresso Mundial do Transporte Público, pela UITP – União Internacional de Transporte Público, renova a troca de experiências e a de avaliação das tendências mundiais que afetam o setor. O Congresso realizado nos dias 14 a 18 de maio de 2017, na cidade de Montreal– Canadá, não frustrou as expectativas. Como o lema “Liderar a TRANSIÇÃO”, reafirmou a necessidade do transporte público assumir a liderança diante das inúmeras mudanças e desafios colocados para as cidades no âmbito do planeta.

Os conteúdos tratadas em dezenas Conferencias e  Sessões Técnicas com a participação de 2.500 participantes de 84 países do mundo foram complementado pelas atividades promovidas na Exposição que contou com 330 empresas de 30 países apresentando seus produtos e soluções inovadoras, que recebeu 13.000 visitantes.

Como evento de caráter global, os temas tratados estão alinhados as grandes linhas estratágicas que movem governos e empresas, oferecendo um grande painel diante do qual cada região e país, em particular, pode encontrar experiências e parâmetros que podem ser ajustados as suas condições locais. Em síntese, as mudanças e inovações em curso na economia e na governança mundial, impulsionadas pela inovação tecnológica, apontaram para três pilares afetarão o setor e para os quais a UITP aponta a necessidade das organizações, autoridades e profissionais se preparem.

O primeiro dele é a digitalização, que compreende as mudanças nos processos de planejamento, operação, relacionamento interno nas organizações e, principalmente, com os usuários e sociedade em geral. Mais uma vez os debates abordaram a importância da construção de OPEN DATES ( Bancos de dados abertos) a partir da coleta automática de dados, o que envolve segundo cada país ou região, medidas regulatórias envolvendo transparência na utilização dos mesmos. Em diversas sessões apontou-se a pouca utilização dos dados já obtidos na melhoria do planejamento dos serviços.

Da mesma forma, autoridades e empresas reconhecem que a digitalização e o uso disseminado de smartphones empoderaram os diversos  segmentos da população. No lastro da disseminação dos meios digitais para a população, assiste-se ao surgimentos de novos parceiros, que precisam ser chamados a fazer parte do jogo. A integração das bicicletas as redes de transporte público e a redefinição do papel dos táxis e do Uber como alimentadores da rede de transporte coletivo foram relatados como experiências em curso em muitas cidades.

O segundo pilar pode ser identificado como a automação apresentada como um conjunto de medidas voltadas a melhoria da qualidade e regularidade dos serviços prestados, em particular com o uso crescente de tecnologia e da inteligência artificial. A automação dos processos de operação de veículos, sinalização e comunicação entre veículos, mais difundidos nos sistemas metroferroviários, começam a ser testados em sistemas rodoviários, como BRTs e veículos autônomos individuais. A conexão direta entre veículos, destes com as  plataformas, com os sistemas de sinalização e informação aos usuários, está sendo visto como condição para melhoria na regularidade dos serviços e para a segurança.

Finalmente, a eletrificação foi colocada como um desafio global para que o setor do transporte público lidere os esforços mundiais para a redução do uso de combustíveis fósseis, dando um ”exemplo para o resto do setor de transportes”, como afirmou Alain Flausch, Secretário Geral da entidade. A China lidera a política de eletrificação veicular, tanto individual como coletivo, tendo anunciado 100% da eletrificação do transporte público da Shezen, capital da província de Guangdong, no sul da China. A cidade tem 11 milhões de habitantes e é a 4ª cidade mais rica da China, perdendo apenas para Xangai, Hong Kong e Beijin. Também foi anunciado o implemento de 100% da eletrificação dos ônibus de Paris para 2022 e de Montreal para 2025.

Em todas as cidades que apresentaram planos de eletrificação foram destacados os ganhos de qualidade de vida, com redução da poluição do ar e redução do ruído. A eletrificação vai de par com a ampliação da infraestrutura para o processo de digitalização e automação. A estratégia de eletrificação contempla as ações visando garantir o fornecimento de eletricidade, a partir de diferentes fontes – energia solar, energia eólica, gás, petróleo e óleo vegetais. Foi destacado a importância da criação de incentivos fiscais para a mudança da matriz energética e a criação da infra-estrutura de carga e recarga. Neste sentido o sistema de transporte público possui melhores condições para dar este salto e transformar garagens e estações em usinas de geração de energia, para uso pelo setor e mesmo comercialização do excedente.

Os debates não se restringiram às aplicações de tecnologia. Outros temas igualmente desafiantes foram considerados. O primeiro refere-se as mudanças no mundo do trabalho e das expectativas das novas gerações, que servem de provocação para o redesenho das redes de transporte e para a adoção de praticas dinâmicas para sua  reprogramação. O surgimento de novos parceiros também foi tratado, em particular os programas de compartilhamento de viagens em carros ou bicicletas, que precisam ser considerados pelos operadores dos sistemas massivos. O Transporte ‘on demand’, construído a partir de aplicativos que ajustam itinerários/demandas/horários, também começa a ser testado. Experiências de carros autônomos também foram apresentadas e uma experiência foi disponibilizada aos congressistas durante o evento. Vale dizer que o congresso cada vez mais esta voltado para debater como fazer do transporte público um elemento estrutural para cidades sustentáveis.

Foram apresentadas experiências e dificuldades relacionadas a mudança do modelo de negócios dos transportes públicos e nas relações entre autoridades, concessionários e agencias reguladoras. As diferenças nos sistemas políticos e institucionais, assim como das culturas organizacionais, acabam sendo deixados para o plano de enfrentamento local e regional. As diretrizes neste domínio tende a ser gerais e alinhadas com programas globais, como aqueles conduzidos pela ONU/OMS –Década de redução de acidentes de trânsito ou pela OCDE. Daí emerge a importância das Divisões Regionais da UITP presentes em todos os continentes.

Para finalizar, cabe destacar a participação brasileira no Congresso da UITP 2017. Na Sessão Latin America concluiu-se o primeiro ciclo do “Programa de Melhores Praticas de Promoção e Comunicação da Mobilidade Urbana”. Neste programa foram inscritos 46 projetos de 17 cidades de 6 países do Continente. Na categoria Promoção, a melhor prática reconhecida foi apresentada pela ViaQuatro – Programa “Lotação do próximo trem”, aplicativo que informa quando o trem vai chegar e qual o carro mais vazio, permitindo melhor distribuição dos passageiros e mais conforto na viagem. Na categoria Comunicação, dois finalistas: MetroSP – Campanha contra abuso sexual e Scipopulis – Aplicativo de Mobilidade Pública. A melhor prática reconhecida foi apresentada pela Autopass – BOM – Mais de 6 milhões de cartões e milhares de histórias.

Na Cerimônia de encerramento do Congresso foram apresentados os finalistas do Prêmio UITP e entre eles foi reconhecido na categoria Smart Financing and Business Models, o case apresentado pela ADDAX e EMTU-SP relativa ao contrato de PPP do Sistema Integrado de Ônibus e VLT da Baixada Santista.

O Congresso teve como anfitriões e organizadores as operadoras de transporte locais AMT e STM, que aproveitaram o momento para divulgar o sistema de transporte público integrado de Montreal, que inclui a integração com carros e bicicletas compartilhados. O próximo Congresso será em 2019 na cidade de Estocolmo, sob o comando Pere Calvet, novo presidente da entidade. Pere Calvet Tordera, é engenheiro civil, com mais de 30 anos de experiência em vários setores de transportes públicos – incluindo os sistemas ferroviários metropolitanos e suburbanos. Desde 2011, Pere Calvet é Gerente Geral de Ferrocarriles da Generalitat de Catalunha (FGC) em Espanha.

Valeska Peres Pinto – Presidente da CT de Marketing da ANTP

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