Londres dá exemplo de como subsidiar renovação da frota com ônibus mais limpos

Manchete do jornal The Independent, de 16 de março de 2016, já apresentava os primeiros modelos elétricos da BYD

Programa de renovação funciona à base de subsídios provenientes de um fundo especial. O fundo é formado com recursos públicos, como, por exemplo, do famoso pedágio urbano de Londres, além do dinheiro proveniente da cobrança de taxas e multas por infrações ambientais

ALEXANDRE PELEGI

Enquanto em São Paulo a questão da Lei de Mudanças Climáticas ainda é um assunto polêmico, as cidades européias avançam céleres na estipulação de cronogramas com vistas a suprir as frotas do transporte coletivo com ônibus menos poluentes.

É o caso de Londres, cuja frota passa por completa renovação. A capital do Reino Unido está num processo de substituição dos ônibus convencionais por modelos híbridos – elétricos e a combustão -, como também por ônibus movidos exclusivamente à eletricidade.

Em toda a Europa há pressões intensas para o cumprimento de metas ambientais, o que levou o governo britânico a acelerar sua renovação da frota no resto da Inglaterra, com destaque para cidades de Londres e Manchester. O transporte em Londres é o responsável por 40% das emissões de óxido de nitrogênio na área metropolitana da cidade.

Nem mesmo os tradicionais ônibus de dois andares, tradição do país, escaparam à modernização. O que parecia ser um problema insolúvel para a transformação dos tradicionais “double deckers” em veículos elétricos, hoje já foi superado pelos técnicos – o peso excessivo das baterias. A ponto de já se ver os ônibus de dois andares, que tanto encantaram o ex-prefeito paulistano Jânio Quadros, circulando na versão elétrica pelas ruas da capital inglesa. Veja abaixo a versão lançada pelo então prefeito Jânio:

fofao

Os cinco modelos iniciais, lançados em 2016, foram construídos pela fabricante chinesa BYD, poderão viajar 180 milhas com uma única carga.

O exemplo de inovação em transporte público mais limpo, no entanto, vai além da tecnologia. O programa de renovação funciona à base de subsídios provenientes de um fundo especial. O fundo é formado com recursos públicos, como, por exemplo, pelo famoso pedágio urbano de Londres, além de dinheiro proveniente da cobrança de taxas e multas por infrações ambientais.

O quanto vai de subsídio para cada tipo de veículo é função diretamente proporcional à quantidade de emissões de poluentes por ele emitido – quanto mais limpos são os ônibus, mais recursos eles recebem do governo.

À semelhança do Brasil, o transporte em ônibus na capital britânica é operado por empresas privadas, escolhidas em processo licitatório. Além de subsidiar o estímulo à substituição da frota por modelos menos poluentes, o governo londrino subsidia também o preço das tarifas.

Dados do Departamento de Transportes da Inglaterra dão conta que apenas nos quatro primeiros anos do programa já foram concedidos em todo o país 86 milhões de libras em subsídios para estimular as trocas por ônibus com baixa emissão de dióxido de carbono. Estes recursos permitiram que fossem adquiridos 1,2 mil veículos mais limpos, o que redundou na redução de 28 mil toneladas de dióxido de carbono/ano. Para o segundo semestre de 2016 foram anunciados mais 30 milhões de libras (US$ 40,6 milhões) para a troca por veículos mais limpos. Recentemente o governo londrino ofereceu mais 100 milhões de libras (US$ 135,5 milhões), não apenas para o programa de ônibus com baixa emissão, como também para táxis.

O programa, que atingiu já a marca de 9,5 mil veículos, começou em 2009 com o uso de tipos de diesel menos poluentes. Na sequência vieram os ônibus híbridos. Atualmente, cerca de 28% dos ônibus do transporte público da capital inglesa são híbridos, e a meta é elevar este percentual para no mínimo 35% em 2019. Em 2016, o Reino Unido estabeleceu novas metas com vistas a um transporte público livre de poluentes.

O sucesso do programa de renovação da frota de ônibus levou Londres à liderança no ranking das cidades que aderiram ao programa, com 48% dos ônibus operando já com energias alternativas.

ELETRIFICAÇÃO TEM PAPEL IMPORTANTE, E LONDRES NÃO VAI ABRIR MÃO DOS TRADICIONAIS VEÍCULOS DE DOIS ANDARES

A Transport For London, órgão responsável pelo transporte público na Grande Londres, tem uma área de emissões, dirigida por Finn Coyle.

Em matéria do Valor Econômico, escrita pela jornalista Marli Olmos, quando questionado se com a chegada dos veículos elétricos os tradicionais “double deckers” serão aposentados, Finn Coyle reage com indignação. E conta que as experiências com estes tradicionais veículos não só já começaram, como serão ampliadas.

“Inicialmente o peso das baterias limita o número de passageiros; mas com o tempo esses veículos serão adaptados. A topografia de Londres não permite a circulação de veículos muito longos”, afirma Finn Coyle ao jornal brasileiro.

O uso do diesel mais limpo, ele afirma, foi insuficiente para alcançar as metas ambientais definidas. Por isso, conta Coyle, “a eletrificação tem papel importante. Isso inclui os ônibus híbridos, que se mostraram altamente eficientes na redução de CO2, além dos veículos puramente elétricos”, ele destaca.

Quanto ao gás carbônico, um dos maiores vilões entre os poluentes emitidos por veículos, a meta fixada por Londres é alcançar 2025 com uma redução de 60%, quando comparado com os níveis de 1990.

Mas por que subsidiar ônibus mais limpos?

Ao contrário daqui, onde a maioria dos gestores públicos só enxerga os custos separados do transporte, em muitas cidades do mundo esta equação já foi ampliada faz tempo. O exemplo é dado por Phil Fletcher, responsável pelas vendas da Volvo no Reino Unido, entrevistado pelo jornal Valor Econômico. Fletcher afirma que a grande motivação para os subsídios está justamente do lado de fora da conta que só enxerga os custos vinculados: “problemas respiratórios na população e gastos públicos com saúde são os grandes motivadores”, ele diz.

Não à toa a Volvo responde hoje pela fatia de 23,5% nesse mercado de ônibus urbanos, sendo uma das principais fornecedoras de híbridos para a região.

Os mais de 5 mil ônibus com energia mais limpa que passaram a rodar no Reino Unido evitaram  nos últimos oito anos que 310,5 mil toneladas de gases do efeito estufa fossem lançados no ar.

Sobre o custeio do transporte público, leia a entrevista com Adriano Branco: (https://diariodotransporte.com.br/2017/06/26/assista-e-um-erro-insistir-no-custeio-do-transporte-publico-apenas-pela-tarifa-diz-especialista/)

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transporte

 

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Comentários

Comentários

  1. Paulo Gil disse:

    Amigos, bom dia.

    Como é bom, logo pela manhã ler uma matéria como esta.

    O DD “verde” londrino é um verdadeiro Lord inglês.

    Parabéns Londres.

    Apesar do caos quanto a licitação do buzão de Sampa, é inadmissível que Sampa não tenha rodando, no mínimo 02 buzões verdes por empresa.

    Afinal, em São Paulo temos duas fábricas de buzões verdes, Eletra e BYD, sem falar nos híbridos.

    Para fazer essa conta, nem precisa ter frequentado as aulas da Tia Cotinha, afinal os ganhos em saúde e ambiental, superam qualquer custo e significam lucros.

    Afinal não há bens maiores do que a VIDA e o PLANETA.

    Parem de transportar indiciados da lava jato em jatinhos da PF e doem esse dinheiro para uma causa mais nobre.

    Afinal já existe vídeo conferência.

    Realmente Londres é o espelho e da elegância, estilo e categoria de sua majestade a Rainha Elizabeth.

    Pena que o Barsil, não é fadado a seguir e nem a dar bons exemplos.

    Att,

    Paulo Gil
    “Buzão e Emoção é a Paixão”

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