Em 2016, Curitiba viu número de mortes de motociclistas superar o de pedestres

Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

69 motociclistas ou caronas morreram nas ruas da capital paranaense no ano passado; número supera o registro de pedestres (62) e ocupantes de carros (44)

ALEXANDRE PELEGI

A quantidade de motociclistas vítimas do trânsito tem crescido em todas as cidades brasileiras. Em Curitiba, segundo balanço divulgado pela prefeitura na quarta-feira, dia 14, o fato se repete: o número de motociclistas mortos em acidentes de trânsito foi maior que o de pedestres em 2016.

De acordo com os dados apresentados, 69 motociclistas ou caronas morreram nas ruas da capital paranaense, número maior que o de pedestres (62) e ocupantes de automóveis (44).

A quantidade de mortes envolvendo motocicletas cresceu 23% em comparação a 2015, ano em que 56 motociclistas (e caronas) morreram na cidade.

Assim como em São Paulo, as autoridades de Curitiba pensam em focar em ações específicas para esse público.

Gustavo Garrett, um dos coordenadores do projeto Vida no Trânsito, afirmou ao jornal Gazeta do Povo que sua organização trabalha com quatro pontos críticos na cidade de Curitiba: álcool, velocidade, pedestre e, sobretudo, motociclistas. “Hoje, dos quatro pontos focais, a nossa necessidade de investimento maior em educação, engenharia e fiscalização é na modalidade motociclista”, disse Gustavo. O projeto Vida no Trânsito é um programa mundial que monitora mortes e acidentes em busca de suas causas, para a partir daí tentar mitigar lesões e óbitos.

No total morreram 196 pessoas em Curitiba em 2016, onze casos a mais do que em 2015. O número de mortes de motociclistas em 2016 (69) representa 35% do total de mortes nas vias e rodovias da cidade.

Quando comparados os dados de 2011 com 2016 o total de óbitos registrou queda de 38%.

Área Calma: limite de velocidade de 40 km/h

Assim como em São Paulo, medidas de redução de velocidade em Curitiba, adotadas na gestão passada (Gustavo Fruet), estão sendo postas em questionamento pela atual administração de Gustavo Greca. A Área Calma, que definiu uma velocidade máxima de 40 km/h no polígono que engloba 140 quarteirões no centro de Curitiba, tem sido contestada pela nova gestão desde que Rafael Greca assumiu a prefeitura.

Em abril, o prefeito afirmou que manteria a Área Calma até obter dados que sairão de uma série de estudos conduzidos pelo Instituto de Pesquisa Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc).

Estimativas do projeto Vida no Trânsito, no entanto, afirmam que a Área Calma reduziu em aproximadamente 24% o número de vítimas e em 36% o número geral de acidentes na zona em que está instalada.

MOTOCICLETAS NO BRASIL:

A frota de motocicletas no Brasil deu um salto gigantesco no país: passou de 2,5 milhões em 1998 para 20,3 milhões de unidades em junho de 2016. Em quase 20 anos a frota de motocicletas, que correspondia a 10% da frota total de veículos, aumentou 8 vezes de tamanho: hoje representa 22% da frota total de veículos no país.

A consequência não poderia ser outra: o incentivo ao uso da motocicleta teve um enorme impacto no aumento das mortes no trânsito, expondo a fragilidade dos seus usuários. Afora isso, cabe salientar que, da mesma forma que o uso intenso do automóvel concorre com os serviços de Transporte Público, o crescimento do uso das motos retira passageiros dos ônibus, desequilibrando o orçamento do sistema de ônibus.

Uma tragédia anunciada, a mortandade envolvendo o veículo sobre duas rodas começou a ser armada em 1997, quando foi aprovado o novo Código Brasileiro de Trânsito. Eduardo Vasconcellos, consultor da ANTP e especialista no tema, publicou o livro “Risco no trânsito, omissão e calamidade“, onde traz números impressionantes sobre o uso intensivo da motocicleta no trânsito brasileiro. Em seu livro, Eduardo conta que o presidente Fernando Henrique Cardoso, após pressão da indústria, vetou o artigo que proibia motos de trafegar entre as faixas de rolamento. Logo em seguida o governo federal liberou incentivos fiscais para a indústria de motos no país, o que continuou na década seguinte, já sob o governo Lula.

Com a crise global de 2008, mais ajuda ao setor: o governo desonerou fortemente a produção de vários itens duráveis, entre os quais as motocicletas. Apenas em 2012, quando as motos já inundavam as ruas e avenidas das cidades brasileiras, a alíquota de IPI sobre o veículo, que tinha caído para 15%, voltou para 35%. Mesmo assim, a medida não afetou a Zona Franca de Manaus, que concentra 90% da produção nacional de motocicletas.

As consequências dessa mistura de leniência e estímulos governamentais só podiam ter como causa a explosão do número de mortos e feridos no trânsito. Dados compilados por Eduardo Vasconcellos em seu livro apontam que entre 2008 e 2015 o Brasil contabilizou 2.058.504 acidentes com vítimas. No mesmo período, 1.896.374 de pessoas pediram indenização por invalidez decorrente de acidente com motocicletas. E outras 162.130 pessoas morreram.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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