Santa Catarina tem maior taxa de veículos por habitante do país

Uma das propostas de BRT na Grande Florianópolis é para a Via Expressa (Foto: Secretaria de Estado de SC do Planejamento/Divulgação)

Estado de São Paulo ocupa 3º lugar no ranking nacional, com 609 veículos para cada morador

ALEXANDRE PELEGI

Matéria publicada na edição de hoje (dia 9) do jornal Diário Catarinense destaca: o estado do sul do país é o campeão na proporção carro/habitantes, com uma média de uma média de um para cada 1,4 habitante por veículo. Para cada 1 mil catarinenses há 690 veículos circulando pelas ruas do estado, totalizando 4,7 milhões de veículos emplacados.

A reportagem calculou o ranking realizando o cruzamento de dados do Anuário da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e na estimativa populacional de 2016 do IBGE.

Pelos cálculos, o Paraná vem a seguir no ranking de habitantes por veículos, com 635 veículos para cada mil moradores (1,57 hab/veic). O estado de São Paulo vem na terceira colocação com 609 veículos para cada mil habitantes (1,64 hab/veic).

A taxa catarinense (1,4 hab/veic) está muito acima da média nacional, que é de 2,2 hab/veículos, ou 455 veículos para cada 1 mil habitantes. No Brasil, segundo os dados da CNT, a frota nacional é de 93,8 milhões, diante de uma população estimada de 206 milhões.

O jornal ouviu Cassio Taniguchi, superintendente de desenvolvimento da Região Metropolitana da Grande Florianópolis. Segundo ele, Santa Catarina tem renda per capta acima da média nacional, o que explica em parte o número tão elevado de veículos. Mas ele acredita que este não é o único fator que poderia explicar o aumento da frota. Cassio Taniguchi acredita que outra explicação poderia ser o desencanto da população com o transporte coletivo.

INVESTIR EM BRT:

Cassio Taniguchi diz que o estado de SC tenta reverter esse processo de perda de usuários do sistema de ônibus. Ele informa que o governo do estado investe em um sistema de BRT, com a expectativa de que os primeiros sejam inaugurados em 2018, em São José. O Plano de Mobilidade Urbana Sustentável da Grande Florianópolis (Plamus) prevê também um BRT na Via Expressa até 2019.

O projeto de infraestrutura do BRT em Florianópolis foi apresentado em outubro de 2016, com investimentos orçados em R$ 1,1 bilhão, segundo a Secretaria de Estado do Planejamento. O sistema seria implantado em locais como São José, Estreito e a Via Expressa. No lançamento a estimativa era de que os primeiros trechos entrariam em operação no final de 2017.

A previsão de implantação abrange 57 quilômetros de vias e faixas exclusivas para o ônibus, 36 estações e quatro terminais de integração, além de sistema de controle operacional para supervisionar a operação.

MODELO DE CIDADE:

É preciso ficar claro que o problema não é a quantidade de carros no país, mas o modelo criado nas cidades para favorecer o transporte individual. Enquanto o transporte coletivo não receber investimentos à altura de sua importância econômica e social, e as cidades não adotarem modelos que priorizem a circulação dos ônibus, o sistema de transporte coletivo continuará ineficiente, perdendo passageiros a cada ano e aumentando seus custos de operação.

O que os gestores públicos precisam entender é que não há espaço nas ruas para tantos automóveis, nem recursos (físicos e financeiros) para expandir o viário urbano.

O aumento de veículos individuais (carros e motos) circulando pelas ruas provoca lentidão geral no tráfego (ninguém chega a lugar algum), aumento dos acidentes (com pressão nos custos de saúde pública), e piora significativa do meio ambiente.

O diretor presidente do Insper, Marcos Lisboa, chegou a afirmar em artigo publicado no jornal “O Estado de SP”, em 13 de setembro de 2016, que a indústria automotiva foi sempre o “setor mais protegido da economia brasileira”. O resultado está diante dos olhos de todos: os nefastos efeitos da opção pelo transporte motorizado individual espetaram uma conta impagável para nossas cidades.

Esta conta já foi (e continua sendo) mensurada em vários segmentos. E a cidade modelada pelo automóvel tornou-se o local do concreto e do asfalto, que aparta as pessoas, que segrega classes, que afasta bairros, que subverte as receitas públicas.

Se a maioria dos recursos públicos vai para estimular e justificar o uso do carro como transporte preferencial, sobra ao “primo pobre” da mobilidade – o transporte coletivo urbano, sobre trilhos e sobre pneus – as piores consequências.

Sem dinheiro e atenção dos gestores públicos não há transporte público coletivo de qualidade, e a continuar assim, sequer haverá transporte público em quantidade suficiente.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes