Estrada de Ferro Campos do Jordão, o novo convivendo com o antigo

Fazer funcionar o que já existe. Esta frase pode parecer o “óbvio ululante”, como diria o escritor Nelson Rodrigues, mas é raramente aplicada quando se trata de temas ligados ao serviço público

ALEXANDRE PELEGI

Fazer funcionar o que já existe.

Esta frase pode parecer o “óbvio ululante”, como diria o escritor Nelson Rodrigues, mas é raramente aplicada quando se trata de temas ligados ao serviço público. A multiplicação de obras em contraste com a despreocupação e falta de cuidado com a manutenção é o que se assiste diariamente em muitas administrações, particularmente quando se trata da infraestrutura de sistemas de transportes.

No caso do transporte coletivo esta é uma doença antiga que teima em persistir nos organismos públicos. Ao invés de recuperar e melhorar o já existente, muitos administradores optam por zerar tudo, sob o argumento falacioso da modernização.

Neste sentido a Estrada de Ferro Campos do Jordão – EFCJ, sob a direção de Ayrton Camargo e Silva, vem demonstrando que recuperar e melhorar são duas atitudes que se complementam, e fazem bem não só para os cofres públicos, como para o enfrentamento de outro grave defeito brasileiro, a preservação da memória e do patrimônio cultural.

A ferrovia está na memória afetiva do brasileiro mais idoso, ao mesmo tempo em que é símbolo do abandono do transporte coletivo sobre trilhos no Brasil. A morte agônica dos trens com o investimento pesado em estradas, relegou ferrovias centenárias ao abandono, constituindo-se num dos crimes mais graves cometidos por seguidos governos no país.

Em São Paulo, a EFCJ vem dando o exemplo de que é possível preservar e melhorar o patrimônio existente, como também é possível modernizar justamente onde é essencial, nos recursos humanos.

Ayrton, que está à frente da ferrovia desde (julho/2012), iniciou sua gestão centrado em três eixos básicos: a recuperação funcional, a recuperação do patrimônio existente na ferrovia e, na sequência, a inovação, palavra que muitos confundem com “modernização”, um ato que a mais das vezes despreza não só a cultura funcional existente, como o patrimônio físico herdado.

A recuperação administrativa e gerencial, aliada à renovação da infraestrutura física das instalações, destacando-se aí investimentos na via permanente, em estações e oficinas, além de instalações e no material rodante, tem marcado a gestão da EFCJ.

Recuperação Funcional

Investindo no funcionário da ferrovia, elemento fundamental para que um serviço público atenda com eficiência e atenção ao passageiro dos trens, a EFCJ preocupou-se em garantir não apenas a formação de um organograma, atrelado a um plano de cargos e salários, como realizou um concurso público pelo qual recrutou 92 novos funcionários, eliminando lacunas importantes nos quadros da ferrovia. A novidade foi a criação do cargo de analista, algo inexistente na estrutura organizacional da EFCJ.

Outra ação importante se deu através de uma lei específica para a ferrovia, que criou a remuneração variável – um incremento salarial a cada trimestre, com foco na inovação.

A instituição do PIP – Prêmio de Incentivo à Produtividade objetivou aos servidores ferroviários o aprimoramento da produção e da qualidade dos serviços prestados aos usuários da ferrovia.

Recuperação

Na linha de funcionar o já existente, o diretor Ayrton Camargo estabeleceu quatro focos para sua administração: a via permanente; a frota de trens; as instalações prediais e o sistema de alimentação.

Cabe lembrar que estamos falando de uma ferrovia centenária (102 anos de existência), onde a recuperação não só é necessária, como fundamental sob o ângulo histórico da preservação da memória.

Inovação

O velho pode conviver com o novo. Ayrton mostrou mais que isso: velho e novo fazem parte de uma mesma unidade, que mantém viva não só a memória da ferrovia, como sua operação, que atende com eficiência e conforto o usuário da região de Campos do Jordão e Pindamonhangaba, importante polo turístico. Agregar o turismo e o lazer ao fator histórico talvez seja um dos grandes segredos do sucesso de sua administração.

Buscando sincronizar a comunicação de uma ferrovia centenária com os novos tempos e as novas ferramentas de informação ao usuário, a EFCJ investiu na criação e modernização de seu site, disponível em três idiomas – português, inglês e espanhol. Informatizou a venda de passagens. Reabriu a antiga estação de Abernéssia (atendida pelo Bonde Turístico Urbano). Instalou uma bilheteria no Portal de Campos do Jordão, o que facilitou a vida dos turistas. Iluminou o teleférico, ponto turístico referência na cidade.

Com o apoio da Secretaria dos Transportes Metropolitanos, com investimentos de R$ 9,4 milhões, modernizou o Trem de Subúrbio, responsável pelo transporte regular de passageiros entre o centro de Pindamonhangaba e a zona rural da cidade. No trecho, foram construídas sete novas paradas com itens de acessibilidade essenciais, como rampas de acesso às plataformas, corrimões, sinalização direcional tátil e comunicação visual.

Ações

O trem turístico de Piracoama passou a operar sábado à tarde e domingo pela manha e à tarde, ativando o turismo em Pindamonhangaba

Foi criada uma bilheteria no Portal da cidade de Campos do Jordão, aliviando a bilheteria do Capivari.

Voltou a operar o Bonde que seguia até São Cristóvao, última parada da EFCJ atendida pelos bondes e pelo trem de subúrbios da cidade de Campos de Jordão. Hoje ele segue até o Parque Ecológico Tarundu, estimulando o turismo regional.

Preservação do patrimônio

Um item à parte da administração da EFCJ está voltado à recuperação e preservação da memória da ferrovia. Uma das ações perseguidas foi a higienização e organização dos documentos da centenária ferrovia, além da catalogação dos bens móveis com interesse histórico, cerca de 600 peças.

No ano de seu centenário a EFCJ lançou o livro “Da saúde ao turismo, um século de sonhos e paixões”, obra que retrata toda a história da ferrovia, nascida através do sonho de dois médicos sanitaristas, Emílio Ribas e Victor Godinho. Os médicos idealizaram uma ferrovia capaz de oferecer transporte mais rápido e eficiente para que seus pacientes de tuberculose chegassem até Campos do Jordão.

Dois museus foram criados: um que retrata o centenário da ferrovia, em Pindamonhangaba, e outro em Campos do Jordão.

Resultados

Apesar de todas estas mudanças, uma dúvida sempre persiste: os resultados da ferrovia confirmam o acerto dessa forma de atuação e gestão?

A resposta é sim. E pode ser comprovada por dois indicadores, além da satisfação crescente do usuário da Estrada de Ferro: a EFCJ bateu recorde de demanda (transporta mais passageiros que antes) e com recorde de receita.

A quantidade de passageiros atendidos em 2016 foi a maior desde 2001, atingindo a marca de 537.670 usuários. A arrecadação também bateu recorde, e foi a maior desde 2012: R$ 8.195 milhões.

Para efeito de comparação:

2001 – 237.715 passageiros

2004 – 187.429 passageiros (o menor numero entre 2001 e 2006)

2015 – 499.303 passageiros

2016 – 537.670 passageiros

Alexandre Pelegijornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    BOAS NOVAS !

    “Pela obra se conhece o autor”

    Parabéns ao Sr. Ayrton Camargo e Silva e a todos os servidores da EFCJ.

    Não precisa falar mais nada, os resultados e o texto, falam por si só.

    Bela matéria Ádamo, parabéns.

    Sr. Ayrton, vem pra Sampa , o Aerotrem precisa da sua competência, garra e boa vontade.

    Att,

    Paulo Gil

  2. jair disse:

    Parabéns Adamo e equipe
    No meio de tanta bandalheira e desorganização temos agora a oportunidade de ver realizado o sonho de alguem que sempre defendeu nosso patrimonio e nossa historia. Conheço e admiro o Ayrton pela sua coragem e determinação.
    Se temos um trolebus ACF Brill em condições de uso e que esta sempre nas exposições devemos a ele e sua determinação, pois, foi devido sua coragem que ele foi ao prefeito Janio Quadros sugerindo a reforma dos veículos eletricos que estavam em estado de abandono e para avaliar a proposta do Ayrton o prefeito mandou ao seu secretário de transportes Antonio João Pereira que pegasse o pior veículo e o reformasse para avaliar custos, pois, os beneficios já eram sabidos.
    Assim, reviveu o trolebus ACF Brill de numero original 3134
    Outra façanha do Ayrton foi quando os bondes de Santa Teresa no Rio de Janeiro estavam condenados a Morte nos anos 90. Chegaram a parar por falta de manutenção. Reuniu-se com a comunidade, com o secretário Baraldi e no auditório da SMTC do RJ chegou-se a um acordo com a Rede Ferroviária Federal que reformou os bondes e a SMTC efetuou a manutenção das viaturas da REDE.
    Ele merece os nossos parabéns. Precisamos de mais homens com essa determinação e coragem.

  3. Rodinei Campos da Silveira disse:

    O transporte ferroviário de longo percurso para passageiros não pode morrer!
    E é desse modo que o Ayrton Cardoso está fazendo para preservar o transporte de passageiros na EFCJ.
    Quem sabe, ele possa fazer algo para reativar as rotas de longo percurso dos trens de passageiros no estado de São Paulo e no restante do Brasil, duplicando e eletrificando as linhas.

  4. Rodinei Campos da Silveira disse:

    Retificando: Ayrton Camargo.

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