ARTIGO: Pacto de Medellin: não … nada a ver com narcotráfico, o objeto é o TeleTrabalho na Região do Valle de Aburrá

Trem metropolitano no Valle de Aburrá. Foto: César Augusto Serna

OLIMPIO ALVARES

O Governo da Área Metropolitana de Medellin realizou ao final de março de 2017 um workshop internacional, que reuniu especialistas de diversos países, com o objetivo de identificar medidas emergenciais para controlar a forte contaminação atmosférica no Valle de Aburrá. A região carece de ações urgentes para reduzir a poluição, que atinge sistematicamente níveis inaceitáveis, muito acima das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) – algo semelhante ao que acontece em cidades muito maiores como México, Bogotá, Lima, São Paulo, Rio de Janeiro e muitas outras que também carecem de medidas urgentes de descontaminação.

Cerca de quatro milhões de habitantes vivem no Valle de Aburrrá – uma grande conurbação urbana de dez municípios, cujo centro é a estonteante capital do Departamento de Antioquia, Medellin, situada numa profunda cavidade geográfica, cercada de montanhas íngremes, de cerca de seis km de largura por trinta de comprimento: um caldeirão venenoso que está provocando anualmente milhares de mortes e doenças cardiorrespiratórias causadas especialmente pelas altas concentrações de material particulado ultrafino cancerígeno, dióxido de nitrogênio e ozônio, emitidos predominanteme nte pelos escapamentos de veículos equipados com motores convencionais a explosão. Trata-se de um ambiente muito familiar para nós.

O Secretário Executivo da Comissão de Meio Ambiente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), especialista em transporte sustentável e emissões veiculares (este que vos fala), que também é Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Sociedade Brasileira de TeleTrabalho e Teleatividades (SOBRATT), representou o Brasil no Seminário organizado pelo Governo da Área Metropolitana de Medellin e pelo Clean Air Institute. Levamos um conjunto de recomendações de ações emergenciais – algumas extremamente simples – para reduzir as emissões atmosféricas no Valle de Aburr á, causadas predominantemente pelos deslocamentos motorizados.

Uma das ações essenciais que fazem parte do pacote sugerido pela representação brasileira, e que não tem relação direta com a tecnologia veicular, é a adoção de uma política pública clara e incisiva de incentivo a programas mínimos de TeleTrabalho em empresas públicas e privadas, abrangendo todas as atividades elegíveis para o trabalho remoto. Essa estratégia não é nenhuma grande novidade, os Estados Unidos, desde a década dos anos noventa, adotaram leis e regulamentos diversos para incentivo do TeleTrabalho, como medida de controle das emissões t&oacute ;xicas locais em grandes concentrações urbanas, mas também para redução do consumo desnecessário de combustíveis e das emissões de gases do efeito estufa, causadoras do aquecimento do planeta.

No Brasil, o TeleTrabalho está em franca e vertiginosa expansão entre empresas públicas e privadas. Curiosamente, a proposta feita pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo em abril de 2013 pelo então Secretário Bruno Covas, em parceria com a SOBRATT, foi utilizada como a inspiração maior para ajudar a resolver os problemas graves de contaminação atmosférica da Área Metropolitana de Medellin. Entretanto, aqui no Estado de São Paulo, a proposta do atual Vice-Prefeito foi inexplicavelmente desprezada pelas autoridades estaduais do meio ambiente, de certo, apegadas ao moderno relógio de ponto biométrico, em que pese sua notável confiança em seus competentes colaboradores – “Casa de ferreiro, espeto de pau!”. Cabe agora ao Vice de Dória, Bruno Covas, fazer valer no âmbito municipal sua brilhante e avançada recomendação de política pública eminentemente sustentável.

Mas, cerca de um mês antes do Seminário em Medellin, outro evento com propósito exatamente igual organizado pelo International Transport Forum, International Council on Clean Transportation e Banco Mundial, foi realizado na Cidade do México; o evento mexicano também contou com a participação deste especialista brasileiro. Ao final das discussões, o TeleTrabalho constou, em destaque, do conjunto de medidas prioritárias recomendadas para a redução da contaminação atmosférica na região do Vale do México, literalmente devastada pelos altos índices de contaminação.&n bsp;

Da mesma forma, uma das principais medidas também identificadas na estratégia de controle emergencial de Medellin, foi a adoção em larga escala do TeleTrabalho, como forma de reduzir de modo significativo o número de deslocamentos motorizados individuais desnecessários.

Em nossa interessante estada de alguns dias em Medellin, foi possível entender – pelo entusiasmo e competência dos técnicos, políticos, autoridades e administradores públicos locais – como o Poder Público local conseguiu, em um reduzido espaço de tempo de cerca de vinte anos, transformar uma região assolada pelo crime, narcotráfico e desemprego, em uma metrópole próspera, pacífica, com pleno emprego e um povo alegre, amistoso e orgulhoso de si e de seus governantes. A quase inacreditável comoção e homenagem que a população de Medellin fez na tragédia aérea do ti me do Chapecoense, mostrou claramente a força anímica desse povo.

Para nossa total surpresa, nem dois meses se passaram, e 352 organizações da Área Metropolitana de Medellin assinaram um Pacto com o Governo Metropolitano para implementar o TeleTrabalho no Valle de Aburrá – uma atitude ágil e acertada de dar inveja aos envenenados paulistas que habitam nas áreas metropolitanas. A meta do Pacto é a participação de 500 empresas nesse esforço da sociedade local para melhorar a qualidade de vida na região – um esforço que será plenamente recompensado com múltiplos benefícios para empregados, empregadores e o meio ambiente local e global.

A notícia sobre o Pacto de Medellin do TeleTrabalho está no enlace abaixo:

https://noticiasenredweb.wordpress.com/2017/04/27/el-area-metropolitana-del-valle-de-aburra-sello-su-compromiso-con-el-teletrabajo-en-firma-de-pacto-con-el-mi nisterio-tic/

Olimpio Alvares é Diretor da L’Avis Eco-Service, especialista em transporte sustentável, inspeção técnica e emissões veiculares; concebeu o Projeto do Transporte Sustentável do Estado de São Paulo, o Programa de Inspeção Veicular e o Programa Nacional de Controle de Ruído de Veículos; fundador e Secretário Executivo da Comissão de Meio Ambiente da Associação Nacional de Transportes Públicos – ANTP; Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades – SOBRATT; consultor do Banco Mundial, da Comissão Andina de Fomento – CAF e do Sindicato dos Transportadores de Passageiros do Estado de São Paulo – SPUrbanuss; é membro titular do Comitê de Mudança do Clioma da Prefeitura de São Paulo; colaborador do Instituto Saúde e Sustentabilidade, Instituto Mobilize, Clean Air Institute, World Resources Institute – WRI-Cidades, Climate and Clean Air Coalition – CCAC, do International Council on Clean Transportation – ICCT e do Ministério Público Federal; é ex-gerente da área de controle de emissões veiculares da Cetesb, onde atuou por 26 anos; faz parte da coordenação da Semana da Virada da Mobilidade.