Caio explica como “nasce” um ônibus em workshop na fábrica

Grupo foi de ônibus da Viação Cometa que relembra pintura tradicional da empresa.

Evento do Grupo Bus Press, com apoio do Diário do Transporte, reuniu admiradores, profissionais e imprensa especializada, na planta em Botucatu, no interior de São Paulo. Empresa acredita em melhorias nas condições de mercado para este ano.

ADAMO BAZANI

Hoje 80% das pessoas que utilizam transporte coletivo diariamente em todo país se deslocam de ônibus. A estimativa é da NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos.

Já um levantamento da CNI – Confederação Nacional da Indústria, de 2015, mostra que um quarto dos brasileiros (25%) vai de ônibus para o trabalho ou para a escola. Os que fazem o percurso a pé somam 22%. Já o carro é o meio de locomoção adotado por 19% da população, seguido pelo uso de motocicletas (10%) e de ônibus ou van fretados (9%). Apenas 7% dos brasileiros se deslocam, no dia a dia, de bicicleta.

Apesar de haver a necessidade da expansão metroferroviária nas cidades de grande porte e até mesmo nos médios municípios de regiões metropolitanas, o ônibus continuará sendo o principal meio de transporte do país no futuro.

No entanto, esses milhões de brasileiros que utilizam o transporte por ônibus todos os dias, principalmente nas linhas urbanas, suburbanas e metropolitanas, não fazem ideia de como é complexo desenvolver esse tipo de veículo para as mais diferentes realidades das cidades brasileiras.

Enquanto alguns municípios praticamente não contam com nenhum tipo de pavimento, com vias de terra difíceis de serem percorridas, em outras cidades, já são elaborados sistemas de corredores de ônibus.

Enquanto algumas regiões do país têm baixa temperatura, até com geadas, em outras, o tempo é quente quase todo o ano.

Isso sem contar com as diferentes legislações que alteram as características dos ônibus. Algumas exigências dos municípios são necessárias diante das condições de tráfego e de operação em geral. Já outras esbarram num certo preciosismo e palanque de administradores públicos.

De toda forma, por essas características, a produção de ônibus no Brasil deve ser bastante flexível e todos estes fatores são levados em conta no processo de desenvolvimento e elaboração dos produtos.

Nesta sexta-feira, 12 de maio de 2017, a fabricante de carrocerias de ônibus Caio, em Botucatu, no interior de São Paulo, realizou 1º Workshop Caio Induscar para admiradores de ônibus, profissionais do setor e imprensa especializada.

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Grupo em visita à Caio, em Botucatu, para Workshop.

O evento foi organizado pelo Grupo Bus Press, Revista in Bus, com a coordenação de Hélio Luiz de Oliveira, e apoio do Diário do Transporte

Um dos objetivos foi aproximar a comunidade desta realidade do mercado.

Para isso, foi realizada uma visita à linha de produção, e profissionais da empresa explicaram como “nasce um ônibus”.

Diferentemente do que muitos possam imaginar, a concepção de um modelo de ônibus pela Caio não tem origem na mesa dos projetistas.

Tudo começa, segundo a empresa, por uma minuciosa análise do setor de marketing.

São levados em considerações aspectos de mercado como históricos de modelos de ônibus; momento econômico; licitações; vendas que ocorrem em diferentes sistemas; as características das diferentes regiões do país; verificação de tendências visuais; legislações de trânsito, acessibilidade e transporte; onde estão os maiores investimentos e carências e também os produtos e situação de concorrentes.

Ainda de acordo com a empresa, um modelo fica constantemente em desenvolvimento, mesmo já aprovado e em comercialização. Isso porque, para as próximas gerações de ônibus são pensadas modificações para aperfeiçoar a qualidade do produto e o atendimento às necessidades. Por isso que a Caio diz fazer o aftermarketing, que consiste em contatos telefônicos com gerentes de garagens, depois de dois meses de aquisição dos veículos, para saber se houve algum problema ou se os ônibus atendem plenamente às necessidades econômicas e operacionais. Reuniões com representantes de vendas também são realizadas periodicamente. Os vendedores de ônibus são o elo entre indústria e frotista. Estes profissionais levam as inovações dos veículos aos operadores de transportes, mas também trazem as realidades das ruas e avenidas para a fábrica.

Uma vez determinadas as necessidades de um novo ônibus ou atualização do que já está em produção, a próxima fase é a do design.

Muitos também pensam que o design é só a aparência do modelo do ônibus, mas é nessa fase que já são elaboradas as soluções funcionais também. O setor de design conta com engenheiros, designers, prototipistas e modeladores, e se divide em Shape Design, que trata das linhas internas e externas; Color e Trim, responsável pelos revestimentos; e apoio à linha de produção interface de novos produtos.

Uma das características explicadas no evento, é que todo desenho começa na prancheta, à mão mesmo, só depois o modelo é submetido a projeções de computador. Isso porque, o desenho à mão reflete as características emocionais e gestuais do profissional de design que captou as necessidades identificadas pelo marketing.

Os veículos também devem equilibrar inovação com o conservadorismo, tradicional do mercado de ônibus, com muitos empresários resistentes ainda às mudanças, e também com as necessidades econômicas e de engenharia. Além disso, é necessário manter uma identidade da marca. Muitos modelos de ônibus urbanos da Caio possuem linhas semelhantes em diversas gerações, seguindo justamente esta identidade.

Uma vez determinados todos os elementos de design, o próximo passo é o veículo passar pela engenharia, que se divide basicamente em engenharia de desenvolvimento, no caso de ônibus novos, e de adaptação, para veículos já em linha de produção, mas que precisam receber alterações por exigências dos poderes concedentes dos sistemas de transportes, dos operadores de ônibus ou mesmo pelo retorno que os passageiros dão aos donos das viações.

A engenharia tem os setores de mecânica, pneumática, elétrica e acabamento.

Uma vez definido o produto com o design (muitas vezes são necessárias discussões entre os profissionais das duas áreas) são feitas as adaptações e é desenvolvido o protótipo de gaiola ou casulo.  A gaiola ou casulo trata-se, de uma maneira simplificada, do ônibus com as estruturas da carroceria, mas sem o chapeamento e revestimento.

A linha de montagem é dividida em diversos seguimentos: primeiro o chassi, que vem da montadora, é preparado para receber a carroceria. Logo em seguida, este chassis segue por trilhos e em cada um dos setores da linha, a carroceria vai “surgindo”, a começar pelas estruturas.

Uma vez a gaiola montada, o ônibus começa a receber as chapas laterais e no teto. Estas chapas não são soldadas ou rebitadas, mas coladas com alta pressão. Depois, os ônibus seguem para o recebimento do fundo e pintura.

As próximas fases consistem na colocação das borrachas para janelas e todos os revestimentos necessários. A parte interna do veículo também começa a ser configurada, recebendo os forros no teto e nas laterais.

A fase do acabamento consiste na implantação dos faróis, lanternas, letreiros e itinerários, bancos, catracas e tudo que for pedido pelo cliente. Toda a parte elétrica já está integrada neste momento.

Os ônibus também são submetidos a testes, como infiltração.

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Modelo Solar, para fretamento e linhas rodoviárias de curta distância, no pátio da empresa.

Este modelo de produção ocorre na planta de Botucatu, no interior de São Paulo, a principal da Caio. Já na planta de Barra Bonita, toda estrutura da carroceria é montada primeiro e depois é afixada no chassi.

MERCADO:

Como as demais fabricantes de ônibus em todo país, a Caio sente a crise econômica e as dificuldades de crédito e financiamento que os empresários de ônibus encontram, o que impede renovações de frotas mais significativas.

Isso ocorre mesmo com a Caio pertencendo a um grande grupo de transportadores que atua na capital paulista e detém 52% de todo o sistema estrutural da maior frota de ônibus da América Latina, a da cidade de São Paulo. Tratam-se das famílias Ruas, Abreu e Cunha.

Na capital paulista, a expectativa é em relação ao lançamento do edital de licitação, prometido pelo secretário municipal de transportes, Sérgio Avelleda, para esse mês.

A licitação deveria ter ocorrido em 2013, quando a prefeitura recuou diante das manifestações populares contra os valores das tarifas e qualidade nos serviços.

Apesar de as empresas ainda continuarem renovando e haver no mercado uma certeza de que a estrutura empresarial que opera os ônibus em São Paulo não deve mudar significativamente, contando também com o subsistema local composto pelas cooperativas, o ritmo de renovação de frota foi reduzido diante dessa expectativa da licitação.

Sem citar números e projeções, a Caio afirmou que está otimista para o ano de 2017 e acredita em melhoria no cenário do segmento de ônibus, no entanto, sem acreditar que os níveis anteriores à crise registrados em 2012/2013 possam se repetir tão logo.

Quando o grupo de operadores de transportes assumiu a produção da Caio em 2001, pela Induscar, a empresa tinha 515 funcionários e respondia por 24% do mercado de ônibus, predominantemente modelos urbanos.

Em 2009, o grupo concluiu a compra das instalações e da marca Caio, que já era muito forte no mercado, sendo fundada em 1946 por José Massa.

Desde que foi assumida pelos transportadores em 2001, a Caio registrou crescimento, que foi interrompido em razão da crise econômica, que teve início em 2013. Mesmo assim, em 2015, inaugurou a planta Fabril em Barra Bonita, também no interior de São Paulo.

Em 2016, a Caio tinha 3.456 funcionários e respondia por 42% do mercado de ônibus, quase o dobro do que quando os transportadores assumiram as operações em 2001.

No entanto, os números já foram melhores. Em 2014, a Caio chegou a ter 5113 funcionários –  houve a necessidade demissões por causa da crise econômica.

PASSEIO AGRADÁVEL:

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Micro-ônibus Caio Carolina, que se tornou Papa Móvel, quando João Paulo II, visitou o Brasil em 1980. Veículo está exposto na fábrica

Além de ter sido uma oportunidade de saber os indicadores sobre as expectativas de mercado e conhecer a produção de ônibus, o workshop também foi uma ocasião de confraternização: profissionais da área de transporte, em especial vendedores de ônibus com 61 anos, 53 anos 38 anos e 33 anos de experiência, contaram diversas histórias sobre a evolução dos produtos, das cidades, do comportamento dos empresários de ônibus e da mobilidade urbana como um todo.

Foi possível saber de marcas e modelos que hoje não existem mais, ter uma noção de como se desenvolveram as cidades e a convicção da importância do ônibus para o desenvolvimento das cidades. O ônibus foi o modal mais flexível para atender o rápido e desordenado crescimento das cidades brasileiras. Entre os anos de 1950 e 1960, bairros cresciam quase da noite para o dia. Não havia tempo de montar uma estrutura ferroviária, mas os ônibus estavam lá, cortando vias de terra, superando atoleiros, e respondendo às necessidades de deslocamento de uma população que mudava de paradigmas.

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O evento teve também o apoio da Opção Turismo e da Viação Cometa, que cedeu um ônibus Neobus New Road, com a pintura histórica da empresa.

O organizador Hélio Luiz de Oliveira destacou a importância de encontros como este para unir os diferentes agentes que tratam de transportes: empresários de ônibus, vendedores, produtores, imprensa e admiradores.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes