OPINIÃO: Multar ou estimular? As duas coisas!

O que pode ser feito para mudar o comportamento de motoristas que infringem as mais comezinhas regras do trânsito?

ALEXANDRE PELEGI

Duas ações municipais elogiáveis foram divulgadas em abril, uma em Porto Alegre e outra em São Paulo. A primeira, utilizando-se de um aplicativo que torna qualquer cidadão da capital gaúcha um virtual agente de trânsito, permite flagrar em vídeo as infrações dos motoristas, mas apenas com o fito de conscientizar o infrator.  O aplicativo (Capester) já existe em 11 cidades do mundo, como Israel, Colômbia e Polônia. A outra ação, ainda em construção na cidade de São Paulo, vai por caminho diverso: quer premiar aqueles motoristas que ao final de 12 meses não tenham recebido nenhuma autuação sequer.

Apesar de atuar em campos diferentes, as duas ações pretendem mirar o mesmo alvo: reduzir o desrespeito ao trânsito e, como natural consequência, reduzir as ainda altas ocorrências, que têm vitimado milhares de pessoas no país.  Dados da OMS de maio de 2016 apontavam que o Brasil ostentava uma vergonhosa taxa de 23,4 mortes no trânsito para cada 100 mil habitantes, o quarto pior desempenho do continente americano atrás de Belize, República Dominicana e Venezuela. A OMS afirmava à época que os acidentes automobilísticos representavam a nona maior causa de morte no mundo para a faixa etária entre 15 e 69 anos.

Numa conta arredondada pode-se dizer que o trânsito no Brasil mata uma média de 120 pessoas por dia, número que denota um estado de calamidade pública. Apesar da tragédia, a sensação que se tem é que os mortos e feridos no trânsito tornaram-se tão comuns que já não conseguem impactar a sociedade, nem reclamar ações urgentes, contínuas e assertivas dos órgãos públicos.

Ações como a de Porto Alegre, onde o infrator vai ser constrangido ao receber em casa uma “multa moral” por uma infração que cometeu longe dos olhos oficiais, e a de São Paulo, que aposta em prêmios para estimular uma direção responsável, são atitudes importantes, além de louváveis. Ao mesmo tempo, ambas reclamam, dentro de suas especificidades, não só da sociedade, como de todas as instâncias de poder, ações profundas e complementares.

As experiências de países em que a redução da letalidade no trânsito foi bem sucedida ensinam que não há mágica, nem milagres. Além de envolverem todos os organismos públicos e atores sociais, as ações foram constantes e demandaram anos para obter resultados significativos, independente de partidos e governantes. Elas nos ensinam que a tarefa de reduzir as ocorrências no trânsito só será um sucesso se nascer de um compromisso com a sociedade, jamais podendo ser vista como ação de um único governante ou governo.

Reduzir os mortos e feridos no trânsito é ação que demonstra não apenas civilidade, como produz bons resultados ambientais e econômicos. Isso todos já sabemos. O que ainda não aprendemos é como reunir governo e sociedade em prol de uma ação que só fará bem às nossas cidades.

No caso brasileiro muitas iniciativas de combate à violência no trânsito têm se pautado pelo imediatismo, ora por ações que não envolvem a sociedade, ao mesmo tempo responsável e vítima da tragédia diária, ora por serem paliativas, preocupando-se com apenas uma faceta do problema. Não é o caso das iniciativas de Porto Alegre e São Paulo, que partem de uma necessária colaboração dos cidadãos, em busca de projetos mais amplos.

Enquanto não avançamos, diferentes organismos internacionais ensinam: é preciso repelir a convicção de que os mortos ou feridos no trânsito são apenas parte do efeito colateral do progresso, onde o carro é o símbolo maior da modernidade e do avanço econômico.

O Programa Visão Zero,um conceito de segurança viária originado na Suécia, tem alcançado sucessos importantes em várias cidades do mundo. Mas o curioso é que não há uma receita pronta sobre quais ações tomar. O que se vê é que a essência está justamente na maneira de encarar o problema da violência nas ruas, focada num conceito claro de segurança viária, em avaliações sistemáticas à luz de resultados mensuráveis e sérios e no compromisso transparente com a sociedade.

No Brasil falta “pensar grande”, olhando também para aquilo que ainda não temos: uma boa malha de transportes públicos. Investir em transportes coletivos, seja por trilhos ou sobre pneus, é parte essencial da luta pela redução das mortes e ocorrências no trânsito. Menos carros nas ruas, trafegando em baixas velocidades, indicam calçadas mais largas, ruas mais seguras, pedestres e ciclistas mais protegidos. Significa cidades mais amigáveis e, portanto, menos hostis.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Informe Publicitário
Assine

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

     
Comentários

Comentários

  1. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    E so parar de colocar tachinho novinho rm ciclo faixa recem feita e recem reformada e colocar tachao na faixa do huzao.

    Quero ver se vao incadir.

    Eeeeeeeee Bradil da preguica.

    Att,

    Paulo Gil

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Diário do Transporte

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading