Após cinco anos e R$ 10 milhões, ônibus a hidrogênio do Rio está apto a operar comercialmente

Custo por quilômetro foi de US$ 2,61, diz universidade

Veículo é híbrido e utiliza energia elétrica a partir da geração pelo hidrogênio. Outra proposta quer eletrificar o transporte escolar

ADAMO BAZANI

A Coppe/UFRJ, que é a faculdade de engenharia e tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, informou nesta semana que o ônibus híbrido elétrico-hidrogênio, desenvolvido por meio de uma parceria entre instituição de ensino, Furnas e Tracel já está pronto para operar comercialmente, do ponto de vista técnico.

De acordo com os resultados apresentados na última quarta-feira, 5 de abril de 2017, no Rio de Janeiro, a autonomia do veículo é de 330 km e a disponibilidade para tráfego foi de mais de 90%. Nos 10% restantes, o veículo precisou de reparos ou manutenções preventivas. Este tempo não conta o período em que o ônibus ficou parado para desenvolvimentos e atualizações. Foram três fases até agora

Ainda de acordo com os resultados apresentados, o consumo foi de 6,7 kg de hidrogênio a cada 100 km, com o ar condicionado ligado.

Os testes começaram em 2012, por meio do programa de Pesquisa & Desenvolvimento da Aneel – Agência Nacional de Energia Elétrica.

Foram percorridos em torno de 8 mil  km e mais de 30 mil pessoas foram transportadas. O ônibus transportou estudantes no Campus, mas também fez trajetos especiais como o deslocamento de atletas para Vila Olímpica, nas Olimpíadas de 2016 do Rio.

Os custos foram de R$ 10 milhões, até o momento.

Ainda de acordo com a universidade, o custo total por quilômetro percorrido foi de US$ 2,61, contando com a manutenção, equipamento e consumo.

O veículo possui carroceria Urbanuss Pluss, da Busscar.

Se o ônibus está apto do ponto de vista técnico, ainda há muito oque fazer para que o Brasil tenha uma frota operacional de fato de ônibus movidos a partir do hidrogênio.

A universidade diz que as inovações tecnológicas ainda precisam ser consolidadas e mais testes de longa duração devem ser realizados. Outro aspecto apontado como necessário é a criação de capacidade tecnológica do parque fabril brasileiro.

O projeto ainda abrange um ônibus híbrido movido a etanol e eletricidade e também uma unidade totalmente elétrica, funcionando apenas com bateria.

No caso do ônibus totalmente elétrico, a fase de testes deve terminar neste ano. O veículo foi planejado para o transporte escolar e vai ser mostrado para o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação para conseguir financiamentos a fim de entrar em escala.

O objetivo é no futuro, ao menos nas áreas urbanas, eletrificar o transporte escolar.

EM SÃO PAULO:

Na região metropolitana de São Paulo, existem quatro ônibus híbridos elétricos/hidrogênio, mas nenhum deles está em operação.

Com portas lacradas por fitas, os ônibus estão no pátio da concessionária Metra, operadora do corredor ABD, que não é responsável pelo projeto.

O projeto teve custo total de mais de US$ 16 milhões, como aponta o próprio site da agência do Governo Federal que financia pesquisa e inovação, a Finep, sendo na época US$ 12,3 milhões do Global Environment Facility (GEF), aplicados por meio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), e R$ 8,4 milhões da Finep.

O primeiro veículo foi apresentado à população no dia 1º de julho de 2009. Na época, o governador de São Paulo era José Serra e a promessa era de que até 2011 a rotina dos transportes seria marcada por esses ônibus que em vez de soltarem fumaça, emitem vapor d’água durante a operação.

O ônibus quase nem rodou em testes no Corredor Metropolitano ABD, que liga São Mateus, na zona leste da capital paulista, ao Jabaquara na zona sul, por municípios do ABC. A capacidade de passageiros era pequena, 63 pessoas entre sentadas e em pé. A lotação limitada se dava porque os tanques e todo equipamento para células de hidrogênio ficavam na parte de trás, roubando espaço interno. Mas os problemas não foram apenas estes: baixo desempenho e  custos tornavam o projeto, desafiador, no mínimo.

Apesar de a apresentação do primeiro veículo ter ocorrido em 2009, o chamado “Projeto Ônibus Brasileiro a Hidrogênio” teve origem em 16 de janeiro de 2002, quando foi publicada a manifestação de interesse para avaliação do mercado e tentativa de formação de Consórcios para desenvolvimento e fabricação dos veículos.

O projeto continuou até que em 15 de junho de 2015, às 10h, e, no mínimo quatro anos de atraso, o governador Geraldo Alckmin participava do lançamento de três novos modelos, também com carroceria Marcopolo e chassi do Grupo Tutto já sob nova direção.

Os veículos ficaram mais modernos. Não havia mais o problema de espaço interno reduzido, já que os equipamentos e os tanques de hidrogênio ficaram na parte superior do ônibus.

Nasceu assim a expectativa de o projeto deslanchar e, finalmente, os passageiros andarem nos veículos. Uma nova estação de abastecimento também foi apresentada dentro da garagem.

Apesar de os quatro ônibus estarem parados, a EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos considera o projeto um sucesso pela inovação e ganhos de conhecimento e cogita a continuidade dos estudos.

A EMTU diz que o projeto tinha vigência até 31 de março de 2016 e confirmou a intenção de estabelecer novas fases. Mesmo com os veículos hoje não transportando passageiros, a gerenciadora considerou o projeto um sucesso já que trouxe conhecimento técnico e desenvolvimento à indústria nacional e informou que o plano de expansão da frota de veículos movidos a hidrogênio depende da implantação de uma rede nacional de fornecedores de peças e componentes e também de mecanismos de incentivos governamentais para que as empresas operadoras do transporte público possam se interessar pelo programa.

A incorporação da tecnologia de produção de hidrogênio a partir da reforma de gás natural está na mira da gerenciadora, mas ainda sem data. Essa proposta é composta pelo desenvolvimento de uma planta de produção de hidrogênio, a partir da reforma de gás natural, para utilização em veículos de transporte público de passageiros da EMTU/SP

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes