HISTÓRIA: “Dormi no ponto enquanto sonhava dirigir o ônibus”

O posto de trabalho do motorista ... o sonho de muitos garotos

No Conte Sua História de São Paulo, de Milton Jung, relato mostra como a profissão de motorista de ônibus chamava atenção dos garotos da cidade

 

Jogador de futebol, advogado, médico, bombeiro …  são os profissionais que a maior parte dos garotos citarão quando perguntados: “O que você quer ser quando crescer?”

Mas estas profissões não são exclusivas dos sonhos da garotada. Muitos, quando meninos, já tiveram a paixão pelos transportes e quiseram seguir o ramo. Alguns conseguiram, outros ficaram só no sonho e seguiram outros trajetos.

Não são raros os relatos de quem se lembra de ter sentado no banquinho da frente do ônibus perto do motorista e simulado estar dirigindo o gigante coletivo, imitando os gestos do condutor: trocando a marcha, fazendo as curvas, buzinando … Principalmente numa época em que as coisas eram mais tranquilas e os motoristas de ônibus tinham uma relação mais próxima com o passageiro.

Com este editor do site foi assim também, mas longe de eu ter sido o único

O jornalista Milton Jung, um apaixonado pela cidade de São Paulo, pelas histórias da metrópole e também pela mobilidade compartilhou com o Diário Transporte, uma dessas histórias:  Jucélio Coyado Silva se lembra de uma das vezes que bancou uma de motorista, mas um dia, com cinco anos de idade, dormiu no ponto, se perdeu do pai e desceu longe de casa, mas tudo acabou dando certo e rendendo uma boa história:

No Conte Sua História de SP o texto do ouvinte-internauta Jucélio Coyado Silva:

 

Eu estava com cinco de idade, quando, em 1979, fui com meu pai a Igreja em São Miguel Paulista, zona leste da cidade.

 

Pegamos o ônibus 2059 Circular Guaianazes, na Avenida Nordestina – esse ônibus saía da estação São Miguel Paulista, passava pela Avenida Nordestina até Guaianazes e de lá pegava a estrada do Lajeado e a estrada Dom João Nery até o Itaim Paulista, e retornava a São Miguel pela Marechal Tito.

 

Minha aventura era ficar no banco da frente simulando os movimentos que o motorista fazia ao dirigir o ônibus. Naquele dia não foi diferente: entramos no ponto de partida, passei por baixo da catraca e fui cumprir meu ritual. Meu pai estava mais atrás conversando com seus amigos. Com o passar do tempo, dormi no banco da frente e, no desembarque, meu pai, distraído, desceu e me deixou lá.

 

Ele chegou em casa, trocou de roupa, colocou o pijama e foi dormir. Antes, minha mãe que cuidava de meus irmãos comentou: “estranho, o Jucélio chegou nem comeu nada e já foi dormir!” Ao entrar no meu quarto, estava vazio.

 

Foi então que a luz acendeu: “deixei ele no ônibus”, disse meu pai para desespero da mamãe.

 

Enquanto isso, só acordei quatro quilômetros depois do ponto em que deveria ter descido. Já estava no Itaim Paulista. Olhei pra trás e não encontrei meu pai. Apesar de perceber que estava perdido, não me apavorei. Deixei passar umas seis paradas e pedi para o motorista descer mais à frente. Ele quis saber onde estava meu pai e eu disse que ele havia desembarcado lá na padaria do Jardim Nazaré.

 

Diante do receio do motorista, expliquei que se ele me deixasse dois pontos pra frente eu iria para a casa da minha na rua Inhabatã, 308. Desci e fui correndo até a última casa, pulei o muro, entrei no quintal e bati na porta. Meu tio João, assustado, atendeu e gritou para a vó: “é o Jucélio da Cida!”.

 

Em época na qual telefone fixo era raridade, assim como orelhão, meu tio me pegou pela mão e foi até a estação de trem de São Miguel, onde imaginava encontrar meu pai.

 

Lá em casa, a mãe estava apavorada. O pai, mais calmo, orou a Deus e pediu proteção, antes de sair a minha procura.

 

Sem ônibus para levar-me em casa, tio João pegou um táxi. Já devia ser um ou duas da madrugada. O farol do táxi iluminou as ruas escuras do meu bairro. Nisso vi minha mãe andando de um lado para o outro, desesperada. Mais calma, coube ao tio João seguir sua busca: agora era preciso encontrar papai que estava atrás de mim em algum lugar qualquer da região.

 

Jucélio Coyado Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também outros capítulos da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br

8 comentários em HISTÓRIA: “Dormi no ponto enquanto sonhava dirigir o ônibus”

  1. Bom dia.
    Agradeço à você Ádamo e ao Milton, por compartilhar uma singela mas agradável história.
    Parece uma cena de outono.
    Abraço à vocês e à todos que aqui visitam.

  2. Amigos, bom dia.

    Adamo, obrigado por compartilhar a história do Jucélio e parabéns ao Jung pela ideia do programa.

    Eu também já “dirigi muito buzão” no banquinho do “Jesus me Chama”, o mais emocionante era quando tinha os carros “cabinados” que tinha os dois banquinhos ao lado do capô do motor.

    Quando dava para sentar no primeiro banco era o auge da “viagem imaginária”, pois o primeiro baco era muito próximo do vidro dianteiro, era pura emoção.

    Sem contar as incríveis noites que passei sonhando que estava pilotando um O 371 rodoviário, noooooooossa era incrível.

    O banquinho do “Jesus me Chama” foi privilégio de muitas gerações, mas agora estes bancos são de uso específico.

    Poxa, mas e os garotos de hoje, não poderão viver mais esta emoção.

    No banquinho não, mas em compensação a nova geração tem o prazer de “dirigir” o buzão de forma digital, com outras sensações.

    É igual ?

    Não sei, mas isto prova que tudo muda.

    Jucélio, parte da sua história eu vivi também e me lembro muito bem, mas a outra parte é exclusividade só sua; e olha que o seu pai desceu pela porta da frente.

    Realmente ele esqueceu mesmo de você, mas foi sem querer, agora eu não queria ter passado o sufoco que ele passou, creio que maior do que o seu.

    E como não poderia deixar de ser, uma história dessa, só podia ser representada pela foto de um legítimo CAIO, só que andou neles, sabe o que isso significa.

    Att,

    Paulo Gil
    “Buzão e Emoção é a Paixão”

  3. Me identifiquei com o post, desde pequeno também eu sempre adorei andar de ônibus, conhecer lugares novos, de carro não tinha a mesma emoção, eu gostava mesmo era das dimensões grandes do ônibus, o barulho do motor e sempre observei pra onde iam e de onde vinham, eu achava legal ter um itinerário pra seguir, tanto que com 10 anos eu sabia andar mais que meus pais em São Paulo. Queria ser motorista, ou pelo menos cobrador quando era adolescente, mas isso minha mãe nunca permitiu, “imagina o filho que eu criei pra ser alguém na vida, ser motorista de ônibus”, pensava ela. Hoje com 24 anos sou formado em ciência da computação e o que mas proximo que cheguei do que queria foi um similador de ônibus, comprei volante, pedais e câmbio e jogo regularmente no meu PC, mas nunca dirigi a maquina de verdade.

    • Geovani, boa tarde.

      Eu sei bem o que é isto.

      Tomei dois paus na escola, porque eu matava aula e ia ser cobrador de um micro lotação de um amigo meu e depois puxar o carro no final, muita emoção.

      Meu simulador sempre foi o banquinho do “jesus me chama”, ainda não testei o simulador digital, apesar de já ter visto alguma coisa.

      Mas não desista do seu sonho, pelo menos pague umas aulas numa auto escola e dirija um buzão, nem que seja um micro.

      Eu ainda comprarei um, só não sei se nesta encanação, pois o tempo passa.

      Procure aqui no Diário o post que fala da história do Turismo Santa Rita, tenho certeza de que você ira gostar, dê uma lida.

      A proteção dos pais, mesmo que com boas intenções, interferem nos nossos sonhos.

      Na verdade para ser alguém na vida, só precisamos de duas coisas.

      Ter saúde e ser feliz, mais nada.

      $uce$$o !

      Att,

      Paulo Gil
      “Buzão e emoção é a Paixão”

      • Obrigado Paulo, vou seguir seu conselho, pretendo tirar carta D e quem sabe (talvez numa próxima encarnação também rs) comprar um ônibus, nunca é tarde para realizar um sonho vc tem razão, vou procurar o post para dar uma lida.

        Valeu, abraço!

  4. Bom dia amigos. Como muitos este post também me trouxe lembranças da infância em São Miguel Paulista. Em 1979 na mesma época da façanha do Jucélio eu tinha 15 anos e morava na rua Abaitinga, da qual a rua Inhabatã é uma das travessas. Várias vezes peguei o 2059 quando ia para os lados de Guaianazes ou o 1178 quando ia para o centro da cidade. Algo que me chamava a atenção era quando um funcionário viajava de carona e na hora de desembarcar o motorista só reduzia a velocidade e ele pulava com o carro ainda em movimento (naquele tempo era “permitido” andar com as portas abertas). Então certa vez, quando ia fazer um trabalho de escola na Vila Nova Curuçá, inventei de fazer a mesma coisa e o resultado: me esborrachei na poeira do acostamento na Estrada do Lajeado, esfolando joelhos, palmas das mãos e o queixo. O motorista só parou o ônibus e perguntou:
    – Se machucou, meu filho?
    Me levantei sacudindo a poeira da roupa:
    – Não, senhor!
    E fui para a casa do meu colega todo ralado e com uma vergonha que não esqueci até hoje.
    Obrigado Milton Jung e Adamo Bazani por nos fazer recordar dos bons tempos da adolescência e das aventuras no transporte público em São Paulo.

  5. Muito legal essa história, eu desde pequeno também sempre gostei de ônibus, principalmente os da Brasil Luxo que eu pegava quando criança, brincava em casa tbm fazendo das tampas de panelas volante e chinelos virados os pedais, pude realizar esse sonho de ser motorista de ônibus, trabalho em uma empresa de fretamento,a realidade não é tão “fácil” como se é quando criança.
    , mas não tem coisa melhor do que trabalhar do você gosta e sempre sonhou.

  6. Eu sempre tive quando criança o sonho de ser motorista de ônibus.Quando viajava nos antigos OFs(os de hoje não dão a mesma graça),ficava imitando os movimentos do motorista,acelerar,virar,trocar marcha,e por aí vai.
    Com o tempo os modelos de que eu gosto foram sendo tirados de circulação,e até no turismo aqui na minha cidade tem sido difícil achar modelos da minha época de infância.
    Ao longo dos anos,posso dizer que realizei o sonho de ser motorista de ônibus,mas de maneira diferente.Ao invés de dirigir ônibus reais,dirigi muitos modelos na plataforma virtual,com todas as emoções a que tenho direito.Nessa toada já dirigi vários clássicos e fiz várias linhas épicas que remontam á minha cidade atual,e posso dizer com orgulho: sou motorista de ônibus sim,mas de uma forma diferente do que imaginava.

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