Brasileiro se irrita com lotação nos ônibus e ainda quer transporte individual

Publicado em: 26 de janeiro de 2017

É o que mostra monitoramento sobre mobilidade feito nas redes sociais que acompanhou em torno de 400 mil menções sobre o tema

ADAMO BAZANI

A falta de qualidade nos principais serviços de transportes públicos brasileiros ainda é o principal motivo para que a população tenha ainda como um dos grandes desejos possuir um veículo próprio.

O excesso de lotação, em especial nos ônibus, está entre os maiores problemas apontados pelos brasileiros na mobilidade urbana

É o que mostra um levantamento em redes sociais chamado ComunicaQueMuda – CQM, da Agência Nova SB, que monitorou entre os dias 5 de agosto e 5 de outubro de 2016, 397.932 menções sobre temas como ciclovias, ciclofaixas, corredores de ônibus, VLT, trânsito, velocidade máxima, multas, Uber e taxistas.

De acordo com o monitoramento, 44% dos internautas que citaram o tema mobilidade criticam o transporte coletivo e até mesmo incentivam o transporte individual.

Ainda de acordo com o levantamento, 40% das pessoas demonstraram o desejo de abandonar o transporte público e comprar um veículo próprio.

Já para 58% dos usuários em todo o País, o maior problema no transporte público é a superlotação, principalmente dos ônibus.

Confira alguns dos principais aspectos:

  1. Quase 44% dos usuários que tocaram nos temas da mobilidade nesse período rechaçam o uso do transporte coletivo e incentivam o uso do transporte individual.
  2. De cada quatro comentários sobre carros ou motos, um é de alguém que deseja comprar um veículo.
  3. Na nuvem de termos sobre transporte individual, as palavras que mais aparecem são “carro” e “quero”.
  4. Entre os temas mais falados sobre a cultura do transporte individual, estão  “acidentes” (60%), “congestionamentos” (quase 14%) e “indústria da multa” (9%).
  5. 60% das pessoas consideram a multa algo positivo e somente 21%, algo negativo.
  6. O maior problema sobre o transporte público é a lotação dos ônibus, mencionada por 58% dos usuários.
  7. A bicicleta é a queridinha das redes com 83% de sentimento positivo.
  8. Em relação à acessibilidade, o sentimento de que algo precisa mudar é positivo em 93%, mas 43% dos usuários que tratam desse tema contam alguma história negativa sobre o acesso de deficientes ao sistema público de transporte.

ÔNIBUS:

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O transporte público, de acordo com levantamento, recebeu no período de monitoramento 106.334 menções. A maior parte delas foi em relação aos ônibus, o que expressa bem a realidade dos transportes brasileiros que são predominantemente servidos pelo modal rodoviário.

A maioria das menções aos ônibus se trata de reclamações: 48,3 %.

De uma maneira geral por modais, os ônibus receberam 88,7% das menções ante 5,5% do metrô e 5,8% do trem.

O sentimento em relação aos ônibus é mais negativo do que as impressões sobre os trens e o metrô, o que segundo os pesquisadores, indica que o modal é extremamente importante, mas que precisa de investimentos e melhorias.

A paixão pelo transporte também apareceu no levantamento, com 1,9% das menções, a maior parte delas pelos “busólogos”, admiradores de ônibus.

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Na nota técnica de apresentação do estudo, os pesquisadores mostram a importância dos ônibus na mobilidade urbana, massa dizem que muita coisa precisa melhorar

O transporte público é certamente uma das principais soluções para o caos da mobilidade urbana em nosso país. No caso dos ônibus, é solução porque é um transporte mais barato e desocupa as vias em nossas cidades. Em São Paulo, um ônibus transporta em média 48 passageiros por viagem, o que equivale a 40 carros ou 48 bicicletas – se levarmos em consideração que na cidade a média é de 1,2 pessoa por carro8.

Vale destacar que:

  • 1 ônibus ocupa 50 metros quadrados.
  • 48 bicicletas ocupam 92 metros quadrados.
  • 40 carros ocupam 840 metros quadrados.

Ou seja, 40 carros ocupam 16,8 vezes mais espaço que um ônibus, além de poluir mais. Uma pessoa que opta por pegar um transporte coletivo está poluindo 9,6 vezes menos que uma pessoa que pega um carro e 16,1 vezes menos que um motociclista.

Mas, se o transporte público é tão mágico e maravilhoso, por que ele não é prioridade em nossa sociedade? Porque no Brasil há uma cultura que privilegia o transporte individual, deixando em segundo plano o transporte público. Além disso, superlotação, falta de linhas, constantes atrasos e péssima manutenção formam o cenário real do transporte público no Brasil. Não é à toa que 70% das menções referentes a transporte público são negativas, evidenciando a falta de estrutura e o descontentamento da população.

O carro tornou-se um item para se ter status social, um símbolo de conforto, poder e liberdade, enquanto o transporte público é uma solução barata e não desejada.

CULTURA DO TRANSPORTE INDIVIDUAL:

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O levantamento mostra que ainda é forte no Brasil a cultura pelo transporte individual, o que é considerado preocupante pelos estudiosos.

De acordo ainda com o monitoramento que captou 136.651 menções sobre o transporte individual, a maioria ainda pensa em ter um veículo próprio, abrindo mão dos meios coletivos de deslocamento

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Na nota de apresentação, os responsáveis pelo monitoramento demonstram preocupação pelo fato de o transporte individual ainda ser encarado como a melhor forma de deslocamento pela população

Não é difícil notar qual é o verdadeiro manda-chuva das ruas nos grandes centros urbanos no Brasil: o automóvel. Trânsito, poluição, degradação ambiental, individualização do transporte, desumanização da mobilidade urbana, custos, acidentes, etc. Esses são só alguns dos problemas causados pelo uso excessivo do transporte individual.

Não é de hoje que a cultura do transporte individual é propagada aos quatro ventos em território canarinho, quase sempre reforçada pelo estereótipo do sonho americano, pelo apelo cinematográfico e, principalmente, pela convicção das autoridades, que por muitos anos deram total prioridade aos automóveis, deixando de lado todas as opções mais sustentáveis de mobilidade urbana. Com o tempo, essas políticas fortaleceram ainda mais o estereótipo de que a posse de um transporte individual seria sinônimo de sucesso, por isso o desenfreado consumo por automóveis no Brasil – já estamos na média de um carro para cada quatro pessoas no País.

O que confirma esse cenário preocupante é que, durante o monitoramento, registramos mais de 40% das menções falando sobre o desejo de possuir um automóvel; mais 31,2% falando sobre seus carros. Números que confirmam como a individualidade do transporte é ponto pacífico não só na cabeça do brasileiro, mas também em suas redes sociais.

Os fatos só tornam todo esse cenário muito mais grave. A estimativa de Gustavo Faibischew, pneumologista do Hospital das Clínicas, é de que nada menos do que dez pessoas morrem por dia por problemas diretamente atribuíveis à poluição dos carros em São Paulo2. Ainda sobre a metrópole paulista, mais de 90% da poluição é causada pelos carros (dados da CETESB). E os problemas causados à saúde não acabam por aí: as estatísticas do Ministério da Saúde mostram que apenas em 2014 foram registradas 43.075 mortes por acidentes de trânsito no País3, três quartos da quantidade de americanos mortos na Guerra do Vietnam (58 mil).

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Comentários

  1. realmente , usar ônibus é um grande sacríficio, além da lotação, temos vários motivos que dificultam o uso: veículos impróprios, desconfortáveis, ventilação, piso, degraus, limpeza, assentos, paradas, ruas e avenidas esburacadas, quadro operativo despreparado, estressado, valor tarifa. Então isso tudo faz com que não há interesse efetivo em usá-los. Empresas em sua grande maioria não se interessa em prestar bom serviço, está ali somente como um negócio, coloco veículos nas ruas e você usa se quiser.

  2. Pedro disse:

    O comentário do Antonio Carlos esta perfeito, e podem ter certeza de que vai ficar pior, menos ônibus, intervalos maiores, superlotações, eu não consigo entender a manutenção dos micro ônibus, alem da maioria serem velhos estão desatualizados em termo de capacidade de serviço, utilizam os mesmos intervalos dos ônibus comuns, e carregam menos da metade de passageiros, e quando enchem fica impossível descer ou subir nos mesmos.

  3. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    Apos a leitura desta materia, a qual entendo ser muito oportuna, tive uma ideia e apresento como sigestao.

    Sobre carios referenciais, seja como passageiros ou nao, mu7toa expoem sua opiniao sobre o buzao de Sampa, de varias formas e ate com sugestoes.

    Mas, pelo menos que eu me lembre, nao li nenhuma materia ou comentario de um especialista em transporte, da fiscalizadora ou das empresas, sobre o b6zao de Sampa, nem a favor, nem cobtra e nem muito pelo cobtrario.

    Sugiro entao que estes pecialis5as, a fiscalizadora ou as empresas semanifestem.

    Sigiro uma linha para estudo e para avaliacao.

    Por que esta linha e assim, por que ela existe, se ela esta tecnicamente correta ou pode ser melhorada.

    Sugiro para este estudo a 477-P, Ipiranga – Rio Pequeno – Ipiranga.

    Esta e so uma sugestao pode ser 1ualquer linha em z8g zag caranguejada.

    Outras sugestoes serao bemvindas, o importante e que os entendidos do assunto e domercado, se manifestem.

    Ou sera que as manidestacoes do publico esta coreta.

    Afinal, quem cala conscente.

    Att,

    Paulo Gil

  4. Bruno Lopes disse:

    Quem sabe agora percebam que melhorar o transporte público não significa apenas andar mais rápido…

  5. Pedro disse:

    Paulo Gil, tenho certeza de que eles sabem dos problemas e tem a solução, mas a solução não interessa financeiramente, simples assim, pego ônibus a mais de 40 anos e poucas vezes vi a Sptrans ou empresas similares tomarem atitudes como mudança de itinerários ou eliminações de linhas que não visasse sempre o beneficio das empresas e nunca da população.

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