Transporte coletivo é saída para meio ambiente no ABC

Corredor ABD é considerado exemplo. Mas não há planos de expansão do modelo

É o que revela inventário de emissões do Consórcio Intermunicipal do ABC. Corredor de trólebus da Metra é considerado exemplo positivo

ADAMO BAZANI

Com 0,74 carro por habitante, a região do ABC Paulista é uma das localidades do Brasil que mais concentram veículos automotores.

O resultado disso os moradores da região, quem precisa trabalhar ou simplesmente passar por alguns dos sete municípios do ABC, sentem na pele todos os dias: congestionamentos em vias saturadas.

Mas não é apenas na pele que é possível sentir esta alta taxa de motorização

Os pulmões também sofrem.

O Consórcio Intermunicipal ABC elaborou com base em dados oficiais como do IBGE, Denatran, CETESB, entre outros, o primeiro Inventário Regional sobre Emissões de Gases de Efeito Estufa – GEE.

O estudo usa como metodologia a GPC (Protocolo Global em Escala Comunitária, na sigla em inglês), desenvolvida pelo ICLEI, pelo WRI (World Resources Institute) e pelo C40 (Climate Leadership Group), que envolve as 40 das maiores cidades do planeta mobilizadas no enfrentamento das mudanças climáticas. Esta metodologia permite a padronização de informações e indicadores para análises comparativas de inventários dos governos locais.

As fontes de emissões foram divididas da seguinte maneira:

Energia Estacionária: Edifícios comerciais e institucionais, edifícios residenciais, indústrias de manufatura e construção, indústria de energia, atividades agrícolas, florestais, de pescas, emissões fugitivas e mineração, processamento, armazenamento e transporte do carvão, emissões fugitivas de sistemas de óleos e gás natural.

Transportes: terrestre, ferroviário, hidroviário, aviação e off-road

Resíduos: resíduos sólidos, tratamentos biológicos, incineração, tratamento de efluentes líquidos.

De acordo com o inventário, que demorou oito meses para ficar pronto e utilizou dados entre 2014 e 2016, a maior parte da poluição enfrentada no ABC Paulista vem dos veículos automotores, em especial carros de passeio e caminhões.

Os transportes terrestres, de acordo com o inventário, representam 60% do total de emissões no ABC Paulista, sendo maior do que a soma dos itens energia estacionária e resíduos.

Isso significa que por ano, o setor de transportes lança na atmosfera quase seis milhões de toneladas de gás carbônico.

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Os dados mostram também que quanto maior a taxa de carros por habitantes mais grave é o efeito na atmosfera, de acordo com cada cidade do ABC.

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A coordenadora do Grupo Temático de Mudanças Climáticas do Consórcio, Vanessa Valente, conversou com o Diário do Transporte por telefone sobre os resultados do levantamento.

Segundo ela, o transporte coletivo é essencial no plano de estratégia que vai ser divulgado pelo consórcio com base nesse inventário.

“O inventário é um importante passo e inédito em nível regional, em todo o país, para mitigar as emissões de gases de efeito estufa. Pelo perfil da região, uma área altamente industrializada e de comércios, é grande o volume de transporte de carga e de pessoas. O transporte coletivo é essencial dentro das estratégias para alcançarmos metas de redução de poluentes”

Vanessa Valente também diz que é interessante que o transporte público dependa menos de combustíveis fósseis

“Do ponto de vista ambiental, é interessante reduzir ou tirar como fonte emissora o combustível fóssil. É claro que há toda uma questão de infraestrutura a ser analisada, mas combustíveis e formas de tração alternativas ao petróleo são sempre muito importantes na mobilidade”

Dentro da própria região do ABC Paulista existem exemplos de como aliar mobilidade e sustentabilidade e assim melhorar a qualidade de vida nas cidades.

Um destes exemplos é o Corredor Metropolitano ABD que, além de privilegiar o transporte coletivo no espaço urbano, incorpora veículos de emissão zero ou baixa emissão durante as operações. Da frota de 260 ônibus da concessionária Metra, 95 são de tração elétrica total como os trólebus e parcial, a exemplo dos híbridos – ônibus com dois motores, um elétrico e outro a combustão.

O corredor tem 45 km de extensão, sendo no eixo principal 33 km entre São Mateus, na zona leste de São Paulo, e Jabaquara, na zona Sul, passando pelos municípios de Santo André, Mauá (Terminal Sônia Maria), São Bernardo do Campo e Diadema e 12 km da extensão entre Diadema e a Estação Berrini da CPTM, na zona sul da capital paulista.

Apesar de o exemplo estar na própria casa, nenhum dos planos de mobilidade para região, tanto no âmbito do consórcio, como nas ações individuais de cada município, prevê de maneira clara o uso de ônibus elétricos, trólebus, híbridos, a gás natural, etanol ou de outra matriz energética que não seja exclusivamente o óleo diesel.

O ABC também tem projetos metroferroviários, como é o caso do monotrilho da linha 18 que deve ligar a região, por São Bernardo do Campo, Santo André e São Caetano do Sul até a estação de trem e metrô Tamanduateí, na Capital Paulista. No entanto, problemas financeiros, com desapropriações e de ordem técnica deixam a obra do trem leve que segue em elevados ainda com data incerta. O monotrilho funciona por eletricidade.

A especialista do Consórcio Intermunicipal ABC também disse ao Diário do Transporte que os projetos de mobilidade devem estar associados aos de sustentabilidade.

“Antigamente quando se pensava em mobilidade, logo a primeira ideia era desafogar o trânsito, viabilizar a circulação, mas hoje deve-se incluir o componente das emissões de poluentes pensando já no futuro. O gasto aparentemente a mais que se faça numa implantação de sistema será bem menor do que os impactos da poluição, inclusive nas contas públicas. Não dá para separar mobilidade e sustentabilidade”

O inventário também mostra que são Bernardo do Campo e Santo André concentram mais da metade das emissões de toda a região por veículos automotores, sendo 35% em São Bernardo do Campo e 28% em Santo André.

Em relação ao tipo de veículo, carros e caminhões são os que mais poluem proporcionalmente. A frota de ônibus, micro-ônibus e comerciais leves são que menos agridem o meio ambiente, além das motos.

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FROTA DE VEÍCULOS ABC

Denatran – Outubro/2016

Santo André: 506.224

São Bernardo do Campo: 572.733

São Caetano do Sul: 139.832

Diadema: 197.707

Mauá: 207.958

Ribeirão Pires: 65.343

Rio Grande da Serra: 17.681

Total: 1.707.478

HABITANTES ABC:

IBGE

Santo André: 707.613

São Bernardo do Campo: 811.489

São Caetano do Sul: 157.205

Diadema: 409.613

Mauá: 448.776

Ribeirão Pires: 119.644

Rio Grande da Serra: 47.731

Total: 2.298.071

RELAÇÃO CARRO POR HABITANTE

Denatran/IBGE

Santo André: 0,71 carro por habitante

São Bernardo do Campo: 0,70 carro/por habitante

São Caetano do Sul: 0,88 carro por habitante

Diadema: 0,48 carro por habitante

Mauá: 0,46 carro por habitante

Ribeirão Pires: 0,54 carro por habitante

Rio Grande da Serra: 0,37 carro/por habitante

Total: 0,74 carro/por habitante

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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