OPINIÃO: Viaduto da Nove de Julho: para beneficiar menos de 83 mil motoristas, Doria deve impactar vida de 322 mil passageiros

Publicado em: 7 de dezembro de 2016

Doria erra ao contar número de ônibus e ignorar número de passageiros – Foto: Alexandre Battibugl

Uma das primeiras vias que devem ser reabertas para carros será o viaduto Nove de Julho. Velocidade dos carros não piorou com exclusividade para os ônibus, mas do transporte coletivo melhorou

ADAMO BAZANI

Na última segunda-feira, em evento na Fecomércio, associação que reúne os comerciantes da cidade de São Paulo, o prefeito eleito João Doria afirmou o que vai reabrir o viaduto Doutor Plínio de Queiroz sobre a Praça 14 Bis, o viaduto da Nove de Julho, para automóveis, logo no dia 02 de janeiro.

Em novembro, a administração Haddad restringiu a via para o transporte coletivo.

“No dia 2 de janeiro, esse viaduto vai ser aberto para o automóvel. Vai acabar com essa história de passar um ônibus a cada meia hora”, disse. “Isso é uma obviedade. É só ficar aqui e ver, não precisa nem ser técnico de engenharia de tráfego para ver uma obviedade dessas”, afirmou o prefeito eleito, que recebeu aplausos da plateia. “As coisas óbvias a gente vai fazer imediatamente. Tem de fazer, executar”, concluiu, de acordo com o Estado de São Paulo.

Esse discurso de que passa um ônibus a cada meia hora no local (o que não é verdade) pode se esperar num boteco, e ainda no final do domingão (quando as pessoas já estão ‘bem altas’). Agora, de alguém que se pinta como um gestor?

Doria e sua equipe não se atentaram que o que deve ser contada não é quantidade de veículos e sim de pessoas? Um carro transporta em média 1,75 pessoa na cidade de São Paulo, segundo a própria CET. Um ônibus básico passa com uma média de 38 pessoas. (Estamos falando de média do carro X média do ônibus. Se for lotação X lotação dará: 5 pessoas no carro, 40 pessoas no micro-ônibus, 55 pessoas no micrão, 75 pessoas no ônibus básico, 88 pessoas no ônibus Padron, 140 pessoas no ônibus articulado, 210 pessoas no ônibus superarticulado e 250 pessoas no biarticulado – isso se contar o excesso de lotação e alterações na configuração interna dos veículos).

É de admirar que um empresário seja bem sucedido como Doria sem saber fazer conta.

VELOCIDADES E PESSOAS BENEFICIADAS

De acordo com a CET, após a medida a velocidade média dos ônibus no local subiu de 15,6 km/h para 20 km/h, acima da média dos corredores que é de 19,3 km/h.

No entanto, em relação aos carros, não houve prejuízo da velocidade média.

O trecho das avenidas Europa e Nove de Julho ficou praticamente sem alteração: 21 km /h nos horários de pico da manhã e 13,8 km/h no pico da tarde.

Mesmo assim, Doria pretende beneficiar o carro nessas áreas.

De acordo com medições oficiais da CET – Companhia de Engenharia de Tráfego, pela faixa do Corredor da Avenida Nove de Julho trafegam 26 linhas de ônibus municipais, com uma média no horário de pico de 425 ônibus comuns, articulados, superarticulados e biarticulados.

Em média, esses ônibus transportam 322 mil pessoas por dia nos dias úteis.

Já pelo mesmo trajeto passam em média 1922 automóveis por hora no horário de pico.

Levando em consideração que cada carro na cidade de São Paulo leva uma média de 1,75 pessoas, nos horários de pico, os carros transportam neste local 3.486 pessoas por hora.

Num cálculo muito otimista, se estes carros transportassem o dia todo por hora o mesmo que transportam em horários de pico, o que não ocorre, seriam beneficiados pela medida de Doria, 83.664 donos de carros.

Mas o número na realidade é bem menor, já que os horários de pico não configuram a demanda de carros e pessoas durante a extensão do dia. Mesmo assim, se caso esse número fosse alcançado, menos pessoas ainda seriam beneficiadas do que em relação aos ônibus continuarem com exclusividade.

Se o ônibus diminui em 2 km/h sua média de velocidade, a viagem pode ser a partir de cinco minutos mais demorada, dependendo, claro do local e das condições de operação. Mas vale para se ter uma ideia.

São cinco minutos a mais para as pessoas que, por opção ou única alternativa, poluem menos a cidade, não congestionam as vias e ocupam melhor o espaço urbano.

Se este for o Padrão Doria Gestor, em vez de política de mobilidade, teremos ainda a política da “carrobilidade”

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

  1. Leo Garcia disse:

    Eu apoio totalmente essa medida do Doria pois o os veículos nada atrapalha os ônibus pois a faixa exclusiva na direita já garante uma melhor fluidez para os ônibus

  2. Jaílton disse:

    O problema não é a faixa da direita, mas sim o sistema em X que acaba se criando, com ônibus indo da faixa da esquerda para a direita e carros indo da faixa da esquerda para a direita. Só para relembrar, Léo Garcia, quem pegava o 6401 no Vale do Anhangabaú e descia na altura da Avenida Brasil levava, de ônibus, quase 25 minutos. principalmente por causa dos X do Túnel e do Viaduto. hoje leva 17 minutos no dia mais carregado. Nota: O carro, hoje, leva 18 minutos para fazer o mesmo trajeto. porém, já não tem mais o famigerado transito entre o túnel e o viaduto, mas sim, carros parados por causa de semaforo.
    O Doria pensa ainda como empresario e, assim, ele fará as coisas que o empresariado pede em SP. Só não aumenta a velocidade ainda pois há a pressão popular por trás. estamos vendo que esse prefeito vai esquecer da Mobilidade urbana e valorizar ainda mais os carros….

  3. Edvaldo disse:

    Dória está começando mal, espero que reveja essa decisão.

  4. Glauber Carrico disse:

    Também apoio esta medida. Precisamos tomar cuidado com os extremos!
    83000 pessoas que andam de carro, só porque andam de carro, também não merecem um pouco da atenção da prefeitura? Também são trabalhadores. Muitos se deslocando ao trabalho e muitos utilizando o carro para o seu trabalho.É bem verdade que uma parcela considerável utiliza carro por opção própria. Mas com certeza outros utilizam o carro justamente porque a prefeitura não oferece um transporte decente.
    A atual gestão simplesmente foi lá e proibiu a utilização pelos carros, ao invés de pensar em alguma alternativa que atendesse a todos. É mais fácil governar com a caneta na mão pra mandar, desmandar e multar do que arregaçar as mangas e trabalhar.

    1. Eduardo Alves disse:

      Sim, mas há um número 04 vezes maior que se utiliza das linhas que por lá passam. Quem usa o carro para ir e voltar do trabalho normalmente diz que usaria o transporte público se este tivesse prioridade na gestão e nos investimentos, porém, quando o poder público dá prioridade ao transporte público, essas mesma pessoas reclamam que estão sendo excluídas. É um paradoxo.

    2. Daniel Batista dos Santos disse:

      Falando-se em mobilidade urbana, o coletivo SEMPRE deve se sobrepor ao individual. O transporte público tem que ter prioridade. Precisa ter qualidade também, é claro. Mas a prioridade deve ser do transporte público sempre.

      1. mario disse:

        Isso não implica em proibir carros de utilizarem as vias públicas visto que seus proprietários pagam IPVA e tem o direito de utilizar as vias tanto quanto os ônibus.

  5. Thiago disse:

    Uma das poucas coisas que conseguem me tirar do sério na área de mobilidade urbana é esse tipo de argumento: “Só passa ônibus a cada meia hora”.
    Usaram muito isso quando implantaram as faixas exclusivas da Avenida 23 de Maio e até mesmo, recentemente, na Avenida Giovanni Gronchi. Agora eu pergunto: de onde o Dória tirou que no corredor da Avenida 9 de Julho passa ônibus a cada meia hora? Dezenas de linhas passam por esse local. Praticamente a zona sul inteira vem pelo centro através desse corredor. Eu não consigo acreditar que os veículos das linhas 6913, 6500 e 6505, por exemplo (linhas que eu mais usei nesse corredor), passem a cada meia hora. Só a 6913 tem 15 partidas na faixa horária das 6h às 6h59, segundo o site da SPtrans.
    Espero, de coração, que o Doria tenha apenas se equivocado com essa infeliz declaração. Se formos voltar a dar espaço para os carros novamente, um passo para trás será dado.
    Ah, antes que me esqueça, deixe os carros circular apenas das 22h às 6h.

  6. thiago henrique macedo disse:

    esse viaduto sem os carros ficou muito melhor pra quem anda de ônibus e tbm mais seguro, ja q não acontece as trocas de faixa e as fechadas que ocorriam com frequência, isso será uma péssima atitude dele, e pra quem esta de carro a diferença é minima, passo pelo local as vezes e sem carros é bem melhor, e posso garantir q passam muitos ônibus em meia hora

  7. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    Tambem nao vejo necessidade de mudar.

    O “X” sendo evitado e bom pra todo mundo.

    E depois um congestionamento a mais nao atrapalha em nada, prioridade do buzao.

    Att,

    Paulo Gil

  8. jair disse:

    Eis o X da questão kkkkkk

  9. Luiz Vilela disse:

    Sim, o maldito e horroroso viaduto funciona melhor só com os ônibus.
    Solução MESMO é acabar com ele e devolver a cidade a beleza do trecho emblemático.

    Imprescindível não esquecer que já está em obras estação do Metrô Laranja sob ele.
    Portanto usuários dos ônibus precisarão subir/descer bem mais para a oportuníssima integração com o metrô.

    Meu sonho maior sempre foi e é ACABAR com ônibus no corredor BandeiraSanto Amaro, implantando VLT.
    Como falta coragem aos prefeitos, o mínimo necessário é disciplinar as linhas dos articulados para evitar ao máximo sobreposições e entra-e-sai. E sincronizar articulados com semáforos.

  10. Cláudio Gomes disse:

    Moro exatamente no final do viaduto… Depois dá interdição para carros, vias de acesso como Rua Santo Antônio, Treze de Maio, passaram a ficar congestionadas o dia todo, além da Rua Augusta, pior, nas duas primeiras existe permissão para Estacionar dos dois lados, conclusão: média de velocidade de 10 km/h
    Uma palhaçada.
    Peço à Deus que este Haddad suma dá
    vida pública, por que tem trouxas que votam por interesses pessoais.

  11. elias ribeiro disse:

    Se o VLT demorar tanto quanto os monotrilhos para ficar pronto, quem sabe em 2050…. kkkk

  12. Andi DeGaspari disse:

    O ganho de 15 para 20Km/h numa pista de 600 metros equivale a 36 segundos. Portanto 83 mil motoristas sao prejudicados para que haja um “ganho” de 36 segundos para 322 mil.
    Obvio que este ganho é insignificante num viagem que dura no minimo 1h ou mais.
    O unico que realmente ganhou com o fechamento do viaduto foi o prefeito Haddad, que, auxiliado por “especialistas” em transporte como o Adamo Bazani, propagou a historia que isto fazia grande diferenca para os usuarios de onibus.
    De fato, o que precisava ser feito nao foi, a criacao de uma faixa no centro, como todos os outros lugares.
    Para o prefeito, em vez de fazer uma obra que ajudaria de fato todos e custaria mais, simplesmente colocou uma placa proibindo o trafego e nao ajudou ninguem.

    Tem gente que discute por 36 segundos. Tenha do

  13. Elisangela Santos disse:

    Bom dia ! Palhaçada essa ideia absurda me sinto lesada no meu direto de cidadão de ir e vir onde queira na cidade para isso pago impostos, IPVA, licenciamento, que alias recebi sem nenhum desconto. Uso o carro porque onde moro não tem ônibus na linha para permitir que eu chegue no horário em meu serviço. Dou caronas sim a meu irmão, vizinhos por bom senso não porque sou obrigada. O responsável pelo transporte publico não sou eu, nem os demais cidadãos que tem carro em SP. Absurdo ter que pagar multa de R$ 140,00 e perder 4 pontos na carteira porque ando só no Meu carro no viaduto 9 de julho. Podemos também multar a prefeitura pelo estado dos ônibus, pela super lotação, pela ausência de sinto de segurança nos ônibus e trens da cidade? Vcs pensam no bem estar da cidade ou no cofre da prefeitura. Coloque mais ônibus na linha que não haverá tantos carros circulando na cidade.

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