Procurador pede reabertura das investigações sobre a morte de Celso Daniel

Lula Celso Daniel seria um dos nomes fortes da campanha de Lula à presidência

Procedimento será com base em novos elementos, muitos dos quais apurados pela Operação Lava Jato e que envolvem empresas de ônibus em Santo André

ADAMO BAZANI

O assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel, ocorrido em janeiro de 2002, pode voltar a ser investigado pelo Ministério Público de São Paulo, e desta vez, com novos elementos envolvendo empresas de ônibus, o empresário Ronan Maria Pinto e o jornal Diário do Grande ABC, com base em apurações feitas no âmbito da Operação Lava Jato.

O pedido foi formalizado procurador de Justiça Edilson Mougenot Bonfim e vai ser analisado pela Procuradoria Geral de Justiça.

O procurador Edilson Mougenot fez o pedido na última quinta-feira, em parecer sobre recurso apresentado pela defesa de Elcyd Oliveira Brito, o John.

John foi apontado como um dos integrantes da quadrilha da Favela Pantanal que sequestrou e matou o prefeito. Ele foi condenado a 20 anos de prisão.

O procurador informou, no pedido que apareceram novas provas e elementos que podem determinar os mandatários e a real motivação, do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel. Entre estas novas provas citadas pelo procurador estão as apurações da Operação Lava Jato e o depoimento do publicitário, Marcos Valério, operador do Mensalão que confirmou à Justiça o pagamento de R$ 6 milhões para o empresário de ônibus e dono do jornal Diário do Grande ABC, Ronan Maria Pinto, não envolver nomes da cúpula nacional do PT, como ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no assassinato do prefeito.

O dinheiro, ainda de acordo com os depoimentos e a apuração da Lava Jato, teve como origem os R$ 12 milhões obtidos de maneira fraudulenta por um empréstimo intermediado pelo pecuarista e amigo do Luiz Inácio Lula da Silva, José Carlos Bumlai. Metade desse dinheiro foi para as dívidas de campanha do PT em Campinas e a outra metade, de acordo com a força-tarefa da Lava Jato, teria ido para Ronan Maria Pinto.

O dinheiro foi intermediado por Bumlai, mas saiu do banco Schahin. O valor nunca foi pago pelo PT. Em compensação, o Grupo Schahin conseguiu também de maneira fraudulenta, de acordo com a força-tarefa da Lava Jato, um contrato de US$ 1,6 bilhão para operar o navio sonda Vitória 10.000, a serviço da Petrobras.

Nas apurações do Mensalão, Marcos Valério afirmou que Silvio Pereira, o Silvinho, ex-secretário-geral do PT, contou a ele sobre a extorsão envolvendo os nomes de José Dirceu, Gilberto Carvalho e de Luiz Inácio Lula da Silva. Quando descobriu quem era Ronan Maria Pinto, Marcos Valério disse ter desistido do negócio. Já diante do juiz Sérgio Moro, nas apurações da Lava Jato, Marcos Valério disse que soube do esquema de chantagem por meio de Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula.

A Operação Lava-Jato então rastreou o dinheiro que teria chegado a Ronan Maria Pinto e disse ter descoberto que a origem foi justamente o empréstimo feito pelo Banco Schahin a Bumlai.

No entanto, antes de chegar a Ronan e a uma de suas empresas de ônibus, a Expresso Nova Santo André, o dinheiro teria trilhado um caminho para, ainda de acordo com os investigadores, despistar a apuração.

A defesa de Ronan nega origem fraudulenta e disse que os recursos foram obtidos por meio de transações legais com agências de financiamento e crédito, como a Remar, citada nas apurações.

Parte desse dinheiro teria sido usada para comprar o jornal Diário do Grande ABC, do qual Ronan hoje é proprietário.

O Ministério Público de São Paulo sustenta que a motivação da morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel, teve origem num esquema de corrupção envolvendo empresas de ônibus e o poder público.

Em novembro de 2015, a 1ª Vara Criminal de Santo André condenou Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, que morreu em setembro de 2016 vítima de um câncer, a 15 anos 6 meses e 19 dias de prisão por este esquema. O ex-secretário de serviços municipais de Santo André, Klinger Luiz de Oliveira Sousa, também foi condenado a 15 anos 6 meses e 19 dias e prisão e o empresário Ronan Maria Pinto foi condenado a 10 anos, 4 meses e 12 dias de prisão, em regime fechado. No entanto, pela condenação ser em primeira instância, houve a possibilidade de recurso em liberdade.

Já no âmbito da Lava Jato, que não apura corrupção em Santo André e nem a morte do prefeito Celso Daniel, Ronan foi preso preventivamente em abril de 2016 por lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros, no entanto, em julho pagou fiança de R$ 1 milhão e está em liberdade usando uma tornozeleira com rastreamento eletrônico.

A respeito do assassinato de Celso Daniel, não há um processo direto sobre Ronan Maria Pinto, mas houve sobre Sérgio Sombra que seria levado a júri popular em 2010. No entanto, depois de tantos recursos da defesa de Sombra, o processo saiu da 1ª Vara da Comarca de Itapecerica da Serra e foi para Brasília.

Desde 2005, corre um Processo de Investigação Criminal – PIC no Gaeco  – Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público, no ABC Paulista. Este procedimento nunca foi concluído, mas deve ser uma das maneiras para o Ministério Público dar continuidade na apuração sobre as motivações da morte do prefeito. A cúpula do Ministério Público já tratou da reabertura das investigações.

Os promotores acreditam que a corrupção envolvendo as empresas de ônibus em Santo André foi a causa real do assassinato do prefeito. De acordo com o órgão, Celso Daniel foi incumbido pela cúpula Nacional do PT para, por meio de uma espécie de Caixa 2, obter recursos para o PT de todo o País. Estes recursos viriam de propina paga por operadores de serviços concedidos pelo poder público, como ônibus e coleta de lixo. Ronan Maria Pinto, além de dono de viações na época, como Curuçá e Humaitá, também era proprietário da empresa que fazia a coleta na cidade, Rotedali.

No entanto, ainda de acordo com as apurações do Ministério Público, Ronan, Klinger e Sombra começaram a fazer um Caixa 3 dentro do Caixa 2, ou seja, desviar recursos que seriam para o PT nacional para interesses próprios. Celso Daniel então teria sido cobrado do PT nacional sobre os motivos destes recursos estarem diminuindo em comparação com as primeiras remessas.

O prefeito de Santo André, diante da pressão, teria feito uma espécie de dossiê para comprovar que ele não estava desviando o dinheiro fraudulento.

No entanto, em janeiro de 2012 foi sequestrado de maneira misteriosa quando estava ao lado de Sombra. Somente Celso Daniel foi levado. Sombra, uma potencial testemunha, foi deixada de lado. O carro Pajero, onde estavam, era blindado, mas estava com as portas destrancadas. Um laudo da fabricante descartou defeito na porta.

Empresários de ônibus do ABC comprovaram a existência de cobranças de propina naquela época.

João Antônio Setti Braga e Ângelo Gabrilli chegaram a denunciar os esquemas e não aceitaram pagar os recursos.  João Antônio Setti Braga, que confirmou as cobranças na CPI de Santo André, por exemplo, por não concordar com o esquema, saiu da sociedade da Expresso Nova Santo André, empresa hoje que aparece como um dos destinos do dinheiro intermediado por José Carlos Bumlai.

O empresário Ângelo Gabrilli era dono da Viação São José de Transportes. Suas linhas começaram a ser sobrepostas pela Viação Padroeira do Brasil, empresa na época de Baltazar José de Sousa, concunhado Ronan Maria Pinto. A medida da prefeitura fez com que houvesse uma concorrência desleal afetando os negócios de Gabrilli.

A Pajero onde estavam Celso Daniel e Sombra foi guardada na garagem da Padroeira após o sequestro.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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