OPINIÃO: Vez e voz

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As eleições trouxeram um debate intenso sobre alguns temas da mobilidade urbana. Alguns temas, sim, porque outros, tão importantes quanto (ou até mais, segundo seus efeitos sobre a saúde e a qualidade de vida da população) passaram ao largo. No caso de São Paulo, temas urgentes como inspeção veicular, inspeção de segurança, fontes de financiamento para o sistema de transporte coletivo acabaram ofuscados por um debate restrito a multas e à redução da velocidade em duas artérias da capital. Como se estes dois temas, por importantes que sejam, tivessem impacto direto sobre a forma como se locomove a maioria dos cidadãos que habitam a cidade.

Locomover-se de um ponto a outro continua sendo um drama vivido por milhões de citadinos, seja em São Paulo, seja em outras regiões conurbadas do país. Ao invés de se discutir como combinar várias alternativas para que as pessoas possam se deslocar, o que se viu foi o não-debate. Para uma imensidão de pessoas, que moram em locais os mais diversos e se deslocam para destinos os mais distintos, parece óbvio que quanto maior a quantidade de combinações possíveis de transporte à sua disposição, melhores serão as possibilidades de escolha. Melhor será a mobilidade.

O busílis hoje nas grandes cidades, diante da bem vinda novidade da introdução do debate intenso sobre modais antigos e não estimulados como caminhada e bicicleta, está em justamente assumir não apenas sua importância para curtas distâncias, como sua necessária composição com outros modos.

Uma cidade inteligente (sem a conotação tecnológica) é aquela que permite a seus cidadãos um amplo espectro de escolhas. A questão da saúde pública, geralmente ignorada quando se trata do tema mobilidade urbana (a não ser quando se fala de segurança – acidentes, atropelamentos, quedas em calçadas, etc), parece eternamente fora da pauta de muitos candidatos, sempre encoberta por temas de natureza econômica. O valor da tarifa do ônibus, do trem, do metrô, reduz-se a uma questão de valor monetário, descolada de muitos outros temas essenciais à vida das cidades. A velocidade que o carro pode ou não trafegar, ou a necessidade de fiscalização – o que sempre implica em multa -, definem a principal preocupação de muitos eleitores (os mais ativos, mas quase nunca a maioria).

Uma pesquisa recente do Greenpeace, encomendada ao Datafolha, expõe o tamanho da confusão que se estabelece na cabeça das pessoas quando o assunto é mobilidade.

Pelos resultados brutos, o perfil do brasileiro atual é de alguém que deseja menos carros nas ruas em benefício de maior espaço para o transporte público e, de bandeja, calçadas e uma ampla malha cicloviária. Segundo Vitor Leal, do Greenpeace, “a pesquisa demonstra que a população apoia a redistribuição do espaço nas ruas quando entende que ele será destinado a outros meios de transporte benéficos para a cidade. Ao contrário do que se pensa, de que o carro é o sonho da população para se locomover na cidade, esses dados mostram que as pessoas querem, na realidade, transporte público acessível e de qualidade”.

Como se vê, o espaço para um debate livre com a sociedade é imenso. Resta saber conduzi-lo. Para isso, será essencial informação e disposição. O diálogo que estas eleições não ofereceram antes, será essencial daqui por diante. Num cenário de crise e de receitas magras, o melhor prefeito será aquele que souber combinar respaldo técnico e muita conversa. Como pano de fundo, o bem-comum. A pesquisa do Greenpeace demonstra que as pessoas estão dispostas. Resta dar-lhes vez e voz.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes e editor da ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos

Texto publicado originalmente em: http://antp.org.br/noticias/editorial-e-destaques-da-semana/vez-e-voz.html

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Comentários

Comentários

  1. Luiz Vilela disse:

    Muito bom texto!
    Ainda por cima o candidato a prefeitura de São Paulo que perdeu as eleições anteriores por tentar discutir a tarifação dos transportes públicos se limitou, nesta eleição, a (re)discutir o Uber.
    Aliás, alguém ouviu o prefeito eleito falar sobre como a Prefeitura pretende apoiar os metroferroviários?!

  2. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    Inovacao e Mobilidade sao palavras do momento, mais ainda Mobilidade.

    Na vida tudo depende do referencial.

    Por exemplo se voce esta empregado e com bom salario o seu filho estudara na escola particular, se voce perdeu poder aquisitivo ou ficar desempregado, seu filho ira para a escola publica.

    Portanto, na maioria dos casos NAO sao os pais que definem onde o filho ira estudar e SIM o poder aquisitivo dos pais, simples assim.

    Em que pese as variaveis do termo Mobilidade, so uma vale.

    Fazer com que o cidadao chegue no menor tempo possivel entre o ponto A e o B.

    Pode elocubrar a vontade, se esse objetivo nao for atendido, significa que a Mobilidade nao evoluiu.

    Lembrando sempre do ensinamento da Tia Cotinha:

    ” A MENOR DISTANCIA ENTRE DOIS PONTOS E UMA RETA”

    Att,

    Paulo Gil

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