Boa gestão é olhar para ciclovias a longo prazo, e não retirá-las

Interrupção na expansão da malha cicloviária deve colocar a capital paulista na contramão das demais cidades, além de contribuir com custo social.

RENATO LOBO

Logo após ser eleito em primeiro turno como prefeito de São Paulo, João Doria promete frear a expansão da malha cicloviária na cidade. Em entrevista à imprensa esta semana, o tucano afirma que trechos que “funcionam bem” serão preservados, e em regiões ociosas e que “atrapalham o comércio”, serão retirados.

“As ciclovias serão preservadas onde funcionam bem, onde têm movimento, ciclistas. Não serão continuadas em calçadas nem onde não são utilizadas. Vamos fazer um estudo para avaliar isso. Já as ciclovias que foram assimiladas pela população vão continuar e serão mantidas pela iniciativa privada porque a Prefeitura faz mal hoje essa conservação. Vamos escolher uma área e permitir ali a publicidade. As empresas interessadas poderão adotá-las por um ano ou mais”, afirmou Doria.

Com o enxugamento da malha, São Paulo passará a andar na contramão das cidades do mundo todo, que vem abrindo espaços às bicicletas, como Nova York, Paris, Londres, Pequim, Vancouver e Santiago, além das Brasileiras como o Rio de Janeiro e Brasilia.

E com a retirada dos faixas, deve ser freado também o aumento no número de ciclistas que a capital paulista vem registrando.

Mas por que alguns trechos são menos utilizados do que outros? A resposta está na conexão da malha, que não foi feita, e que agora deve retroceder. Um bom exemplo é a ciclovia da Avenida Paulista, onde após a implantação e conexão com as demais estruturas na região, fizeram o número de ciclistas dobrarem, é o que revela uma contagem feita pela Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo – Ciclocidade.

Já no trecho da Avenida Brigadeiro Faria Lima, após o início da implantação, um estudo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a pedido da Secretaria de Desenvolvimento Urbano de São Paulo (SMDU), revelou que o tráfego de bicicletas cresceu 37%. Os dados mostram também que a ampliação dos espaços pode ser indutor de demanda.

Outra informação relevante, e que diz respeito a ampliação da malha é a queda no número de mortes. Estudo da CET aponta redução de 27,4%. De 43 mortes entre janeiro e novembro de 2014, o número caiu para 31 óbitos no mesmo período em 2015, ou 12 vítimas a menos.

Primeiro as ciclovias, depois os ciclistas

Em 2014, durante visita à São Paulo, o ex-diretor do Departamento de Transportes de Nova York, Jon Orcutt, contou um pouco da experiência da cidade na implantação da malha cicloviária, e disse que o projeto foi consolidado anos depois.

“Foi em 2007 que começamos a instalar as ciclovias e, provavelmente, só seis anos depois (houve a aceitação geral). É um processo, uma mistura no fundo, porque além das críticas houve apoio às ciclovias. Lançamos, em 2013, o sistema público de bicicletas compartilhadas, que realmente mudou o foco. Pararam de brigar por causa das ciclovias e passaram a falar das celebridades e políticos que andam de bike. Ter ciclovia dá opções às pessoas”, afirmou Jon.

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Ciclovia de Nova York

Boa gestão também está aliada a prevenção

Além da economia registrada com mortos e feridos a menos, também aplicada nos leitos hospitalares, o meio de transporte ajuda na redução gazes poluentes. Pesquisa do Instituto Saúde e Sustentabilidade da conta de que nos próximos 16 anos a poluição atmosférica matará 256 mil pessoas no Estado (quase 44 pessoas por dia) e a concentração de partículas poluentes no ar conduzirá a internação de 1 milhão de pessoas.

Se esse cenário se concretizar, o gasto público estimado será de mais de R$ 1,5 bilhão, com pelo menos 25% das mortes (59 mil) ocorrendo na capital.

Renato Lobo, técnico em Transportes Sobre Pneus e Trânsito Urbano

 

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