HISTÓRIA: Carbrasa Flamingo – uma inovação na hora errada?

No início dos anos de 1970, o Flamingo surgia com um design inovador para época e com soluções que ainda hoje são consideradas diferenciais entre os fabricantes de ônibus. Foto/Acervo: ClassicalBuses – Matéria: Adamo Bazani

Modelo foi projetado por engenheiro catalão e trazia inovações que só depois vieram a fazer parte da indústria de ônibus

ADAMO BAZANI

Você já ouviu falar frases do tipo: “Esta pessoa ou este produto estão à frente do seu tempo” ou então “Tal ideia daria certo se fosse apresentada décadas depois” ?

Talvez isso tenha ocorrido com um dos ônibus com menos unidades produzidas no país – apenas três veículos, mas que deixou uma marca muito importante em soluções que hoje, mais de 40 anos depois, são apresentadas como se fossem inovações e vantagens nos modelos atuais.

Trata-se do Flamingo, ônibus feito pela Carbrasa – Carrocerias Brasileiras S.A. no final de sua atuação no setor fabril de veículos de transportes coletivos, nos anos de 1970.

Linhas inclinadas, soluções estéticas comuns nos carros de passeio e um toque da indústria internacional chamavam a atenção no Flamingo. Foto/Acervo: ClassicalBuses – Matéria: Adamo Bazani

A Carbrasa foi fundada no Rio de Janeiro em 1947, por Mario Sterka, Mario Pareto e Gil Souza Ramos, empresários que representavam a Volvo no Brasil, montadora que só inauguraria uma fábrica no país em 4 de dezembro de 1980. A planta, em Curitiba, no entanto, já tinha atividades desde 1979.

A Carbrasa foi considerada uma das empresas mais inovadoras no setor de indústria de ônibus no seu início e no seu fim, mas o meio da história não foi bom, o que acabou comprometendo sua trajetória.

Consta que nos anos de 1950, foi a primeira a fabricar no Brasil ônibus com estruturas totalmente metálicas. Isso ocorreu devido a atuação de técnicos italianos trazidos para linha de produção. Entre as vantagens, possibilitava métodos de fabricação mais profissionais, veículos mais leves e de manutenção mais fácil.

O crescimento da Carbrasa foi bastante rápido. Para se ter uma ideia, em 1956, nove anos depois da fundação, já tinham sido produzidas mil carrocerias de ônibus pela marca, um número expressivo para os padrões da época. Em 1959 eram 2 mil unidades.

No entanto, quem inova uma vez, precisa continuar inovando.

Ao longo do tempo, o desenho mais sóbrio das carrocerias e até mesmo um pouco sisudo se tornara ultrapassado.

Estrutura do Flamingo contava com materiais leves e conceito de aviação. Foto/Acervo Lexicar – Matéria: Adamo Bazani

No final dos anos de 1950, a empresa, que encaroçava ônibus pequenos com chassis Chevrolet, médios da Mercedes-Benz e maiores da Scania, não tinha produtos padronizados. Eram apenas três versões: Urbana, rodoviária/intermunicipal e rodoviária para maiores distâncias. Cada chassi recebia um projeto de carroceria diferente.

Apenas em 1961, foi criada uma nova carroceria urbana com elementos de fibra de vidro e de extrema resistência. As janelas de correr inclinadas davam vez para janelas em ângulo reto.

Apesar disso, ainda o mercado achava o design conservador perto de outros modelos que surgiam, como os Diplomata da Nielson, os urbanos da Caio e os ônibus da Nicola, hoje Marcopolo.

O lançamento do ônibus urbano foi positivo, mas ainda os produtos precisariam inovar na estética. A qualidade era considerada boa pelos operadores de ônibus, mas não basta apenas ser bom, tem que ser bonito. E isso também se aplica no mercado de transporte coletivo.

Para tentar reverter a situação, em 1968, a Carbrasa contratou engenheiros e projetistas novos, mas a velha equipe continuou, havendo uma espécie de conflito.

Até então, os ônibus da Carbrasa não recebiam uma denominação de mercado. Talvez um dos erros da companhia.

Em 1969, foi lançado o novo modelo de ônibus urbano com a seguinte denominação: 333.  Não chegou a ser um sucesso, mas deu um respiro para a marca, que passou da sétima maior fabricante de ônibus em unidades no ano de 1967 para a quarta, em 1969.

UMA INOVAÇÃO COM VÁRIAS NAÇÕES:

Um ônibus do Futuro. Motorista tinha a própria porta, com abertura para cima. Foto/Acervo: OnibusAntigos – Matéria: Adamo Bazani

Porta para o passageiro abria de lado e para a frente. Até os anos de 1980, muitos modelos ainda abriam a porta para fora. Foto/Acervo: OnibusAntigos – Matéria: Adamo Bazani

O ônibus Carbrasa Flamingo foi o marco da tentativa de recuperação da marca, com entrada de um novo grupo investidor.

Em março 1970, o norte-americano Michael Greeven assumia a Carbrasa. Mário Sterka ficara apenas com a Carbras-mar, empresa que fazia barcos pequenos e lanchas de fibra de vidro, desde 1956.

Foram anunciados vários novos produtos e até mesmo uma parceria com a fabricante belga de ônibus Van Hool, que não se concretizou, se limitando a dividir estande num Salão do Automóvel.

O Flamingo, entretanto, foi o resultado mais forte desta tentativa de mudança. O ônibus foi produzido pela equipe chefiada pelo projetista catalão Augustín Masgrau Mur.

Augustín tinha larga experiência internacional no setor automotivo. Para ter uma ideia, ele foi desenhista da fabricante espanhola Pegaso, uma das mais marcantes da Europa.

O Flamingo realmente chamava a atenção. Seu design era inovador, com linhas bem inclinadas e modernas. Os para-choques eram mais finos e abrangiam a carroceria, uma solução estética do segmento de carros de passeio e ainda não muito comuns nos veículos comerciais.

A carroceria era montada em coxins de borracha, reduzindo vibrações e ruídos.

O motorista tinha uma entrada só dele, com uma porta basculante. Sabe a porta do carro do filme “De Volta para o Futuro” , de 1985 ? – parecia um pouco.

Já a porta dos passageiros no lado direito abria para o lado, se deslocando para a frente.

As poltronas eram montadas sobre trilhos, o que facilitava a regulagem. O ar-condicionado tinha saídas individuais, algo que ainda hoje, em 2016, é anunciado como inovação. Estamos falando de um ônibus apresentado no início dos anos de 1970.

As grades dianteiras eram inspiradas em caminhões Chevrolet. O ônibus foi montado sobre chassi Scania B-76.

O modelo era inovador demais para época e caro, dizem alguns profissionais dos transportes.

Além disso, surgiu num momento que a Carbrasa já estava fragilizada diante de todos os problemas anteriores e também pela situação economia brasileira no início dos anos de 1970, marcados pela inflação.

O Flamingo foi um ônibus bonito sim, mas pelo fato dele ser muito diferente e também por todo histórico da Carbrasa na segunda metade dos anos de 1960, acabou não vendendo quase nada.

Apenas três ônibus foram comercializados. Sabe-se que de empresas conhecidas, a Viação Garcia, do Paraná, contou com o modelo em sua frota.

Foram três unidades do Flamingo. Viação Garcia teve ônibus da Carbrasa. Foto: Divulgação Adamo Bazani

Em 1972, a  Carbrasa deixava de existir, mas todas as inovações desde a estrutura metálica até as novas ideias para o Brasil trazidas pelo Flamingo foram de extrema importância para indústria brasileira e o conforto de milhões de passageiros que passaram pelas estradas, ruas e avenidas ao longo da história.

 Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

 

3 comentários em HISTÓRIA: Carbrasa Flamingo – uma inovação na hora errada?

  1. Amigos, bom dia.

    Adamo, primeiro muito obrigado por me apresentar o Flamingo.

    Parabéns; sensacional a matéria (aula), as fotos e principalmente por esta abordar só o buzão mesmo.

    Entendo que as frases que você muito bem colocou têm de ser reescritas e aqui vai mais uma vez uma sugestão by Paulo Gil – © 04/2016..

    “O tempo está atrás desta pessoa e desse produto”

    “Sem as mentes jurássicas, essa ideia daria certo há décadas ”

    Observações:

    A Viação Garcia (original) era do time do buzão, parabéns para aquela turma original que comprou até o Trinox.

    Showwwwwwwwwww as portas do Flamingo:

    A E.A.V. Taboão, tinha uns Carbrasas (pequenos), que eram uma graça de design; similares ao tamanho dos micrões de hoje.

    Att,

    Paulo Gil
    “Buzão e Emoção é a Paixão”

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