História

Curitiba 323 anos: cidade é exemplo da importância dos transportes no desenvolvimento

BRT história

Corredores de ônibus ajudaram organização da Curitiba e hoje são adotados em diversas partes do mundo. FONTE: http://onibusdectba.blogspot.com.br/2013/09/antigamente-expressos.html

Sistemas de corredores de ônibus foram pioneiros no Brasil. Hoje são adotados em todo o mundo

ADAMO BAZANI

Na última terça-feira, a cidade de Curitiba completou 323 anos.

A fundação oficial foi em 29 de março de 1693, data da criação da Câmara da cidade.

Inicialmente tendo como principal atividade econômica a mineração e agricultura de subsistência no século 17, posteriormente a atividade tropeira derivada da pecuária trouxe uma nova fase na economia de Curitiba.

Estando entre as principais capitais da América Latina, a cidade de Curitiba tem hoje os mesmos problemas urbanos da maioria das metrópoles em todo o mundo. No entanto, também possui soluções que servem de exemplos para outros países. É o caso do sistema de transportes.

Não é exagero nenhum dizer que o desenvolvimento de Curitiba se deve à mobilidade urbana.

Isso porque, em 1974 quando o arquiteto e urbanista Jaime Lerner era prefeito, foi criado algo inédito no mundo até então: corredores exclusivos para ônibus, hoje chamados de BRTs – Bus Rapid Transit.

Muito mais que criar um espaço somente para o transporte público, o corredor de ônibus organizou o desenvolvimento da cidade, criando eixos de interesse público privilegiando a circulação de pessoas e não de automóveis.

A 1ª canaleta exclusiva tinha 20 km e marcou a entrada em operação do ônibus expresso no Eixo Norte-Sul. Foram adotadas cores diferentes de acordo com as categorias de linhas: vermelha para as linhas expressas e laranja para as linhas alimentadoras.

O sistema foi inaugurado oficialmente em 22 de setembro de 1974. As duas primeiras linhas entraram em operação com uma frota de 20 ônibus, fazendo a ligação Santa Cândida/Praça Rui Barbosa (eixo Norte); e Capão Raso/Praça Dezenove de Dezembro (eixo Sul). As duas linhas passavam pela Estação Central onde, já nessa época era possível fazer integração.

O primeiro modelo do ônibus expresso foi desenvolvido pela Marcopolo. Era o Veneza Expresso, a partir do já consagrado Veneza, porém com várias modificações, como altura do piso em relação ao solo menor, maior aproveitamento do espaço interno com bancos laterais, mais área envidraçada e o motor Cummins oferecia mais potência e conseguia emitir menos poluentes. O ônibus padron tinha capacidade para 90 pessoas.

onibus

Veneza Expresso foi o primeiro modelo de ônibus para BRT. Foto: NTU

O BRT fazia parte do planejamento feito a partir do tripé: Uso do Solo, Sistema Viário e Transporte Coletivo. Nesse contexto, o ônibus foi um indutor de crescimento com a liberação de alvarás para os prédios mais altos da cidade justamente ao longo dos eixos, conforme relembra a prefeitura no site oficial.

O exemplo deu tão certo que não só beneficiou Curitiba, mas também o mundo inteiro. Isso porque, de acordo com a UITP – União Internacional de Transportes Públicos, entidade que reúne especialistas em todo o mundo e com o site BRTData, há BRTs em aproximadamente 200 cidades em diversos países.

São em torno de 409 corredores por onde são transportadas por dia aproximadamente 33,3 milhões de pessoas. Estes corredores somam 5.319 quilômetros.

Veja em: http://brtdata.org/

Além de facilitar o deslocamento das pessoas e organizar o desenvolvimento urbano, os BRTs também representam segurança viária.

De acordo com um relatório do Centro para Cidades Sustentáveis da Embarq e do Banco Mundial, sistemas de BRTs são capazes de melhorar a segurança e reduzir os acidentes com mortes em até 50%.- Veja em: https://diariodotransporte.com.br/2015/11/14/estudo-mostra-como-projetar-corredores-de-onibus-que-melhorem-a-seguranca-viaria/

Não é possível dizer que o BRT é a única solução de mobilidade urbana, mas hoje o mundo reconhece que a prioridade ao transporte coletivo por ônibus numa rede de transportes integrada traz inúmeras vantagens sob diversos aspectos: econômico, de preservação do meio ambiente, de melhoria de qualidade de vida e na busca por cidades mais humanas e agradáveis.

onibus

Ônibus Expressos fazem parte da paisagem da história de Curitiba. Ponte preta com locomotiva exposta na década de 80. FONTE: vidadmaquinista.blogspot.com e https://blogdomaizeh.wordpress.com/category/nas-ruas-de-curitiba/
Bairro Rebouças_ Locomotiva Antiga na Ponte Preta, sobre a Rua João Negrão
Curitiba, 1999
Foto: Sergio Vieira/SMCS

Antes mesmo dos BRTs, é importante destacar que também no caso de Curitiba, foi fundamental a  luta dos pioneiros dos transportes na cidade e nos municípios vizinhos, que ajudavam no desenvolvimento enfrentando ruas ainda mal planejadas, estradas de terra, atoleiros, mas tinham disposição, coragem e fé. Estes pioneiros que uniam a concretização dos sonhos aos sonhadores, eram empreendedores que depois se tornaram empresários, e também motoristas, cobradores e todas as pessoas direta ou indiretamente ligadas ao transporte coletivo.

Curitiba e a região metropolitana precisam continuar investindo na ampliação das redes exclusivas para ônibus e modernização dos transportes.

Afinal, esta é sua característica: não tem como falar da história de Curitiba sem citar a mobilidade urbana.

Em nota, a prefeitura relembra alguns fatos relacionados à história dos transportes:

Na década de 1970, a implantação seguia a premissa do planejamento feito a partir do tripé Uso do Solo, Sistema Viário e Transporte Coletivo. Nesse contexto, o ônibus foi um indutor de crescimento com a liberação de alvarás para os prédios mais altos da cidade justamente ao longo dos eixos.

Três anos depois, em 1977, entrou em operação a linha Boqueirão, agora com sistema de bilhetagem automática, feita com ajuda de cartões de papelão magnetizados, adquiridos antecipadamente e perfurados em máquinas instaladas no interior dos expressos.

Os primeiros ônibus Expresso tinham capacidade para 90 usuários. Eram do tipo Padron, com chassis baixos. Na década seguinte entraram em operação os ônibus articulados, desenvolvidos especialmente para Curitiba, com capacidade para 150 passageiros; e no início dos anos 1990, os biarticulados, primeiro para 230, depois para 250 passageiros. 

Nos anos 1990 surgiram as estações tubo e o sistema Linha Direta – os Ligeirinhos – com trajetos paralelos às canaletas e paradas distantes, uma a cada três quilômetros.

Em 1996 a Rede Integrada de Transporte, viabilizada a partir da criação do Expresso, foi ampliada para a Região Metropolitana, através de convênio entre a Prefeitura de Curitiba e o Governo do Paraná, beneficiando, atualmente, 13 municípios vizinhos.

O Expresso também inaugurou o tempo de ônibus projetados para esse fim, encerrando uma época de carrocerias de ônibus montadas sobre chassis de caminhões. Os chassis baixos foram dimensionados para embarques praticamente em nível e, internamente, abriu-se mais espaço para os passageiros, com redimensionamento dos bancos. Ao mesmo tempo, as portas ficaram mais largas agilizando embarques (pela porta da frente) e desembarques (pelas portas do meio e traseira).

Curitiba foi a primeira cidade brasileira a usar ônibus com porta instalada no meio da carroceria. Na década de 1970 entraram em operação os primeiros ônibus articulados. Na década seguinte chegam os biarticulados, a Rede Integrada de Transporte, com integração físico-tarifária permitindo a utilização de quantos ônibus forem necessários com o pagamento de uma só tarifa e a construção de terminais de transporte, começando pelo Pinheirinho.

Em 1986, o gerenciamento do transporte coletivo, até então feito pelo Ippuc, passa a ser de responsabilidade da Urbs, criada em 1963 como empresa responsável por obras de infraestrutura e saneamento.

Em 2014, houve a desintegração financeira da RIT – Rede Integrada de Transportes, com as linhas metropolitanas sendo gerenciadas pela Comec  – Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba, órgão do governo do estado, e as linhas municipais ficaram sob responsabilidade da Urbs.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Informe Publicitário
Assine

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

     
Comentários

Comentários

  1. Daniel Duarte disse:

    Minha dica para a prefeitura de Curitiba é melhorar o sistema de abertura de semáforos nos corredores, vejo que em certas horas da noite, horários já sem grande movimento nos cruzamentos, que os ônibus ainda não tem preferência e acabam parando em cruzamentos sem movimento, isso poderia mudar.

  2. Curitiboca disse:

    Focaram tanto no sistema de ônibus que esqueceram do resto. Certos horários há congestionamento em quase todas as ruas centrais, fora as principais dos bairros, principalmente por serem ESTREITAS, construídas sem pensar no fluxo de veículos que a gente poderia ter no futuro (ruas com 1, 2, 3 no máximo 4 faixas/pista pra cada mão).
    Agora, para aumentar essas vias, ou vão ter que desapropriar um monte imóveis, para poder alargar, ou então converter as ruas em vias de mão única ou usar as ruas internas dos conjuntos, ruas que deveriam ser só de acesso local aos moradores, em vias de grande movimento.
    Essas duas últimas “soluções” já foram e estão sendo utlizadas, o que significa que as opções se tornaram escassas.
    A “última esperança” para desafogar o trânsito está sendo o tal do metrô, que já era pra ter sido feito pra Copa do Mundo de 2014, mas que ainda nem terminaram o projeto no papel (ver http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2016/02/prefeitura-de-curitiba-diz-que-nao-ha-previsao-para-relancaredital-do-metro.html ).
    O sistema viário com as canaletas exclusivas, etc… foi uma boa idéia, (principalmente de marketing dos políticos, incluindo “seu” Jaime Lerner…), mas deveriam ter usado o dinheiro para ampliar as vias e construir de forma apropriada para o trânsito da época e futuro.
    Enfim, eu moro em Curitiba, e ando de moto, porque de carro não dá o congestionamento e de ônibus, demora muito.
    Pra eu ir pra Faculdade, por exemplo, levo 1/2 hora de moto, +1 hora de carro e de ônibus.

    1. diegofc88 disse:

      Discordo da última parte da sua fala, a prioridade em qualquer investimento viários precisa ser em transporte coletivo e cicloviário. Abrir mais ruas para carros dará mais congestionamentos a médio e longo prazo.

  3. Acho que o que Curitiba tem de exemplo de BRT era o que SP deveria seguir, e o que SP tem sobre trilhos era o que Curitiba deveria seguir, porém sem atrasos vergonhosos.

  4. Jhonatan Ferreira de Mello disse:

    Parabéns pela matéria, Adamo!

    Moro em Curitiba e o transporte “eficiente” ainda é marco histórico da cidade e RMC.

    Atualmente, já apresenta sinais de saturação. Vamos ver quando os gestores vão finalizar a linha verde norte (até o atuba), e implantar “nova canaleta” da Av. das Torres e os Ligeirões Norte e Leste-Oeste.

    Abraço,

    Jhonatan

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Diário do Transporte

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading