EDITORIAL: Perda de passageiros nos sistemas de ônibus no Brasil  – Todos são culpados!

ônibus

Ônibus articulado em Santo André, no ABC, quebrado. Veículo antigo não conseguiu enfrentar subida.

Números são preocupantes e revelam que transporte público deve se tornar mais atraente caso contrário teremos cidades insuportáveis

ADAMO BAZANI

Na semana passada, a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos – NTU,  que reúne em torno de 500 viações em todo o Brasil, divulgou inicialmente para o jornal Folha de São Paulo que o número de passageiros em 2015 em relação a 2014 teve uma queda de 4,2% nos 16 principais sistemas do Brasil que somam quase dois terços da demanda dos ônibus urbanos em todo o país.

Foi o quarto ano de perdas seguidas e a maior registrada na década.

Alguns sistemas, como de Curitiba, com perda de 8% dos passageiros e de Goiânia, com, baixa de 7,9%, chamaram a atenção.

Os números são extremamente preocupantes.

A NTU atribui a queda de 2015 à crise econômica brasileira, que reduz as atividades e o nível de emprego impactando na demanda dos ônibus.

E é verdade, em parte. A crise que assola todo o país influencia em praticamente todos os setores mostrando o quão é nociva a má gestão do dinheiro público, problema este admitido pelo próprio governo federal, caso contrário não realizaria o ajuste fiscal.

Mas no caso do transporte coletivo de passageiros por ônibus ficar apenas colocando a culpa na crise é se isentar da responsabilidade.

Como os sistemas de metrô e trem não têm avançado no Brasil, a perda de demanda dos ônibus não é uma boa notícia. Caso contrário poderia ser interpretado apenas como uma migração entre modais, o que serial algo muito bom.

A verdade é que menos pessoas estão optando pelos transportes públicos e se deslocando por meios individuais e isso é claramente sentido nas cidades com o trânsito, poluição, perda de tempo de dinheiro e acima de tudo de qualidade de vida.

Não podemos esquecer que os números de 2015 são frutos de problemas crônicos em relação às opções de políticas públicas. Em nome do voto e da popularidade ainda neste país extremamente rodoviário, os gestores públicos de diferentes níveis preferem incentivar o transporte individual por meio de seguidas isenções de imposto para aquisição de veículos zero quilômetro e ampliação nada inteligente de vias que em poucos anos já estarão abarrotadas de carros.

As picuinhas políticas regionais também mostram que o transporte coletivo é jogado em segundo plano. No caso de Curitiba, por exemplo, que já foi referência de mobilidade urbana em todo mundo com os corredores de ônibus BRT, os cidadãos assistiram a uma briga entre o prefeito Gustavo Fruet , do PDT, e o governador Beto Richa, do PSDB, em relação às integrações dos sistemas Municipal e Metropolitano. Como um não queria bancar a conta do outro, como ocorria quando o governo e prefeitura eram do mesmo partido, os sistemas se desintegraram, o passageiro precisa ter ao menos dois bilhetes em mãos (antigamente com um bilhete poderia percorrer 14 cidades), as empresas dizem que não recebem os repasses corretamente e não renovam a frota, principalmente dos serviços municipais.

O custo da tarifa também é algo que requer reflexão e revela um dilema muito grande.

O valor das passagens é alto em relação à qualidade e aos ganhos dos passageiros é baixo para custear o sistema. Este dilema começa a ser resolvido através de duas frentes: Criação de fontes que financiem as gratuidades, que hoje recaem sobre o passageiro pagante na maioria dos sistemas no Brasil, e também deixar os serviços mais eficientes, afinal ônibus presos em congestionamento e linhas sobrepostas, por exemplo, custam caro.

As empresas de ônibus também não podem se eximir da responsabilidade. Mesmo com todas as adversidades econômicas e até mesmo operacionais, as viações devem sim buscar diferenciais de qualidade para atrair o passageiro. Muitas empresas inclusive chamam passageiros de clientes, mas os tratam apenas como demanda cativa.

Alguns empresários ainda presos à cultura arcaica de que só porque o serviço é concedido têm a garantia de exploração do negócio, esquecem que neste mercado de transporte coletivo também há concorrência, no caso com a moto, com carro, com a bicicleta e por que não, com o Uber.

Ônibus preso no congestionamento, por exemplo, é questão de política pública. Mas o ônibus sujo, com baratas, com motorista que atendem mal, com a manutenção insuficiente … aí é modelo de negócio e muitos empresários, não generalizando, claro, ainda pecam muito nesse sentido.

O transporte é coletivo e os esforços para uma mobilidade decente também devem ser coletivos, ou seja, a culpa é de todos, mas a solução vem de todos.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Alexandre Dias Machado disse:

    Pro transporte no Brasil dar certo, só recomeçando do 0.

    Com a infraestrutura das cidades precária, sistemas de transporte mais do que ultrapassados e saturados, falta de acessibilidade, ônibus muito desconfortáveis (e não me refiro aos bancos de plástico) e em péssimo estado de conservação, além disso, a tarifa é cara essa política de isenções até pra “velho” de 60 anos é um estupro ao bolso dos passageiros pagantes, daí não tem país que aguente. Não são só os gestores públicos, os empresários também são burros, vão acabar se dando muito mau desse jeito.

  2. J disse:

    A PIOR SITUAÇÃO É A DA REGIÃO DA ÁREA 5 DA EMTU / RMSP -SP ! ÔNIBUS VELHOS COM CERCA DE DEZ ANOS EM MÉDIA DE USO…CREDO ! E ESSA MOLEZA DO GOVERNO DO ESTADO RESPONSÁVEL PELA EMTU…IMPRESSIONANTE !

    1. orlando silva disse:

      Fácil, nem precisamos ir na EMTU, basta ver e notar. E comentando à boca pequena, Dona Beatriz, dona de várias empresas no ABC, é quem gerencia parte da EMTU, com nome Metra. Tudo bem até ai. Mas notem que foi instituido um SELO DE QUALIDADE para os veiculos intermunicipais.Verifiquem por exemplo: os bus do Baltazar (linha de Mauá à Sacomã e SCS, os articulados) parece que ela deixou de mão, eles nem pensam em renovar. O homem é duro na queda.
      Só vejo eu a renovação vale mesmo para os veiculos dela, como a AUTO VIAÇÃO ABC linhas, 195, 196, 238 e 409, 409BI …Alguem tem de fazer um levante geral, a começar por SCS pelo excesso de poluição que a S. Camilo emitem na cidade.
      Atenção donos da Riacho Grande, carro 3035, micro, deixou rastros de fumaça negra,na altura da Maria Servidei Demarchi.(Anchieta) Alguem precisa regular o motor daquele micro.

  3. J disse:

    Como se alguém tem carro, e grana sobrando pros combustíveis e etc. …não vai ir de carro aonde quer q seja ?? com essas situações aí…e outras piores?? como???

  4. Pedro disse:

    Sou totalmente favorável a quem utiliza carro como meio de transporte, porque um sistema que renova a frota a passos de tartaruga e reduz a quantidade de veículos com a desculpas esfarrapadas, a verdade e que quanto menos ônibus, menas oferta o resto e mentira, e vai ficar pior, por isso quem pode comprar um carro para ir ao trabalho compre!!!!!

    1. Marcos disse:

      Concordo….aqui em Sao paulo antes utilizava-se 1 ônibus agora 3….a desculpa deles é a racionalização….porem isso deixou as viagens mais demoradas e mais cansativas….tiraram onibus convencional para colocar os tais midis…..que nao cabem ninguem dentro….por issoeu mesmo nao uso transporte coletivo, pois pra andar 15 km pegar 3 busos é um absurdo……menos onibus significa onibus mais cheios e desconforto….nao sou contra a reorganix
      reorganização das linhas em troncal e alimentadora……sou contrar seccionar e eliminar linhas demandadas, deixando os passageiros na mão como acontece em sao paulo…..por isso as pessoas afastam se do transportes coletivo

      1. Não concordo, quanto mais linhas diretas mais sobreposições e filas enormes de ônibus paradas nos pontos em avenidas e corredores, racionalizar e o correto, e dar velocidade as vias principalmente.

  5. Daniel Duarte disse:

    Já não bastasse os impasses entre a prefeitura de Curitiba e o governo do estado, vejo os corredores de ônibus, como exemplo do BRT Circular Sul sendo tomado por buracos, daí é claro, quem vai querer colocar ônibus novos numa pista daquela. Sem falar que quando um ônibus biarticulado passa por um buraco, o passageiro do últimos bancos são arremessados pra cima.

  6. orlando silva disse:

    Sr. Adamo Bazzani, faça uma reportagem sobre o TAL SELO DE QUALIDADE (colados no para-brisa) da Metra, nos onibus intermunicipais. Por que Só a Auto Viação ABC da Maria Beatriz são renovados. Repare.

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