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Construção de Metrô foi mais rápida do que de monotrilho em seis anos em São Paulo

Obras dos monotrilhos em São Paulo estão em ritmo mais lento que de Metrô e modal atende menos da metade do número de passageiros.

Se for cumprido o novo cronograma da Linha 17, em seis anos de obras, a gestão Alckmin terá aberto sete estações e construído 7 km de monotrilho na capital. Para efeito de comparação, também ao longo de seis anos, entre 1968 e 1974, o Metrô abriu sete estações da Linha 1, com obras subterrâneas, consideradas mais complexas e mais caras. Obra da linha 17 só deve ser concluída entre 2018 e 2019. Foram congelados dez quilômetros de linha, mais da metade da extensão total. Especialista da USP defende corredor de ônibus no local

ADAMO BAZANI

Com informações de O Estado de São Paulo.

O Governo do Estado de São Paulo suspendeu até pelo menos 2017, o começo da construção de dois trechos do monotrilho da linha 17- Ouro, que deveria ligar a região do bairro Jabaquara até área posterior do Morumbi, na zona sul da capital paulista.

As obras paralisadas envolvem a construção de dez quilômetros de linha que correspondem a 57% da extensão total do trecho que deveria ter 17,6 quilômetros de extensão.

Se as obras forem recomeçadas em 2017, a previsão é de que sejam concluídas em até 30 meses. Assim os trechos e estações devem ser entregues somente entre 2018 e julho de 2019. Os trechos suspensos são dos extremos do trajeto, da Estação Morumbi, que faria conexão com a linha 9 Esmeralda da CPTM, na região da Marginal Pinheiros, até a futura Estação Morumbi-São Paulo da linha 4 Amarela do Metrô, que também está atrasada e só deve ser entregue em 2018.

No outro extremo estão suspensas as obras entre o Aeroporto de Congonhas e Estação Jabaquara, da Linha Azul do Metrô, que também faz conexão física com o Corredor Metropolitano ABD.

Assim apenas um trecho de 7,7 quilômetros entre Congonhas e a linha 9 Amarela está em construção pelo consórcio das empresas Andrade Gutierrez e CR Almeida.

A Promessa inicial é de que esse trecho deveria estar pronto em 2010, mas agora somente deve sair do papel no segundo semestre de 2017.

De acordo com reportagem do Jornal O Estado de São Paulo, a gestão Alckmin responsabilizou a crise econômica financeira que o país atravessa, a alta da inflação, o crescimento do dólar, a queda do PIB e os juros altos para os atrasos.

CONSTRUÇÕES DE MONOTRILHOS TÊM SIGNIFICADO FRACASSOS E MODELO DE TRANSPORTE É QUESTIONADO:

A construção dos monotrilhos em São Paulo até o momento tem representado fracasso. Problemas financeiros e técnicos colocam em dúvida sobre se o monotrilho é a melhor escolha para os transportes na capital e região metropolitana.

Ao jornal O Estado de São Paulo, o especialista e mestre em Transportes pela Universidade de São Paulo (USP) Horácio Augusto Figueira, diz que o monotrilho não é o melhor meio de transporte por atender poucas pessoas diante do custo de construção e operação. Ele usa como exemplo a própria linha 17.

“A demanda por passageiros no trecho que o Metrô vai priorizar é “pífia”. Um corredor de ônibus à esquerda, com os coletivos entrando no aeroporto, ficaria bem mais acessível. Ele já estaria operando e com um custo bem menor.”

No entanto, ele defende a conclusão do que foi iniciado.

O insucesso do monotrilho é tão grande que a gestão Alckmin prometeu até o final de 2015 a conclusão de 38,6 quilômetros do modal de transporte que consiste em trens de média capacidade que circulam sobre elevados usando pneus.

Seriam três linhas de monotrilho: a linha 15-Prata, entre Vila Prudente e Cidade Tiradentes; a linha 17 – Ouro, do Jabaquara até a região posterior do Morumbi; e a linha 18 bronze, entre a região do ABC Paulista e a estação Tamanduateí de trem e metrô.

Destes 38,6 quilômetros, que deveriam ter sido concluídos até o final de 2015, apenas 2,9 quilômetros estão em operação e em horário reduzido, das 06h às 20h, na linha 17 Prata, entre as Estações Vila Prudente e Oratório.

OBRAS ESTÃO FICANDO CADA VEZ MAIS CARAS:

A lentidão para conclusão das obras do monotrilho é tão grande que, de acordo com comparação feita pelo Jornal Estado de São Paulo, tem sido mais difícil a construção deste modal do que do próprio metrô subterrâneo, que transporta em torno de sete vezes mais passageiros, consegue desafogar o trânsito com maior eficiência e atrair mais pessoas para o transporte público.

“Se cumprido o novo cronograma da Linha 17, em seis anos de obras, a gestão Alckmin terá aberto sete estações e construído 7 km de monotrilho na capital. Para efeito de comparação, também ao longo de seis anos, entre 1968 e 1974, o Metrô abriu sete estações da Linha 1, com obras subterrâneas, consideradas mais complexas e mais caras.

A Linha 17 foi orçada inicialmente em R$ 3,9 bilhões, mas já está custando R$ 5,5 bilhões, um aumento real de 41%.” – releva a reportagem deste dia 31 de dezembro de 2015, assinada pelos repórteres Bruno Ribeiro, Fabio Leite e Rafael Italiani.

PROBLEMAS NÃO SÃO APENAS FINANCEIROS:

Apesar de o governo do estado insistir na tese de que o problema principal dos monotrilhos é financeiro, a própria Companhia do Metrô admite que existem entraves técnicos que evidenciam a dificuldade para implantação do meio de transporte. Segundo o Metrô, além dos problemas ordem econômica no país, “há a necessidade de equacionar pendências e duplicação de vários trechos de vias para implementação das colunas e vigas dos monotrilhos das Linhas 15 e 17”

Além disso, sobre a linha 17 do monotrilho, o Metrô informou que faltam a emissão da Licença Ambiental de Instalação pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente e o prolongamento da Avenida Hebe Camargo, além do remanejamento de 10 mil famílias que serão retiradas do trajeto por onde deveria passar o monotrilho.

Em relação à linha 15 do monotrilho, segundo o Metrô ao TCE, falta o remanejamento da galeria do Córrego da Mooca, além da duplicação e adequação da Avenida Ragueb Chohfi. O TCE- Tribunal de Contas do Estado questionou os atrasos das obras.

O monotrilho da linha 18, conhecido como monotrilho do ABC, não tem previsão para ser iniciado. O Governo do Estado de São Paulo também atribui o atraso a condições financeiras, mas também ocorrem problemas técnicos. Primeiro porque as obras só podem ser iniciadas depois de testes da linha 17 Ouro, que não tem nenhum trecho em operação. Além disso, há dúvidas sobre a capacidade financeira da empresa MPE de fornecer os trens do monotrilho, reveladas pelo Metrô ao Ministério das Cidades. Há entraves também na construção da estrutura do modal, como galerias de água Avenida Brigadeiro Faria Lima, no centro de São Bernardo do Campo, que inicialmente não foram previstas no projeto desta linha de trens suspensos.

COMPARAÇÕES ENTRE MODAIS NA PRÁTICA:

Para se determinar a vantagem de um modal em relação a outro deve ser levar em conta o custo de construção por quilômetro e a demanda atendida por dia, além do custo de operação, que vai implicar em maior tarifa e necessidade de mais subsídios.

Em linhas gerais, o quilômetro de um BRT – Bus Rapid Transit, sistema moderno de corredores de ônibus, custa em torno de R$ 35 milhões podendo ser atendida uma demanda diária entre 50 mil e 340 mil pessoas. O custo por quilômetro de um monotrilho é de em torno de R$ 250 milhões com uma demanda diária entre 50 mil e 400 mil passageiros.

O custo por quilômetro de um VLT – Veículo Leve sobre Trilhos, espécie de um bonde moderno, é de entre R$ 60 milhões e R$ 100 milhões, com demanda atendida entre 50 mil 300 mil passageiros.

O custo por quilômetro de metrô subterrâneo é de R$ 1 bilhão, podendo ser atendidos por dia entre 500 mil e 900 mil passageiros.

Mas na prática, como serão o atendimento e os custos projetados dos modais? Com base em dados das próprias gerenciadoras de transportes, o Blog Ponto de Ônibus traz as seguintes comparações:

 

MONOTRILHO – LINHA 18 – ABC

Extensão – 15,7 quilômetros

Custo das obras – R$ 4,8 bilhões

Preço por quilômetro – R$ 305 milhões 732 mil

Demanda atendida -314 mil pessoas por dia

SISTEMA DE BRT DO RIO DE JANEIRO

– Extensão atual já em operação – 91 quilômetros (TransOeste e Transcarioca)

– Custo já investido – R$ 2 bilhões 651 milhões

– Preço por quilômetro – R$ 28,9 milhões

– Demanda atendida: 430 mil pessoas por dia

QUANDO REDE ESTIVER PRONTA – previsão 2017

– Extensão de rede municipal concluída – 157  km (TransOeste, TransCarioca, TransBrasil e TransOlímpica)

– Custo previsto (incluindo o já investido e que está em operação): R$ 5,6 bilhões

– Custo por quilômetro: R$ 35,66 milhões

– Demanda geral – 2 milhões de passageiros por dia

Maior BRT do sistema do Rio em capacidade será o TransBrasil, na avenida Brasil, com 28 km de extensão, 33 estações, cinco terminais, entre Deodoro e centro do Rio, deve atender 820 mil pessoas por dia

VLT BAIXADA SANTISTA:

Extensão – 16,6 quilômetros – sistema completo

Custo das Obras – R$ 1,2 bilhão

Custo por quilômetro – R$ 72,28 milhões

Demanda atendida com sistema completo – 80 mil pessoas por dia

 

OS MONOTRILHOS DE SÃO PAULO:

A linha 15 Prata deveria ter 26,7 quilômetros de extensão, 18 estações entre Ipiranga e Hospital Cidade Tiradentes ao custo R$ 3,5 bilhões com previsão de entrega total em 2012. Agora, o orçamento está 105% mais alto, com o valor de R$ 7,2 bilhões. O custo por quilômetro sairia hoje por R$ 269 milhões. A previsão de 9 estações agora é para 2018. Está congelado o trecho entre Hospital Cidade Tiradentes e Iguatemi e Vila Prudente-Ipiranga. O governo do estado promete atendimento a uma demanda de 550 mil passageiros por dia

A linha 17 Ouro do monotrilho deveria ter 17,7 quilômetros de extensão, com 18 estações entre Jabaquara, Aeroporto de Congonhas e região do Estádio do Morumbi ao custo de R$ 3,9 bilhões com previsão de entrega total em 2012. Hoje, o orçamento está 41% mais caro somando R$ 5,5 bilhões e a previsão para a entrega de 8 estações até 2017. Atualmente, o custo por quilômetro seria de R$ 310 milhões. O monotrilho, se ficar pronto, não deve num primeiro momento servir as regiões mais periféricas.  Assim, os trechos entre Jabaquara e a Aeroporto de Congonhas e entre depois da Marginal do Rio Pinheiros até a região do Estádio São Paulo-Morumbi, passando por Paraisópolis, estão com as obras congeladas. Com este congelamento, não haverá as conexões prometidas com a linha 4 Amarela do Metrô na futura estação São Paulo – Morumbi, e nem com estação Jabaquara e da Linha 1 Azul do Metrô e Terminal Metropolitano de Ônibus e Trólebus Jabaquara, do Corredor ABD. Segundo o site do próprio Metrô, quando estiver totalmente pronto, este sistema de monotrilho atenderá 417 mil e 500 passageiros por dia.

A linha 18 Bronze deveria ter 15,7 quilômetros de extensão, com 13 estações entre a região do Alvarenga, em São Bernardo do Campo, até a estação Tamanduateí, na Capital Paulista ao custo de R$ 4,5 bilhões com previsão de entrega total em 2015. Agora, o orçamento está 14% mais caro, chegando a R$ 4,8 bilhões, sem previsão de entrega. A previsão de demanda é de até 340 mil passageiros por dia, quando completo. O custo hoje por quilômetro seria de R$ 305 milhões. Como as obras não começaram, especialistas defendem outro meio de transporte para a ligação, como um corredor de ônibus BRT, que pode ser até 10 vezes mais barato com capacidade de demanda semelhante.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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