Sociedade entre maior empresário de ônibus de São Paulo e homem mais rico de Portugal é destaque em revista europeia

Publicado em: 20 de dezembro de 2015

Ruas e Américo Amorim

José Ruas Vaz, o maior empresário de ônibus urbanos de São Paulo (à esquerda) e Americo Amorim, o homem mais rico de Portugal: Duas histórias que se encontram no transporte coletivo

Matéria conta a trajetória de José Ruas Vaz e sua relação com Américo Amorim, considerado dono individual de uma das maiores fortunas em Portugal.

ADAMO BAZANI

Quem é de São Paulo em algum momento já deve ter ouvido o nome de José Ruas Vaz, o maior empresário de ônibus urbanos da cidade.

Com aproximadamente 50% de atuação no sistema o transporte na capital paulista, que é o maior em frota de ônibus do mundo com quase 15 mil veículos, que transportam em torno de 9 milhões de pessoas diariamente contando também com as integrações entre Metrô e trens da CPTM, parte da trajetória do empresário José Ruas Vaz, que nasceu em janeiro de 1928 em Fornos de Algodres,  Distrito de Guarda, e sua relação de negócios com Américo Amorim, no Banco Luso-Brasileiro, considerado hoje o homem mais rico de Portugal, com uma fortuna avaliada em 2,4 bilhões de euros, é destaque na revista portuguesa “Sábado” deste dia 19.

A influência de José Ruas Vaz nos transportes em São Paulo é tão grande que até mesmo encarroçadora de ônibus Caio, de sua propriedade desde 2001, predomina na frota da capital paulista mesmo nas garagens empresas que não fazem parte do Grupo Ruas.  Além disso, o processo de licitação de transportes que deve remodelar o sistema pelos próximos 20 anos com possibilidade de renovação de contratos por mais 20 anos segue com uma série de incertezas, no entanto, o mercado aposta como uma das poucas coisas garantidas para o certame é que José Ruas Vaz deve continuar atuando no sistema de maneira significativa.

Além da trajetória de José Ruas Vaz, que começou a trabalhar com tio numa panificadora, a Santa Teresa, fundada em 1872, quando em 1961, com 33 anos, criou a Viação Campo Belo dando início ao verdadeiro império dos transportes em São Paulo, a revista traz alguns detalhes sobre a vida e a carreira do empresário, como dívidas e falências que recaem sobre as empresas do grupo de Ruas. Segundo Luiz Fernando Diedrich, advogado responsável pela área fiscal das companhias do Grupo Ruas, as contas estão em ordem, no entanto, ele admite a existência de significativos valores congelados em contas judiciais.

A revista também conta alguns detalhes na relação política e na imagem de que alguns administradores públicos querem fazer em cima de empresas de ônibus. Em 2004, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy ,culpou os empresários de ônibus pelo caos na cidade e chamou de gângsters esses empresários. Na época então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, apoiou Marta e elevou o insulto para o termo “bandidos”. À revista “Isto É”, na ocasião, Ruas disse que a carapuça não havia servido.

O banco Luso Brasileiro no qual José Ruas Vaz mantêm relações comerciais com Américo Amorim hoje é especializado em financiamento de ônibus em todo país. De acordo com a Revista, 85% da carteira de crédito da instituição são formados empresas de transportes públicos.

Acompanhe abaixo o texto da repórter Joana Carvalho Fernandes na íntegra:

O antigo padeiro que se tornou sócio de Américo Amorim

O José da padaria transformou-se em “barão do asfalto”. E em banqueiro. Tem 43% do Banco Luso Brasileiro, que deu lucro em 2015, depois de perder milhões

Joana Carvalho Fernandes

Do balcão da padaria Salazar, no bairro de Vila Pompeia, em São Paulo, o jovem José Ruas Vaz apreciava o movimento na paragem de autocarros perto da igreja. Naquela altura, nos anos 50, era praticamente impossível ir comprar pão sem ouvir de volta um sotaque de português de Portugal – como aquela, 90% das padarias da cidade eram de portugueses.
A poucos passos dali, crescia a confusão de pessoas nas partidas e chegadas. A cidade não parava de ganhar habitantes. Quando a paragem (o ponto de ônibus, em português do Brasil) foi mudada de sítio e começou a levar-lhe clientes, José Ruas Vaz magicou um futuro longe da farinha e dos fornos.

Hoje, é conhecido como “barão do asfalto”, “rei” ou “patrão” dos autocarros de São Paulo. Domina mais de metade deste mercado na cidade mais populosa do Brasil. O Grupo Ruas emprega perto de 30 mil funcionários e opera 6.800 autocarros na cidade – tem 90 milhões de passageiros por mês.

Os negócios do português estendem-se a outras áreas – nunca por acaso. José Ruas Vaz é sócio de Américo Amorim, o homem mais rico de Portugal, com uma fortuna avaliada em 2.482 milhões de euros. Cada um detém 43% do Banco Luso Brasileiro. O presidente, José Francisco Ribeiro, diz que a instituição quer ser “o banco do ônibus [autocarro]”. É essa a prioridade desde 2012 – o financiamento para empresas de transportes públicos colectivos já representa 85% da carteira de crédito. Depois de ter acumulado prejuízos de 24,5 milhões de euros nos últimos três anos, o banco saiu do vermelho: nos primeiros seis meses de 2015, teve lucros de 1,9 milhões de euros.

Ruas Vaz e Amorim deram uma ajuda. Em 2014, subiram a participação no banco de 33% para 43%. Factura: 60 milhões de reais (14,7 milhões de euros). As mudanças ocorreram depois de Manuel Tavares de Almeida – da família fundadora da instituição e dona de um conglomerado empresarial com mais de 60 anos e negócios na hotelaria, indústria, agricultura e imobiliário – ter sido acusado de prestação de informação falsa ao Banco Central do Brasil e por fraude fiscal e uso de notas falsas. Essa família tem agora apenas 14%.

Os empresários ter-se-ão conhecido em Portugal há cerca de 15 anos. Embora José seja muito menos expansivo do que Américo, há várias coisas a uni-los. Ergueram fortunas quase do zero e são ambos viciados em trabalho – já se podiam ter reformado há pelo menos duas décadas. Além disso, são poupados: Américo viaja em económica e compra carros usados; no escritório de Itapecerica da Serra, na sede de uma das suas empresas, José não tem ar condicionado.

Têm uma boa relação. Encontram-se nos dois continentes. Quando têm reuniões do Banco Luso Brasileiro, em São Paulo, costumam almoçar juntos na sede. E o português até dá conselhos ao luso-brasileiro, que, aos 87 anos, já tem alguma dificuldade em andar. Sugere-lhe que faça ginástica, como ele, seis anos mais novo.

Este não é o primeiro negócio da dupla na banca. Ruas Vaz entrou no capital do Banco Nacional de Crédito, que Amorim fundou em 1990 e que em 2005 passou a chamar-se Banco Popular. “Foi a partir daí que a relação dos dois se consolidou”, disse à SÁBADO um colaborador do bilionário português.

O filho de pastores virou patrão
José nasceu em Janeiro de 1928, em Fornos de Algodres, 100 quilómetros a norte da Serra da Estrela, no distrito da Guarda. O pai, António Martins Ruas, era criador de ovelhas. A mãe, Maria da Glória Vaz, fazia queijos a partir do leite dos animais. Quando o pai adoeceu, José tomou o gosto a gerir negócios. Mas na aldeia de Fuinhas, a família vivia sem electricidade, água ou telefone. Em declarações à agência Lusa em 2006, o empresário – avesso a jornalistas e entrevistas – contou que foi a ambição que o fez atravessar o Atlântico. “Era uma aldeia sem nenhum recurso. Tínhamos apenas uma escola. Queria expandir os negócios e logo percebi que ao permanecer em Portugal não teria condições.” A 4 de Setembro de 1949, desembarcou no porto de Santos.

Começou por trabalhar com um tio na sua panificadora, a Santa Tereza, fundada em 1872 e a mais antiga em funcionamento no Brasil – ainda está de portas abertas. Oito anos depois, abria um negócio em seu nome, o bar Vera Cruz. Nessa altura conduzia um carro tão velho que tinha de estacioná -lo sempre numa descida – de outra forma ele não pegava. Foi depois dono de uma drogaria e da padaria Salazar, em Vila Pompeia.

A grande mudança aconteceu em 1961, tinha José 33 anos. “Não queria ficar mais parado no balcão. Queria expandir-me. Optei por um negócio dinâmico”, confessou na mesma conversa com a Lusa. Começou com a pequena empresa de transportes Campo Belo. Tinha apenas dois autocarros na garagem. Em seis meses passaram a ser oito. Até 1984, comprou 16 empresas do ramo e transformou-se no maior empresário do sector em São Paulo.

O luso-brasileiro é conhecido por ser arrojado nos negócios. Em 1991, fez uma das maiores compras do género no mundo – 1.500 veículos. Em 2008, gastou o equivalente a 25 milhões de euros em autocarros articulados e biarticulados. Em 2001, conseguiu outra grande jogada: adquiriu a Caio Induscar, uma empresa fabricante de carroçarias para autocarros com mais de meio século de tradição, mas que estava então falida. Reforçou o seu império. A empresa passou a ser líder na produção de autocarros urbanos. Mais: José é sócio das empresas que gerem os anúncios publicitários nas paragens.

O empresário também não gosta de ser fotografado. Tem medo dos raptos. E da última vez que posou para ilustrar um artigo na imprensa, de óculos escuros, achou que parecia um mafioso, confessou à revista brasileira especializada em economia Isto é Dinheiro.

A sugestão é mais grave dado o contexto: em 2004, Marta Suplicy, prefeita da cidade de São Paulo nessa altura, culpou os proprietários da rede de transportes públicos pelo caos vivido na cidade e chamou-lhes gangsters. O então Presidente, Lula da Silva, apoiou-a e ainda traduziu o insulto para português: bandidos. “Em mim, a carapuça nunca serviu”, res-pondeu o empresário, na mesma entrevista. Adilson Amadeu, vereador do Partido Trabalhista Brasileiro na Câmara Municipal de São Paulo, diz que isso se explica porque Ruas Vaz “é um hábil negociador”, além de ser “um empresário com raro faro para os negócios”.

O luso-brasileiro é também conhecido pela facilidade com que se move entre os governantes. Nos anos 70, convenceu o então prefeito de São Paulo, o banqueiro Olavo Setúbal, a deixar o secretário dos Transportes dar uma voltinha de ônibus consigo – o homem acordou às 4h para embarcar, uma hora depois, de um bairro na periferia até ao Parque Dom Pedro, a 100 quilómetros do centro da cidade. A viagem demorou algumas horas. “Acho que o secretário nunca mais pegou um ônibus na vida”, contou Ruas Vaz à revista Isto é Dinheiro.

Império, falências e dívidas
No entanto, o luso-brasileiro é acusado de ter construído este império acumulando falências e dívidas – incluindo aos trabalhadores. Segundo disse à SÁBADO o Banco Nacional de Devedores Trabalhistas, há 399 processos de execução em seu nome. O empresário ocupa o 82º lugar entre os maiores devedores. O grupo é também acusado de fechar empresas e abri-las depois com nome diferente, para complicar o processo de cobrança. Um juiz de São Paulo chegou a dizer que Ruas Vaz actua de forma premeditada para contornar esses pagamentos, escreve o jornal Folha de São Paulo.

Em declarações à SÁBADO, o advogado Luís Fernando Diedrich, responsável pela área fiscal das empresas do Grupo Ruas, garante que as contas estão em ordem. “Entre os processos em curso há muitos que decorrem de multas ilegais, que estamos a contestar”, explicou. Além disso, acrescentou, há “avultados montantes” congelados em contas judiciais.
Contactados pela SÁBADO, nem José Ruas Vaz nem o filho Paulo Ruas, braço-direito do pai na gestão das empresas e presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo, quiseram prestar declarações.

Fuinhas no coração
Na aldeia de Fuinhas, os membros da família são conhecidos como “os brasileiros dos autocarros”. Apesar de terem passado mais de seis décadas desde que José trocou Portugal pelo Brasil, o empresário mantém uma ligação forte à terra – vizinhos disseram à SÁBADO que a família costuma visitar a aldeia e paga a pessoas para manterem a velha casa, desabitada, em ordem. Essa não será a única propriedade dos familiares de José na terra. Um dos seus cunhados será até proprietário de um terreno com uma vinha – a produção é para consumo da casa.

Quem conhece José Ruas Vaz diz que ele é crente – no seu gabinete, uma Nossa Senhora de Fátima, que mede quase dois palmos, divide o espaço no topo de um móvel simples e austero com miniaturas de autocarros e outros santos.
Há outro hábito que José mantém sempre que pode: comprar viaturas novas. O banco de que é sócio é uma peça importante no financiamento. Em 1968, quando passou a ser dono da Viação Ferraz, pôs ao serviço autocarros com zero quilómetros. O sucesso inicial foi tanto que a polícia chegou a ter de empurrar as pessoas para conseguir fechar as portas antes de os ônibus arrancarem.

Texto de Apresentação: Adamo Bazani

Texto SABADO: Joana Carvalho Fernandes

MATÉRIA HISTÓRICA:

Saúde, Cursino e linhas portuguesas, com certeza

Saúde, Cursino e linhas portuguesas, com certeza

 

Comentários

  1. Mario jr disse:

    Parabéns pela reportagem! Adamo VC sabe me dizer se o grupo Ruas é dono também da concessionária da Mercedes “Bresser” em Barueri pois já vi diversos ônibus do grupo fazendo revisão e há um comentário forte que ele adquiriu a concessão com concessionária para comprar chassis mais Barato,e sendo dono da carroceria Caio,sobressai sob os demais. Obrigado pela à atenção!

    1. Sobre esta concessionária especificamente não sei dizer

    2. Zé Tros disse:

      Já ouvi dizer que ele tbm é dono de concessionária Mercedes mesmo, só não sei se é essa Bresser.

  2. Rubens Segura disse:

    Esqueceram de falar na operação Uruguai, por que será??

  3. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    Muito bacana uma história de sucesso do buzão.

    A Viação Campo Belo era impecável.

    Parabéns Sr. Ruas.

    Att,

    Paulo Gil

  4. orlando silva disse:

    Baltazar deve ter se espelhado nele , ou seria Baltazar II ???

  5. muito bacana esta materia nao que eu nao saiba mas me esclareceu muitas coisas

  6. Rodrigo Santos disse:

    Mais um empresário que se “deu bem” às custas dos trabalhadores, fechando empresas falidas e as abrindo com outro nome. Típico do empresariado brasileiro. Parabéns ao ex-presidente Lula que chamou essa corja de “bandidos”. Hoje, nosso ex-presidente é odiado e perseguido por esses e outros empresários. E os direitos dos trabalhadores continuam a ser violados e a população usuária do sistema de transporte público continua sendo mal atendida.

  7. Thiago Durães disse:

    Ótima matéria parabéns, trabalho no grupo VIP com muito orgulho e fico feliz em conhecer um pouco da história da empresa que trabalho!

  8. Dailson disse:

    Muito boa essa matéria, é bom saber mais sobre o meu patrão, tenho muito orgulho em trabalhar em umas das empresas dele, ele merece ser um dos melhores de São Paulo.

  9. Trabalhei nove anos no grupo ruas , na antiga viação tabu ltda a onde aprendi muito da profissão , entrei de motorista e sai de encarrego de estatística , mas antes fui chefe de tráfego, com muito orgulho trabalhei na viação tabu , só que agora gostaria de trabalhar novamente neste grupo ,que um dos mais serio de São Paulo meu nome e Wagner Galvani atualmente ne resido na cidade de Americana, meu e-mail e wagal52@hotmail.com, tive o prazer de conhecer o sr ruas pessoalmente , seu genro willi foster wege

  10. que saudade de trabalhar neste grupo , gostaria de retorna mesmo de motorista

Deixe uma resposta