Especialista defende ampliação da rede de trólebus e ciclovias em São Paulo

trólebus e ciclovia

Trólebus em São Paulo ao lado de ciclovia. Especialista que lançou livro sobre transportes meio ambiente defende a ampliação de ônibus elétricos na capital paulista e na continuidade da política em prol do deslocamento por bicicleta. Foto: Rafael Delazari

Autor do livro ‘Transporte, uso de energia e impactos ambientais”, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro faz um estudo sobre como a mobilidade pode ser aliada do meio ambiente

“A maioria dos profissionais [como engenheiros e técnicos] não consegue descrever com precisão o que precisa ser feito para tornar os transportes ambientalmente sustentáveis.”

A opinião é do professor Márcio D’Agosto, da COPPE – Universidade Federal do Rio de Janeiro, que lançou recentemente o livro  ‘Transporte, uso de energia e impactos ambientais’.

Em entrevista ao jornalista Alexandre Pelegi – editor da “Revista dos Transportes Públicos”,  da ANTP (Associação Nacional dos Transportes Públicos), o professor fez uma análise dos entraves, desafios e oportunidades  para que o setor de mobilidade urbana possa contribuir ainda mais para a elevação da qualidade de vida, com a preservação ambiental.

Sobre a licitação dos transportes na cidade de São Paulo, que deve reordenar o maior sistema de ônibus da América Latina, Márcio D’Agosto comenta o não cumprimento da Lei de Mudanças Climáticas, que determinava a troca gradual da frota de transporte coletivo da cidade por ônibus que não dependam de combustíveis fósseis. O especialista defende a ampliação da rede de trólebus na cidade ao mesmo tempo que mais ônibus elétricos a bateria recarregados em fontes externas de energia sejam introduzidos no sistema. Márcio D”Agosto também acredita que é necessária a manutenção da política de incentivo aos deslocamentos por bicicleta.

Confira:

O Professor Márcio D’Agosto, da COPPE- UFRJ, acaba de lançar o livro ‘Transporte, uso de energia e impactos ambientais’, uma obra que seguramente vai contribuir para a compreensão da relação existente entre a atividade de transportes, o uso de energia e os impactos ambientais aos meios físico, biótico e antrópico, considerando as fases de planejamento, projeto, implantação e operação de um sistema de transporte.

No que se refere aos aspectos energéticos, o livro busca avaliar o potencial de redução de consumo de combustíveis fósseis e o aumento da eficiência energética no setor de transportes, considerando a minimização dos impactos ambientais globais.

A obra apresenta também subsídios para a análise de procedimentos que visem identificar, avaliar e controlar os impactos produzidos pela operação de sistemas de transportes sobre o meio ambiente (local, regional e global), nas fases de planejamento, projeto, implantação e operação de sistemas de transportes.

Este é o primeiro livro brasileiro sobre o tema com um conteúdo didático e aplicação tanto para alunos de graduação quanto para mestrado e até doutorado, dependendo da especificidade e profundidade que se pretende atingir. Para falar mais sobre o trabalho entrevistamos o professor Márcio D’Agosto. Leia a entrevista:

ANTP – A queima de combustíveis fósseis no setor de transportes é uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa. Dados do IPCC de 2010 apontavam que o setor era responsável à época por 23% do total das emissões mundiais. O que o Brasil tem feito a respeito?

Professor Márcio D’Agosto – Muito. O Brasil é o país que mais utiliza energia renovável para os transportes no mundo. Se considerarmos o uso de etanol (anidro e hidratado) e de biodiesel, estes biocombustíveis respondem por de 17% a 18% da energia consumida em transportes. Só para se fazer uma comparação, nos países que mais usam/usavam combustíveis renováveis este percentual está em 2%. A meta do IPCC para o mundo em 2030 era de 11% de uso de biocombustíveis na matriz energética dos transportes. Além disso, não se pode esquecer que a geração de energia elétrica no Brasil ainda é majoritariamente de fonte hídrica e, portanto, a transferência modal do transporte de passageiros para modos eletrificados também ajuda a reduzir a emissão de CO2. O Brasil é o país onde a gasolina automotiva tem o maior percentual de adição de etanol no mundo e isso vigora por muitos anos (muito antes de qualquer outro país pensar nisso).

No transporte de carga, o caminho que se vislumbra como mais promissor é o da transferência modal para modos de maior capacidade (como o ferroviário, aquaviário interior e o marítimo de cabotagem) e o Brasil tem trabalhado para isso também.

 ANTP – Engenheiros e profissionais da área têm consciência ou formação adequada para enfrentar problemas com a operação dos transportes, associada ao maior consumo de energia e aos impactos ao meio ambiente?  Em que seu livro pode ajudar e a quais profissionais ele é indicado?

Professor Márcio D’Agosto – A partir da minha experiência trabalhando neste tema (transporte, uso de energia e impactos ambientais) desde 1989, que se intensificou nos últimos 15 anos, verifiquei que, embora engenheiros e profissionais que atuam nas mais diferentes áreas dos transportes entendam a importância de considerar a sustentabilidade ambiental desta atividade, há uma grande dificuldade em avaliar com exatidão cada um dos desafios a serem vencidos. Confunde-se poluição atmosférica com gases de efeito estufa, biocombustíveis com combustíveis limpos, sistemas de propulsão com uso de combustíveis alternativos e a maioria dos profissionais não consegue descrever com precisão o que precisa ser feito para tornar os transportes ambientalmente sustentáveis. O Livro “Transporte, uso de energia e impactos ambientais: uma abordagem introdutória” busca justamente preencher esta lacuna, possibilitando uma formação solida e consistente aos eu leitor. É o único que conheço no Brasil e, diria até, no mundo, pois se diferencia de outras publicações pelo conteúdo didático e fácil de ler. Deveria ser uma referência obrigatória para todos que querem fazer um nivelamento sobre o tema. Ao mesmo tempo, é uma oportunidade para compartilharmos este conhecimento com toda a comunidade dos transportes.

ANTP – Como o planejamento pode tornar os transportes mais eficientes em consumo de energia?

Professor Márcio D’Agosto – No Livro “Transporte, uso de energia e impactos ambientais: uma abordagem introdutória” há um Capítulo inteiro só sobre isso (Capítulo 3). Em síntese pode se atuar no número de viagens realizadas, da extensão das viagens, no modo de transportes a ser utilizado e na tecnologia que se emprega (tecnologia de propulsão, tipo de energia etc). Sugiro que leiam o Capítulo 3, afinal são 30 páginas só sobre este tema!

ANTP – O modal rodoviário é prevalente no Brasil. Como administrar esta realidade tendo, de um lado, a necessidade de redução de emissões, e de outro a questão econômica, que prioriza o uso de combustíveis fósseis?

Professor Márcio D’Agosto – Devemos atuar em diferentes horizontes de planejamento. Para o caso dos passageiros, no longo prazo, implantar a transferência modal para modos não motorizados (bicicleta e caminhada) e para transporte de massa (ferroviário eletrificado). No médio e curto prazo, admitir o uso de tecnologias mais eficientes para a propulsão no transporte rodoviário. Ou seja, há que se considerar a necessidade de uma mudança de hábito dos usuários, desde que haja boa infraestrutura, segurança e qualidade de serviço.

Quando se refere ao transporte de carga, deve-se atuar fortemente na indução a transferência modal para modos de maior capacidade (ferroviário, aquaviário interior e marítimo de cabotagem). Poucos ganhos são esperados por implantação de tecnologias mais eficientes, em função da nossa ainda limitação de infraestrutura rodoviária.

ANTP – A Lei de Mudanças Climáticas da cidade de São Paulo (lei 14.933) entrou em vigor há mais de 6 anos, com a meta de redução de 30% nas emissões de poluentes atmosféricos nos quatro anos seguintes, até 2013. Pela lei, a frota de ônibus municipais deveria chegar a 2018 movida por combustíveis não fósseis. Até agora, no entanto, pouco foi feito, e o já feito sofreu descontinuação. São Paulo hoje está às vésperas de uma licitação dos transportes, onde não se vê a questão ambiental atendida. Como o transporte coletivo pode contribuir para a redução de emissões?

Professor Márcio D’Agosto – Na sua pergunta já se observa uma possibilidade de aprimoramento do entendimento sobre o tema, que o Livro “Transporte, uso de energia e impactos ambientais: uma abordagem introdutória” pode ajudar. Quando se refere a 30% de redução de poluentes se refere a poluentes atmosféricos (CO, HC, MP e NOx) ou gases de efeito estufa? Ou aos 2? Medidas específicas para tratar destas alternativas podem ser bem diferentes. Aqui já temos um problema básico na elaboração da legislação, possivelmente por quem não conhece o tema e poderia se beneficiar com a leitura do livro.

Ainda respondendo a sua pergunta, aqui também as estratégias são muitas:

1) Continuar investindo na ampliação da rede de metrô e trens metropolitanos e aprimorando a sua integração com os modos motorizados de menor capacidade (ônibus) e não motorizados (bicicletas e caminhada);

2) Continuar investindo na ampliação da rede de ciclovias e aprimorando a sua integração com os modos de transporte coletivos (metrô, trens, ônibus etc);

3) Ampliando a rede de trólebus (SIC) – São Paulo é uma cidade brasileira que ainda dispõe deste excelente modo de transporte, tem que ser mantido e ampliado;

4) Renovando a frota de ônibus de forma a integrar veículos mais modernos que emitam menos poluentes atmosféricos e consumam menos combustíveis;

5) Introdução contínua de ônibus elétricos (plug in). Acho que esta é uma alternativa que vai ter que ser considerada no curto prazo. É melhor dar logo o 1º passo!

6) Racionalizar o uso do automóvel particular (limitações de acesso, estacionamento etc) – difícil é o executivo ter peito para fazer isso…

Alexandre Pelegi – Editor da Revista dos Transportes Públicos da ANTP

7 comentários em Especialista defende ampliação da rede de trólebus e ciclovias em São Paulo

  1. Ah! A segurança! Como caminhar ou pedalar por aí sem correr o risco de ser assaltado, agredido, assassinado, atropelado… Seria um problema cultural? Educacional? Temos todos os problemas juntos e não podemos esperar bons exemplos daqueles que detêm o poder…

  2. sem a menor dúvida que os transportes públicos deveriam ser o exemplo de cidadania, usando combustíveis não poluentes e transportando com eficiência a população
    Mas esse não parece ser o pensamento de nossas autoridades

  3. TROLEIBUS …Só funcionam mesmo os do Corredor ABD da EMTU…OS DA METRA! Os nossos, ainda q sejam quase q 100% novos…Infelizmente não “vngam”! Pois não possuem as vias necessarias ao desenvolvimento de um bom serviço por parte de seu uso…como as tem os da METRA…Simples né!

  4. Amigos, boa noite.

    Falando em especialista; se possível, eu gostaria de saber por que os articuladinhos trucadinhos sucesso, rodam batendo lata aos Domingos ?

    Ontem eu vi alguns.

    São 1,5 milhões pra lá e 1,5 milhões pra cá (custo aproximado desse tipo de buzão), “batendo lata”.

    Ninguém em pleno juízo perfeito seja empresarial ou não; colocaria vários patrimônios nesse valor, sem receber a contra partida.

    Se “batem na lata”; qual é o valor dessa contra partida.

    Se algum especialista ou comentarista do blog, ou a consultoria que foi contratada há alguns meses atrás puder responder, eu ficaria muito contente; pois preciso sanar essa dúvida cruel.

    Afinal, pela catraca é óbvio que não é, pois não vale o risco do patrimônio circulando pelas ruas e avenidas.

    A cataraca não paga nem o óleo.

    Att,

    Paulo Gil

  5. Os ônibus em SP recebem um valor referencia, dizem que um articulado recebe R$ 1.000,00 por viagem, se fosse so pela passagem, as empresas colocariam ônibus com intervalos de 2 hora e so conseguiriamos entrar em um ônibus nos terminais com filas interminaveis, e por isso que a prefeitura paga subsidios, a finalidade do ônibus urbano e servir o cidadão, depois vem dar emprego, lucro propinas etc, a nova licitação pretende reduzi a margem de lucro, mesmo assim e uma mina de ouro .

    • Pedro, boa noite.

      Obrigado pela informação.

      Mas será que só “milzinho” dá lucro ?????

      Eu penso que é o valor é baixo, mas quem sou eu…

      Será que este valor foi publicado no Diário Oficial do Município ???

      Nessas condições é melhor catraca zero e instituir o IBz (Imposto do Buzão)
      fica tudo mais prático e assim se dá um sumiço nas catracas e naquele monte de ferro retorcido que só atrapalha e ocupa espaço.

      Valeuuuuuuu.

      Abçs,

      Paulo Gil

    • Mais recebe por passageiro segundo a licitação já informa.

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