Ônibus em São Paulo. Licitação dos transportes vai provocar mudanças em quase 30% das linhas. Número de baldeações deve aumentar. Serão criados novos itinerários.
Maior parte deve sofrer seccionamentos com aumento de baldeações. Mas onde está a infraestrutura para isso?
ADAMO BAZANI
Com a criação de três grupos de serviços e redes de transportes, quase 30% das linhas de ônibus da cidade de São Paulo vão sofrer alterações com a licitação do sistema municipal. Já 58,3% dos atuais itinerários serão mantidos. Outros 12% são referentes a linhas de ônibus da rede da madrugada. Dos quase 30% de linhas alteradas, 6% se tratam de novos trajetos.
O edital, cujas minutas foram lançadas nesta semana, prevê aproximadamente 1,2 mil linhas de ônibus. Hoje a cidade de São Paulo possui 1.386 linhas, de acordo com a SPTrans.
As maiores alterações devem se tratar de seccionamentos, ou seja, de divisão das linhas. Segundo a prefeitura de São Paulo, além de cumprir a lei que determina a concessão de serviços públicos por meio de concorrência já que os contratados assinados na licitação de 2003 estão sendo renovados de forma emergencial, um dos objetivos do novo certame é reorganizar o sistema de transportes. Com isso, a prefeitura diz que sobreposições serão eliminadas, em grandes eixos só devem circular ônibus articulados e biarticulados e serão mais numerosas as viagens, principalmente dos grupos locais de distribuição e articulação, com itinerários mais curtos.
Como resultado, a população deve ter de fazer mais baldeações para completar a viagem. Hoje um trajeto que é feito com um ou dois ônibus pode demandar entre três e quatro transferências.
Opinião – MUITAS ALTERAÇÕES E POUCOS CORREDORES:
É tendência mundial a racionalização de serviços com a redução de sobreposições e de frota. Os sistemas hoje buscam redes mais eficientes que, com menos ônibus podem atender a um número de pessoas maior ampliando também as viagens.
Para que isso ocorra, no entanto, é necessário oferecer mais velocidade para os ônibus e, neste aspecto, a ampliação da malha de corredores exclusivos é indispensável.
E este é uma das grandes dúvidas quanto ao sucesso, em curto prazo, das alterações propostas na licitação dos transportes na cidade de São Paulo.
A malha de corredores para atender aproximadamente 9 milhões de passageiros por dia (contando as integrações com o metrô e os trens da CPTM) é muito pequena: 136 quilômetros.
Por problemas financeiros, administrativos e até mesmo políticos, com as indisposições entre o prefeito Fernando Haddad e o TCM – Tribunal de Contas do Município que não tem aprovado novas obras de mobilidade, a meta até o final de 2016 de entrega de novos 150 quilômetros de corredores de ônibus está seriamente comprometida.
Desde o início da gestão, foram entregues 38 quilômetros, sendo que uma parte se trata de reformas de espaços já existentes. Há obras em outros 60 quilômetros em andamento.
De acordo com estudo divulgado pelo Instituto Embarq Brasil, com base na rede atual de linhas, hoje São Paulo deveria ter ao menos 450 quilômetros de corredores de ônibus. Com o novo modelo de linhas proposto no edital, no entanto, este número deveria ser maior ainda.
O problema de uma rede em grosso modo, tronco-alimentadora, sem corredores suficientes é que ela perde o sentido de existir.
Os ônibus troncais, de alta demanda e grande porte, como articulados, superarticulados e biarticulados, precisam chegar rapidamente as terminais onde vão ser alimentados pelos veículos menores. Caso contrário, as baldeações que vão aumentar em número, em vez de serem sinal de eficiência, podem se tornar pesadas e cansativas rotinas para os passageiros que depois de usarem um ou dois ônibus locais ainda têm de esperar por longo tempo um ônibus troncal que pode sofrer atraso por estar preso no trânsito ou mesmo em algum gargalo de um “falso corredor” da cidade. Muitos corredores atualmente na cidade se limitam a ser uma faixa quase exclusiva à direita. Quase exclusiva porque hoje nos corredores andam táxis com passageiros, carros oficiais – mesmo sem atender os quesitos para isso, e veículos de manutenção, alguns sem atender ocorrências.
Haddad repete a frase: É preciso “metronizar” os ônibus. É verdade. Material rodante tem para isso: ônibus grandes, modernos, com wi-fi, ar condicionado, monitoramento das portas pelo motorista por intermédio de câmeras no painel, etc. Mas e a estrutura do metrô? E o pré-embarque, que é o pagamento da passagem antes da chegada do veículo? E a acessibilidade das paradas, pontos e estações? Há táxis e carros de “toridades” nos trilho do metrô?
Questionamento: Até por lei, não se pode mais atrasar a licitação. Mas a remodelação das linhas não deveria ser realizada de acordo com o avanço da infraestrutura que dê velocidade aos ônibus em vez de ser jogada num papel chamado edital?
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes