CRÔNICA: Ícones das estradas ainda mostram que possuem muito fôlego para unir o Brasil

Ícones das estradas mostram ainda que têm muito fôlego para interligar o Brasil
Renovação de frota é necessária, mas pela longevidade e importância no cenário dos transportes, alguns modelos que ainda resistem bravamente deveriam ser preservados como um tributo ao setor
ADAMO BAZANI – CBN

pluma

ônibus pluma

ônibus antigo

Cheio de charme. O Marcopolo Geração Cinco da Pluma ostenta a pintura antiga de uma das mais tradicionais empresas de transportes do Brasil e o simpático letreiro de lona . Foto: Adamo Bazani.

Após a definição sobre a forma de concessão das linhas interestaduais e internacionais gerenciadas pela ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres, que desistiu da licitação por grupos e lotes depois de uma queda de braços com os empresários desde 2008, a expectativa é que a frota de ônibus rodoviários passe por um expressivo processo de renovação.
Em quatro anos, dez mil ônibus de viagem, como são popularmente chamados, devem ser substituídos, de acordo com previsão do presidente da Fabus – Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, José Antonio Fernandes Martins, que também preside o Simefre – Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários.
A notícia é muito boa, se for confirmada. Afinal, os passageiros precisam e merecem veículos mais confortáveis, seguros, modernos e menos poluentes.
Transporte é negócio quem tem sim de dar lucro e prestação de serviço que precisa ser fiscalizada com rigor para que haja qualidade.
Mas transporte também não deixa de ser paixão. Amor às vidas que diariamente fazem parte da rotina das empresas.
E existem verdadeiras máquinas potentes, charmosas e confortáveis que marcaram milhões e milhões de histórias pessoais e fatos relacionados ao país e às cidades que resistem bravamente ao tempo e continuam ativas, dando um visual nostálgico às rodovias e despertando lembranças.
São ônibus mais antigos, prestes a ser encostados ou que são usados hoje apenas como carros extras em temporadas de alta demanda, que embelezam o caminho por onde passam.
Numa destas viagens de apaixonado por estradas, me deparei com quatro destas máquinas de unir pessoas.

Expresso de Prata

Jum Buss 400P

ônibus

O Expresso de Prata, com as linhas retas do design da época do JumBuss, dava um brilho especial por onde passava. Foto: Adamo Bazani

Em Campinas, no interior de São Paulo, a tarde de 26 de dezembro de 2014, logo após o Natal, estava bem quente. A rodoviária movimentada.
O vai e vem de pessoas ao longo do dia mostrava que mesmo com o crescimento do setor aéreo, o ônibus sempre terá destaque no ir e vir do brasileiro.
Eis que quase em carreata surgem quatro ícones. Foi algo de emocionar. Não só pela beleza destes ônibus mais antigos, mas pelas lembranças que eles trouxeram. Era como se eu estivesse voltando à adolescência, quando meus pais me acompanhavam nas rodoviárias. Na verdade, até hoje eles se arriscam a matar saudades nos terminais de ônibus.
Veículos dos anos de 1990 e do início dos anos 2000 parece que davam o recado de que se os ônibus hoje atingiram um bom nível de modernidade e segurança, isso foi graças a eles e a milhões de passageiros que confiaram suas vidas e sonhos aos seus serviços.
O Scania K 113 TL, com carroceria Marcopolo Paradiso Geração 5 (hoje estamos na Geração Sete), tinha charmes especiais:o letreiro de lona, indicando seu longo percurso entre Rio de Janeiro e Foz do Iguaçu, e a pintura antiga e simples, mas muito bela, da Pluma Conforto e Turismo, uma das mais tradicionais empresas de transportes do País.
O Expresso de Prata, Scania K 124, JumBuss 400 P, trazia um brilho especial com a destacada pintura da empresa que faz jus ao nome em seu design. Sua fabricante, a Busscar, deixou de operar no ano passado após um traumático processo de falência.
De repente, surgia um modelo que pela configuração do chassi transmitida em detalhes na carroceria, mas também pelo seu ótimo desempenho e força um ar possante, de robustez. Trata-se de um Marcopolo Paradiso 1200 Geração Seis, Volvo B 10M, da Gardênia. A grade no para-choque dava a impressão que se tratava de um ônibus sisudo, parrudo, cara de mau, mas sempre disposto a servir, oferecendo conforto e abrigo.

Volvo B 10 M

Gardênia

ônibus

Imponência e força. O Volvo B 10 M da Gardência, com a pintura mais antiga da empresa, revelava que a indústria no País assumiu o papel de fazer veículos potentes à altura de um território com linhas cuja extensão são impressionantes. Foto: Adamo Bazani

Por fim, nesta carreata da memória em tempo real, surge um mais novinho, mas que tem história e logo pode deixar de operar: um Marcopolo Paradiso 1200 Geração Seis, Mercedes-Benz O 500 RSD. O modelo de três eixos também passa imponência. O exemplar do Viação Cometa remete à época da afirmação de grandes grupos empresariais no setor e lembra a compra da Expresso Brasileiro, rival histórica em diversos momentos da memória dos transportes.

ônibus

ônibus trucado

Viação Cometa

Mais novo da “carreata”, mas já nostálgico, o Paradiso de três eixos da Viação Cometa lembra da expansão de grandes grupos do setor: Foto: Adamo Bazani.

É lógico que existem pelo País afora ônibus muito mais antigos e emblemáticos que estes cruzando o Brasil não como clandestinos ou sucateados, mas em boa forma (talvez perfeita forma possa ser um exagero) nas tradicionais empresas.
Logo, eles vão se aposentar. E devem mesmo, afinal, remetendo ao início do texto, transporte é negócio e o cliente, no caso o passageiro, precisa ser conquistado com o que há de melhor.
Conservar um ônibus antigo como acervo também não é fácil e barato. Mas há modelos que merecem o esforço. Se resistiram tanto tempo em plena serventia, por que não dar este presente à memória dos transportes?
Um presente, é necessário destacar, não só para apaixonados pelo setor, mas a todos que de alguma maneira podem relembrar de fatos gerais ou pessoais ao verem estas máquinas.
Quando cheguei em casa e mostrei as fotos para minha mãe, uma grande apoiadora deste gosto mas que não entende nada de modelos, a imagem do Pluma foi recompensadora:
“Nossa filho, eu lembro deste Pluma quando a gente ia no Tietê (Terminal Rodoviário do Tietê).” – disse ela, o que deu margem para um final de noite de longa prosa sobre as lembranças da família.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes

12 comentários em CRÔNICA: Ícones das estradas ainda mostram que possuem muito fôlego para unir o Brasil

  1. Amigos, bom dia.

    Adamo, essa materia e para fechar o ano com chave de ouro, eu ja estava sentinfo falta de uma matetia sobre o buzao em si.

    Noosa quantos detslhes no Jumbuss da.Prata, realmente todos possantes.

    Mas o que eu gosto e Paradiso 1200, nao tanto pelo designe, mas pelo fato da ultima roda traseiraficar a +/- 1,00 metros antes do final da carroceria, parece buzao dos EUA e dar um chsrmd diferente so buzao, parecendo muiyo longo.

    Parabens pela materia e pela emocao transmitida.
    Att,

    Paulo Gil
    “Buzao e Emocao e a Paixao”

  2. Vagner "Ligeiro" Abreu // 28 de dezembro de 2014 às 16:18 // Responder

    Peço licença para um comentário. 🙂

    Eu penso sinceramente que seria interessante um ajuste na lei de renovação de frota, de forma que seja vantajoso a uma empresa ou mantenedor de transporte, a manutenção de um veículo mais antigo na frota para operação em operações especiais ou de alta demanda, como agora.

    Noto que se bem cuidado e com a manutenção em dia, um ônibus pode ter uma vida útil altíssima. Lembremos que os famosos “Flechas de Prata” da Cometa ainda circulam até hoje como veículos de segunda mão em empresas menores ou particulares que fretam os veículos. Muitos deles, nas mãos de bons mantenedores, com veículos em realmente bom estado. Se pensar que muitos destes veículos literalmente “rodam o Brasil”, imaginem quantos quilômetros enfrentaram.

    Basta lembrar também que a Cometa reformou um Flecha de Prata em comemoração ao aniversário da empresa no ano passado, e foi um tremendo destaque para a própria – não sei o destino atual deste veículo.

    Salvo engano, a vida útil máxima prevista em lei é de 5 anos para veículos de linha. E também existe um motivo racional para isso: veículos atuais tem tecnologias atuais, estruturas revisadas (tá, algumas nem tanto), possibilidade maior de segurança. Veículos antigos não tem tanta tecnologia. Depende mais da habilidade do condutor em conduzir o veículo de forma segura, inteligente e eficiente. Só que infelizmente, basta ver nas estradas (e noticiários) que ainda há acidentes por falhas do motorista, e falhas do ônibus também, estes rodando 10 anos, e necessitando de uma manutenção minuciosa.

    O que acharia interessante seria estudar se é possível uma carroceria antiga ganhar tecnologias novas. Talvez isso seria legal tanto para agradar os nostálgicos (e busólogos) quanto para ficar mais barato para a empresa a implantação de uma frota atualizada.

  3. Espero que destes 10 mil ônibus que serão substituidos a maioria seja Marcopolo, Comil, Irizar, Caio, Neobus e nenhum mascarello

  4. Roberto Carlos Camargo // 28 de dezembro de 2014 às 22:56 // Responder

    Confesso que ando ausente neste espaço, mas não perco ele de modo algum, pois sempre que possível o Adamo nos contempla com um belíssimo texto como esse que nos faz refletir muito sobre nosso hobby e também sobre história do ônibus brasileiro.

  5. Os carros mais antigos eram bem melhores no quesito caroceria pois temos muitos e muitos CMA flecha azul, Estrelão, Busscar : Jumbuss,Panorâmidco DD,Elbuss, Marcopolo Viaddio, a
    paradiso geração 4 e 5 Andare, Comil Condottiere galegiante.. Neielson Diplomata 350,380 firmes e fortes fora os monoblocos O-400,O-371R,RS,RSD,O-370R tecnobus enfim hoje a qualidade virou lixo muito pela falência da Busscar que fazia ônibus com qualidade hoje a marcopolo reinando praticamente sozinha faz de qualquer jeito pois sabe que a concorrência não tem uma escala de produção tão grande ainda temos esperanças que irizar comil,mascarello, maxibus ainda possam competir de frente com a marcopolo trazendo assim mais qualidade para as carrocerias fabricadas sabemos que o mercado de chassi é sem novidades sempre a cargo das 3 maiores MB,Scania e Volvo Volkswagen apesar de ter melhorado muito ainda não tem um produto a altura das dimensões do nosso país Agrale e iveco ainda tem uma grande caminhada pela frente somente o tempo irá nos mostrar mas acho um absurdo alguns estados limitarem a 10, 15 anos a vida util de um veiculo rodoviário….

    • Jackson, bom dia.

      O problema e que na atualidade, prevalece o custo ao inves da qualidade, incluinfo ai o troca peca, igual a manutencao de computador.

      Se voce comparar, qualquer carto de passeio de 2000, tem qualidade bem melhor do que os 2014, hoje ate a bateria depois de 2,5 anos (no macimk), ela simplesmente morrer e somos obrigados a trocs-la.

      E esse modelo, tsmbem esta sendo aplicado nos buzoes, o que em trrmos de custo inviabiliza a conservacao, como sugeriu o Vagner no comentario acima.

      E a tecnica da laranja, usa-se ate ficar no bagaco depois pode jogar fora.

      E a unica forma da industria vontinuar produzinfo, pois com essa evonomia e produtos duraveis, as fabricas ja teriam fslido.

      Abcs,

      Paulo Gil

  6. Evaristo H. Ferreira // 29 de dezembro de 2014 às 00:26 // Responder

    Caro Adamo.
    Parabéns pela matéria. A crônica está realmente emocionante.
    Concordo com os comentários. A lei pode permitir viagens de veículos mais antigos. Basta boa vontade e que os mesmos sejam submetidos a vistorias(sérias). Estes veículos podem rodar em época de baixa temporada, quando o movimento é menor nas estradas.
    Um abraço.
    Obrigado pelo espaço e um feliz 2015 para todos.

  7. Particularmente não gosto do G6 da Marcopolo pois acho que ele tem um problema crônico de exaustão do banheiro do ônibus, coisa que parece que melhorou no G7. Acharia legal se além da Mercedes, Scania e Volvo tivéssemos ônibus rodoviários da Man (Volkswagen) e da Iveco, todos com potencia de 340 a 450 cavalos. Os ônibus deveriam ter também uma tecnologia de rastreamento e de transmissão de vídeo em tempo real para sala de controle que identificasse imediatamente quando ele estiver parado na estrada ou fosse desviado da rota. Isso iria inibir assaltos e permitir socorro imediato em caso de acidentes ou quebras.

    • Vagner "Ligeiro" Abreu // 1 de Janeiro de 2015 às 21:44 // Responder

      Tecnologias de transmissão de vídeo em tempo real ainda é um pouco caro para ter e manter. Isso falando de veículos, como ônibus e trens.

      Explica-se: a transmissão de vídeo seria via internet, e isso consome dados. Muitos dados. Isso fica caro para trabalhar em um sistema de monitoramento. Me lembro uma vez que visitei a CPTM, e diziam que o problema era justamente como transmitir vídeo em um veículo rápido, e de forma barata.

      Fora o fato que teria que ter um grande videowall com todos os veículos em uma central. Isso é meio “dureza”.

      Salvo engano, e isso acho que poderia ser alvo de uma matéria do Adamo, a ANTT estava com um projeto para ser implantado em ônibus brasileiros, que enviaria em tempo real a sua situação; transmitindo informações como número de passageiros transportados, posição atual (GPS), velocidade (isso para poder fiscalizar os limites), etc…

  8. outro modelo que não sai do mais do estado de MG que merece ser citado eh o JUMBUSS 360 VOLVO B12 da Gontijo.Chegou na empresa na época que foi lançado no inicio dos anos 90 e ficou na empresa e hoje faz somente linhas dentro do estado de MG ainda mais pq a empresa somente disponibiliza para fora do estado onibus executivos com ar condicionado.

    • Daniel, bom dia.

      Essa e a realidade no interior dos estados, ja vi isso no Mato Grosso, na divisa com o estafo de Sao Paulo.

      Os buzoes lindoes, saem do uso em grandes capitais, mas serao usados ate acabar em linhas regionais.

      Interessante essa permissao por parte da ANTT, no mundao de meu Deus, qualquer buzao serve.

      Abcs,

      Paulo Gil

  9. Boa noite ADAMO

    Mundo afora há vários Museus do Transporte, alguns melhor aparelhados, outros nem tanto, alguns com publicações e souvenirs à vontade para comprar (como o LONDON TRANSPORT MUSEUM), alguns sem nada. Porém, o que importa é q Memória do Transportes, não só em catálogos, fotos, jornais, livros e revistas, mas também como os veículos físicos, quer sejam de característica rodoviária ou urbana. Entendo que no BRASIL deveria haver alguns museus dessa classe, pois o país é muito grande e carece de iniciativas iguais a essa. Mesmo museus particulares, são poucos e nem sempre abertos ao grande público, quer seja pesquisador, colecionador, observador ou até mesmo por pura curiosidade. Voltando-se especificamente à descrição das pinturas, é uma judiação padronizá-las ao modo estatal de ver a existência, determinando ao povo o que ele deve ver em termos de design e cores, ao invés de ser uma escolha do empresário para manter sua frota viva perante os olhos dos passageiros, os grandes escolhedores do transporte a ser buscado.

    Parabéns pela matéria.

    Saudações.

    MARIO CUSTÓDIO.

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