Trem da SuperVia. Levantamento da ANTPTrilhos revela que a idade avançada da frota dos 4 mil trens do Brasil representa um peso significativo de consumo de energia elétrica, o que acaba elevando o valor das tarifas e impossibilitando melhorias nos sistemas. Além de expansão, os serviços ferroviários de passageiros precisam de uma modernização urgente, aponta entidade. Foto: WillyBus
Trens antigos brasileiros consomem mais energia, diz ANPTrilhos
Levantamento mostra que além de expansão dos serviços metroverroviários, modernização é uma atitude inteligente do ponto de vista econômico
ADAMO BAZANI – CBN
Com Valor Econômico
Os serviços de trens e metrô no Brasil não só precisam ser expandidos, mas modernizados.
É o que mostra um levantamento da ANPTrilhos – Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos.
Além de representarem mais riscos de panes e não oferecerem maior conforto aos passageiros, os trens suburbanos e metrôs mais antigos geram custos maiores de manutenção e também consomem mais energia elétrica.
De acordo com a ANPTrilhos aproximadamente metade dos 4 mil trens e metrôs que formam a frota brasileira foram fabricados entre os anos de 1970 e 1980. Essa frota consome em média 30% mais energia elétrica que os modelos novos ou modernizados.
A SuperVia, no Rio de Janeiro, possui modelos da Mafersa, fabricados em 1978. De acordo com a Associação é hoje o modelo em operação que consome mais energia elétrica em todo o mundo. São 40 toneladas tracionadas por um sistema considerado antigo, o de corrente contínua.
As ferrovias no Brasil são pequenas em relação à malha atendida, mas possuem um peso significativo quando o assunto é o impacto no sistema elétrico nacional. Os trens brasileiros consomem 0,5% de toda a energia elétrica produzida no Brasil. Parece pouco, mas é um número nada desprezível se for levada em consideração a extensão da malha e a quantidade de outros setores que também demandam energia elétrica.
A energia elétrica significa 25% dos custos totais da SuperVia, no Rio de Janeiro, e 16% dos gastos mensais da CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, de São Paulo.
É claro que num primeiro momento pode não parecer alarmante se for levada em consideração a quantidade de pessoas que os trens e metrôs atendem e também se considerados os benefícios ambientais ao não emitir poluição atmosférica durante a operação.
Mas a questão é que se a ferrovia recebesse os investimentos que merece estes custos com energia elétrica seriam menores e o dinheiro economizado poderia ser revertido em melhores serviços e até ampliação do total de vias férreas existentes, além claro, de poderem auxiliar em tarifas mais baixas para os passageiros.
Soma-se ao fato de os trens serem antigos, a forma de tributação da energia elétrica sobre o transporte público.
Hoje trens, metrôs e trólebus pagam praticamente o mesmo percentual que uma pessoa que abusa no tempo do banho nos horários de pico de consumo.
Desde 2008, está em tramitação no Congresso projeto do deputado Carlos Zarattini para que a energia elétrica consumida pelas empresas de transporte seja taxada da mesma forma que as concessionárias de água fria. Com isso, os custos das transportadoras de passageiros poderiam cair entre 5% e 10%.
Só isso poderia reduzir em 20 centavos o valor da tarifa.
Para isso, no entanto, o Governo Federal deveria compensar as empresas geradoras de energia com R$ 300 milhões a R$ 400 milhões por ano.
Para reduzir o IPI dos automóveis, só no ano passado, o Governo Federal arcou com uma renúncia fiscal de R$ 11 bilhões. A venda maior dos veículos não cobriu esta renúncia, de acordo com o Ministério da Fazenda. Mas este incentivo ao setor metroferroviário não tem sido bem visto pela equipe econômica da presidente Dilma Rousseff.
Uma das sugestões da ANPTrilhos, para minimizar os custos para o Governo e ao mesmo tempo para as transportadoras é usar estes valores para, em vez de reduzir a conta de energia num primeiro momento, financiar a troca de motores dos trens, da sinalização das vias e modernizar a frota num prazo de 10 anos.
Os custos seriam de R$ 2,8 bilhões neste período, com a vantagem, no entanto, de estarem em circulação composições que consumam menos energia e mais modernas.
No final das contas, poderia valer tanto a pena quanto mudar a forma de tributação, já que não haveria apenas desconto para as transportadoras de passageiros, mas uma economia real.
Ainda de acordo com a ANPTrilhos, há 60 projetos de trens de passageiros anunciados em todo o País. Mas até 2020, no máximo 22 devem ficar prontos.
O presidente da ANPTrilhos, Joubert Flores, que também preside a SuperVia, disse ao Jornal Valor Econômico, no entanto, que antes de se pensar em projetos, é necessário ver o momento, que não é nada bom.
Segundo ele, não há recursos disponíveis para melhorar os sistemas já existentes, que em todo o País, atendem a 9 milhões de pessoas por dia. Número muito pequeno se for levada em consideração a população urbana no Brasil, aproximadamente 162 milhões de pessoas, representando 84,35% dos habitantes em todo o País. Já de acordo com a NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, “os ônibus atendem atualmente a cerca de 87% da demanda de viagens nas cidades brasileiras. São 1.800 empresas operando uma frota de 107 mil ônibus que estão presentes em 3.311 municípios no país, transportando diariamente 40 milhões de passageiros.”
“Reduzir as tarifas não vai levar os passageiros a ter o que pediram durante os protestos: melhor qualidade do serviço. Para isso, são necessários investimentos que, hoje, não podem ser feitos com os recursos das tarifas”, disse.
Outro benefício, segundo ele na entrevista, seria incentivar a indústria ferroviária nacional.
Investir em ferrovia, no entanto, não significa reduzir a importância dos ônibus, que conseguem chegar onde os trilhos dificilmente alcançariam, por questões técnicas e econômicas.
Além disso, um sistema de ferrovia não consegue atender sozinho a população com as características das cidades brasileiras.
Um bom sistema de trens e metrô, diante da realidade econômica, social e geográfica do País, só é possível a partir de um bom serviço de ônibus, de maneira integrada.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes
Com Valor Econômico