
Ônibus da Express Transportes Urbanos Ltda na zona Leste de São Paulo. Mais uma vez a velha prática de mudança de nomes de empresas para que viações problemáticas continuem operando pode ter sido realizada na região. A empresa tem os mesmos sócios que fizeram parte da descredenciada Itaquera-Brasil, que também controlavam a Expresso Cidade Tiradentes, e funciona no mesmo endereço.
Área Leste 4: de novo, só mudam os nomes
Itaquera Brasil, antiga Novo Horizonte, foi descredenciada. Agora é a Express Transportes Urbanos, com os mesmos integrantes da diretora das antigas.
ADAMO BAZANI – CBN
Tempo vai, tempo vem, aparecem nomes novos e diferentes, mas os serviços de transporte coletivo na Zona Leste de São Paulo continuam iguais: ruins e controlados pelos mesmos grupos, que já foram investigados por confusão jurídica, desvio de dinheiro e má operação dos ônibus da região.
Passageiros mais atentos da Área 4, pesquisadores, admiradores e profissionais dos transportes já perceberam a mudança de nome, mas não de qualidade, o que pode ser verificado pelo número de reclamações ouvidas de quem depende do atendimento na região e nas redes sociais como Twitter e Facebook.
Uma “nova” empresa desde o início deste ano presta serviços na área correspondente ao Consórcio Leste 4, a que tem ônibus de cor vermelha.
O nome é Express Transportes Urbanos Ltda cujos veículos levam os prefixos “4 4…”
Mas uma rápida pesquisa na Junta Comercial de São Paulo mostra que de nova, a empresa parece não ter muita coisa.
Integrantes da diretoria da “nova empresa” compunham o quadro societário da Empresa de Transportes Itaquera Brasil S.A.
A Itaquera Brasil foi retirada do sistema de São Paulo em 11 de outubro de 2013 por má prestação de serviços e após sucessivas greves de trabalhadores.
Somente entre janeiro de 2013 e o dia do descredenciamento, a Itaquera Brasil, que operava 21 linhas na zona Leste, recebeu 11 mil e 38 multas por mau atendimento.
Ocorre que a Itaquera Brasil é um nome criado em 17 de janeiro de 2013. Antes ela se chamava Empresa de Transportes Coletivos Novo Horizonte, constituída em 04 de janeiro de 2007.
Todo o sistema municipal de São Paulo foi licitado em 2003, menos o da área do Consórcio Leste 4, cuja licitação é de 2007.
A Novo Horizonte (depois Itaquera Brasil) tem como origem cooperativas do sistema de transportes, grande reduto eleitoral da família Tatto, que hoje tem na vida pública da cidade o vereador Arselino Tatto, do PT, e o irmão dele, Jilmar Tatto, secretário de transportes da atual gestão, do prefeito Fernando Haddad, e que ocupou a mesma pasta em 2003, quando Marta Suplicy esteve à frente do executivo municipal.
Matéria de 07 de dezembro de 2007 da Revista Época São Paulo, sobre o que é chamado de “Tattolândia” devido à influência da família na cidade, com as bênçãos do ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva, trazia mais uma vez os indícios de ligações entre Jilmar Tatto e as cooperativas de São Paulo, inclusive as que deram origem à Novo Horizonte – Itaquera Brasil.
“Como secretário de Transportes, Jilmar implantou o Bilhete Único e tirou as vans de transporte de passageiros da clandestinidade para organizá-las em cooperativas. Por seu relacionamento com os motoristas de vans, Jilmar é investigado pelo Ministério Público paulista. Ele é acusado de ter interferido para ajudar uma cooperativa vinculada à facção criminosa que controla os presídios paulistas. “É um negócio kafkiano”, diz Jilmar. “Enfrentei aquele caos, fui ameaçado de morte e ainda fui acusado de um negócio absurdo.”
A matéria completa pode ser conferida copiando e colando o link no navegador – pela extensão não é possível abrir diretamente:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG80486-6009,00-A+ASCENSAO+DA+TATTOLANDIA.html
DA ORIGEM EM COOPERATIVAS À INQUÉRITO DO MINISTÉRIO PÚBLICO:
A Novo Horizonte, que depois se transformou em Itaquera Brasil, foi alvo junto com outras empresas do Consórcio Leste 4 de uma ação civil pública movida pelo promotor de Justiça do Patrimônio Público e Social, Saad Mazloum.
As investigações do promotor sobre o Consórcio Leste 4 começaram em 2008, depois que ele abriu um blog para receber denúncias sobre os maus serviços de transportes.
Mas não foram apenas problemas operacionais que o promotor encontrou: confusão jurídica e transferências não autorizadas de recursos entre a Novo Horizonte e a Cooperativa Nova Aliança, dilapidação dos bens das empresas e suspeitas de enriquecimento por parte de diretores, e até uma empresa de ônibus que recebia repasses mesmo sem ter nenhum ônibus à época, Happy Play Tour Passagens, Turismo e Transportes de Passageiros Ltda fizeram parte das conclusões das investigações, presentes na ação.
Os bens dos diretores das empresas chegaram a ser bloqueados em 13 de fevereiro de 2012. Os acusados conseguiram o desbloqueio na justiça em 29 de setembro de 2012.
Depois disso, a próxima movimentação na Junta Comercial de São Paulo, em 17 de janeiro de 2013, foi a alteração do nome de Novo Horizonte para Itaquera Brasil.
Segundo especialistas em direito, a mudança de nome de uma empresa é uma forma de o grupo controlador continuar mantendo contrato com o poder público e deixar para a “antiga companhia” os problemas trabalhistas e fiscais. Tais pendências impediriam a empresa de prestar serviços, mas a legislação dá esta brecha: “novo nome, nova empresa”, apesar de sócios, garagens, funcionários e ônibus continuarem sendo os mesmos.
Outra prática comum é a inclusão de novos sócios ao grupo empresarial.
E é aí que começam as ligações entre Novo Horizonte – Itaquera Brasil e a Express Transportes Urbanos Ltda, que na verdade é um novíssimo nome.
Novíssimo porque quando a empresa foi constituída em 10 de setembro de 2013 se chamava Express Brasil Transportes Urbanos Ltda. O nome Express Transportes Urbanos (sem o Brasil) foi criado em 06 de novembro de 2013, após o descredenciamento da Itaquera Brasil em outubro.
Nomes como de Gerson Adolfo Sinzinger e Vilson Ferrari, que foram diretores das cooperativas e posteriormente da Novo Horizonte – Itaquera Brasil, estavam extremamente desgastados.
Mas os novos diretores da Itaquera Brasil são as mesmas pessoas que hoje respondem pela Express Transportes Urbanos.
Ainda de acordo com a Junta Comercial de São Paulo, em 07 de março de 2013, mesmo sem operar, entravam na Itaquera-Brasil: Ângela Roberta da Silva Agoston que foi eleita diretora-presidente. Vanessa Rodrigues da Silva era eleita diretora financeira, Agnaldo Dias Gomes passou a ocupar o cargo de diretor operacional e Raquel Padovan Alves Fazenda assumia a diretoria.
Diante da situação da Itaquera Brasil, descredenciada e cheia de dívidas trabalhistas, com bancos e fornecedores, em 17 de setembro de 2013 todos estes novos diretores renunciaram.
Dias antes, porém, Ângela Roberta da Silva Agoston, Vanessa Rodrigues da Silva, Agnaldo Dias Gomes, Raquel Padovan Alves Fazenda, em 10 de setembro, faziam parte da constituição da Express Brasil Transportes Urbanos Ltda.
Ainda de acordo com a Junta Comercial de São Paulo, em 05 de setembro de 2011, a então Novo Horizonte, depois Itaquera Brasil, teve o endereço da sede alterado para a Rua Jaime Ribeiro Wright, 1000 – Jardim Colônia. Exatamente o mesmo endereço da Express hoje.
Atualmente apenas Raquel Padovan Alves Fazenda não faz mais parte da sociedade na empresa. Ela se retirou em 16 de janeiro de 2014.
Apesar de ser declarada uma nova empresa, mesmo com alguns sócios que eram da Itaquera-Brasil, funcionários da companhia garantem: os antigos controladores, inclusive os que tiveram envolvidos na ação civil pública, ainda têm influência nos transportes da região.
Ninguém da diretoria da empresa foi localizado para comentar o assunto.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.