Viação Cometa 65 anos: Uma máquina do tempo, uma nave dos sonhos

Cometa 65 anos Flecha Azul
Uma máquina que viaja pelo tempo e pelos sonhos. Assim pode ser descrito o Flecha Azul restaurado pelos 65 anos da Viação Cometa. Foto: Adamo Bazani
Viação Cometa 65 anos Flecha Azul
Há momentos que só a estrada pode proporcionar. A viagem faz parte da vida, do instinto do homem e o motorista é o grande ator neste espetáculo de desenvolvimento tanto economicamente como no dia a dia de cada um. Foto: Adamo Bazani

Uma máquina do tempo, uma nave dos sonhos
Viagem em ônibus restaurado para as comemorações dos 65 anos da Viação Cometa é mais que um deslocamento pelo espaço, mas também pelo tempo e pela magia das estradas
ADAMO BAZANI – CBN

Viação Cometa 65 anos Flecha Azul
Da esquerda para a direita: o entusiasta André, o motorista Ricieli Antunes, o presidente do Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro, Antônio Kaio Castro, o repórter Adamo Bazani e o gerente da filial da Cometa de Juiz de Fora, Bruno Silva. Foto: Sacramento

A sensação é única: sentir-se viajando pelo passado, mas pela janela visualizando o presente e tendo uma noção de como pode ser o futuro.
Sem sombra de dúvida, o Flecha Azul restaurado para comemorar os 65 anos da Viação Cometa é uma máquina que concilia estes três tempos aparentemente tão distintos, mas também tão ligados.
A paisagem no caminho entre São Paulo (SP) e Juiz de Fora (MG) também deixava claro este contraste temporal: grandes indústrias (muitas sendo construídas inclusive), antenas enormes de telefonia celular e grandes obras viárias convivem com plantações, rios, rebanhos, casas simples, pequenas igrejas e uma ferrovia que já foi marcada pelo transporte de pessoas.

O modelo Flecha Azul foi produzido a partir de 1983 pela CMA – Companhia Manufatureira Auxiliar, encarroçadora que pertencia à própria Viação Cometa. O ônibus é um clássico das estradas e reconhecido até por quem nunca demonstrou interesse aparente pelos imponentes veículos pesados.
Tamanho é seu status de clássico que pela viagem era possível perceber olhares admirados e muitos marcados pela saudade. E detalhe, esta reação vinha de todo tipo de pessoa que contemplava o veículo e não apenas de profissionais do setor e dos busólogos, nome popular que é dado às pessoas que gostam, entendem e pesquisam sobre o fascinante e abrangente mundo do ônibus.
Na máquina do tempo, passageiros de todos os tipos. Havia aqueles, como este repórter, que viajavam somente por causa do ônibus.
Outros estavam em seus deslocamentos normais, mas também não deixavam de admirar a beleza do veículo e seu ar saudosista, inspirado no norte-americano GM PD 4104, o Coach, apelidado aqui no Brasil de Morubixaba, importado pela Cometa em 1954.
Morubixaba é o nome dado ao líder da tribo indígena. E o Morubixaba fez a Cometa liderar.

Viação Cometa 65 anos Flecha Azul
Lataria do Flecha restaurado para comemoras os 65 anos de história da Viação Cometa foi revestida e polida de maneira especial. Mas o brilho verdadeiro desta máquina está em sua memória e pelo fato de ter participado da história de milhões de pessoas ao longo das décadas. Foto: Adamo Bazani

A história da Viação Cometa ajuda entender vários fatos que marcaram o País e até mudaram seus rumos.
A Cometa nos conta como a metrópole São Paulo cresceu. Seu fundador, o major italiano Tito Masciolli, criou a Auto Viação Jabaquara (precursora da Cometa) para ligar em 1943 o loteamento do bairro do Jabaquara até a região central de São Paulo.
A Cometa conta também sobre a reorganização dos transportes em São Paulo, fruto do crescimento populacional da cidade. Em 1947, a recém criada CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos encampou várias linhas da capital, inclusive os serviços da Auto Viação Jabaquara.
A Cometa relata como é importante viver e lutar por um sonho. O major Tito Masciolli não desistiu do setor de transportes, e no mesmo ano que teve a Jabaquara encampada, comprou uma empresa de ônibus chamada São Paulo – Santos. Em 1948, o nome foi mudado para Cometa. Também conta o sonho e perseverança do empresário Jelson da Costa Antunes, criador do Grupo JCA, que controla a Cometa desde o início dos anos 2000. Jelson, nos anos de 1960, um empresário de ônibus de porte pequeno na época admirava os diferenciados ônibus da Cometa e disse que um dia teria a empresa, que já era uma potência. Um sonho que parecia ser impossível, mas se tornou realidade.
A Viação Cometa fala um pouquinho da Segunda Guerra Mundial e seus efeitos sobre os imigrantes no Brasil italianos, japoneses e alemães. Apesar de não terem nada a ver com o conflito, muitos sofreram algumas restrições no país, como dificuldades de negócios e crédito. Surge então a figura de João Havellange, que já presidiu a FIFA (entidade máxima mundial do futebol). Havelange foi colocado como sócio, o que facilitou os negócios para a empresa continuar operando.
Quer saber sobre o desenvolvimentismo da era de Juscelino Kubitscheck, época de incentivo à indústria nacional? A Cometa também conta. Foi por causa desta política que surgiu o Flecha, inicialmente chamado de Dinossauro, quando era produzido pela Ciferal.
O Morubixaba, com seu imponente estilo norte-americano, acabou virando a cara da Cometa. Mas com o incentivo à indústria no Brasil, importar mais ônibus se tornou algo praticamente impossível. A Cometa se tornou líder do disputadíssimo trajeto Rio São Paulo com estes ônibus e deveria manter o padrão.
Assim, a empresa trouxe todas as inovações deste modelo para a indústria, um passo de desenvolvimento para as fabricantes, com o objetivo de criar um ônibus semelhante. Parcerias foram feitas como com a Striulli, que tinha licença da GM norte-americana para fabricar ônibus com design do GMPD 4104, Morubixaba. Depois a parceria foi com a Ciferal, que criou modelos como o Ciferal Papo Amarelo, o Ciferal Turbo Jumbo até em 1972 lançar o Dinossauro, que trazia o design robusto norte americano e mais novidades quanto a conforto e segurança.
Quer saber de pessoas emblemáticas da história do Brasil. A Cometa também mostra, como a de Leonel Brizola, cuja influência política foi tão grande que foi criado o termo “brizolismo”.
A CMA, encarroçadora Cometa, foi criada em 1983 para dar continuidade à produção do Dinossauro, mas o nome não poderia ser o mesmo por questões de direito, surgindo Flecha, dada sua velocidade e imponência na estrada. Em 1982, a Ciferal faliu, por problemas administrativos e principalmente depois de ter um pedido de 2 mil trólebus cancelado pela empresa pública de transportes CMTC. Acontece que o cancelamento ocorreu após a Ciferal já ter adquirido maquinários e matéria prima. A encarroçadora se endividou e faliu. Ela só não deixou de existir e milhares de empregos não foram extintos graças a Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro, que decidiu assumir e estatizar a empresa. Algo inimaginável para o neoliberalismo. Na segunda metade dos anos de 1980, a empresa começava a voltar para a iniciativa privada e desde 1999 foi assumida pela encarroçadora Marcopolo.
Todas estas histórias foram contadas pelos entusiastas e busólogos para os demais passageiros , que mostravam admiração e reconheciam a importância da Viação Cometa.

Viação Cometa 65 anos Flecha Azul
A viagem foi uma festa à parte, com direito até a recepção de rodomoça. Na foto, repórter Adamo Bazani, a funcionária da Cometa Adriana, e o presidente do Primeiro Clube do ônibus Antigo Brasileiro. Foto: Amigos Colecionadores e Entusiastas

Ao transportar vidas e integrar pessoas, o ônibus não deixa de ser uma nave de sonhos. Para muitos, em si, o ônibus é parte do próprio sonho.
Quem conseguiu tornar este sonho em realidade foi o motorista Ricieli Antunes, que conduziu a nave da estrada, o Flecha, na viagem especial.
Seu traje também remetia a um dos momentos gloriosos do transporte de passageiros, quando os motoristas dirigiam com camisas alinhadas, gravata e o famoso quepe.
Os óculos escuros grandes, uma das marcas dos motoristas da Cometa, também não podiam faltar.
Ricieli contou que dirigir é sua dádiva, o seu dom, sua maneira de atender e servir ao próximo. E novamente estar no comando de um Flecha, veículo no qual ele trabalhou bastante em linhas da Cometa, é emocionante.
E quando se fala em emoção pela história dos transportes e identificação das pessoas ao verem os veículos antigos, Antônio Kaio Castro é especialista.
Ele é fundador do Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro, que todos os anos realiza no Memorial da Améria Latina,Barra Fudna – SP, a” VVR – Viver, Ver e Rever”, uma exposição de ônibus e caminhões antigos, que faz parte do calendário oficial de turismo e de eventos do Estado de São Paulo.
Kaio participou da viagem e também passeou pelo tempo. Ele tem uma expectativa.
“Este modelo de ônibus faz parte da história de muitas pessoas. Muitos ao verem o veículo, lembram de seu passado, sua infância, sua família. As viagens são em homenagem à história, mas elas também ficam para a história. Quantas pessoas daqui a alguns anos vão se relembrar dos momentos vividos dentro do Flecha restaurado. Gostaria muito que a Cometa participasse da VVR com esta prova viva do desenvolvimento do setor rodoviário” – conta Kaio.
A exposição VVR, que reúne ônibus e caminhões fabricados desde os anos de 1920, neste ano de 2013 vai ser realizada nos dias 9 e 10 de novembro, com entrada gratuita, sendo uma boa opção de programa diferente, até para quem não tem tanta intimidade com a história do ir e vir das pessoas e de cargas.
O ÔNIBUS E O REPÓRTER:

Viação Cometa 65 anos Flecha Azul
A Cometa faz parte de várias histórias. Seus ônibus despertavam paixão e transportavam sonhos. A imponência de seus veículos fez com a paixão por transporte, existente desde pequeno, ganhasse mais força. Foto: Wilson Bazani
Viação Cometa 65 anos Flecha Azul
O encontro do passado com o presente e a visão para o futuro. Entre os ônibus da atualidade o Flecha Azul se destacava no Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, e mostra que se os transportes evoluíram, é porque milhões de quilômetros foram percorridos por profissionais do setor e o personagem mais importante: o ilustre senhor passageiro. Foto: Antônio Kaio Castro.

As viagens em comemoração aos 65 anos da Viação Cometa, no imponente Flecha Azul, que foi restaurado pela empresa, são provas de como os transportes fazem parte da vida das pessoas e de como as companhias de ônibus, veículos e motoristas ficam nas memórias, até mesmo de quem aparentemente não se interessa muito pelo setor e pelos gigantes da estrada.
Por onde o Flecha passava, os olhares ficavam atentos e saudosos.
Os passageiros que não eram admiradores de ônibus também se encantavam e aos poucos, ao verem o veículo, lembravam de suas famílias, seus passeios e suas conquistas.
Para quem tem os ônibus como uma verdadeira devoção, já que o transporte é apaixonante, estes sentimentos fazem o coração acelerar.
É o meu caso. O primeiro contato com o fascinante mundo do ônibus se deu na rua de casa mesmo, em Santo André, com os ônibus urbanos da Viação Padroeira do Brasil. Seus veículos modelo Caio Gabriela e Marcopolo San Remo paravam perto de onde eu morava e causavam uma admiração que só mesmo algo explica: a paixão.
Mas foi depois de ver um Flecha Azul da Cometa, com apenas três anos de idade, que mente e coração não tiveram dívidas: o ônibus era algo especial para mim.
O primeiro contato com o Cometa foi na rodoviária de Santos, no Litoral Paulista.
Eu não sabia o que era Flecha, Scania e até então, nem Cometa. Mas a imponência do ônibus, seu estilo diferenciado dos outros e até a postura do motorista foram notados ainda quando eu era uma criança.
O pedido para viajar nele não demorou e meu pai, Wilson Bazani, não teve dúvidas em atendê-lo na semana seguinte, numa viagem para Campinas.
Ele sempre foi metalúrgico, não trabalhava em transportes. Mas com a sensibilidade de pai via o brilho nos meus olhos e respeitava e incentiva os gostos. Junto com minha mãe, Ada Alonso Justo Bazani, tínhamos um programa aos finais de semana: ir às rodoviárias. E o Cometa era a majestade em meio a tantos outros ônibus também fascinantes.
Até minha tia, Miriam Justo, morar em Mairinque, região de Sorocaba, interior de São Paulo, quando usávamos os serviços da empresa, o destino das viagens eram simplesmente, os ônibus.
Pegávamos o Cometa apenas para andarmos de Cometa.
Ainda com três anos de idade, ganhei minha primeira miniatura de ônibus. E adivinhem: era um Viação Cometa, da Brinquedos Rei, que meu pai comprou na Cooperativa do ABC, um mercado que não existe mais, também em Santo André.
Ocorre que esta miniatura está intacta ainda e é guardada com carinho. Hoje, estou com 34 anos de idade. Esta réplica da Cometa então está com 31 anos.
Quando vejo fotos antigas e relembro do urbano da Viação Padroeira do Brasil e dos rodoviários da Cometa, não me recordo apenas de máquinas de metal, mas dos passeios com meus pais, das minhas brincadeiras com as miniaturas, do fato de eu me interessar por cidades por causa dos ônibus e ir bem nas aulas de geografia e história.
Percebi então que o ônibus não é um mero veículo, mas é um agente que agrega pessoas e transporta sonhos, que um dia vão virar realidades e lembranças.
E assim como ocorre comigo, a Cometa faz parte destas memórias pessoais.
Quando comecei a estudar ainda mais a memória dos transportes, percebi que a rica história da empresa é uma verdadeira aula e por estar presente no desenvolvimento do país, resgata diversos momentos e personagens que ajudaram esta nação crescer.
A Cometa nasceu de um sonho, se tornou parte de um novo grupo por um sonho e ao conhecer sua história podemos ter certeza de que sonhar faz bem e pode tornar muitas vezes o impossível em algo real.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes