Charge de Lézio Júnior. Trem bala foi alardeado pelo ex presidente Luis Inácio Lula da Silva e foi uma das promessas eleitorais de Dilma. Agora, mesmo com adiamento e sem perspectivas reais de sair do papel, obra já consumiu R$ 1 bilhão de dinheiro público.
Trem bala: Já custou R$ 1 bi aos cofres públicos mesmo sem sair do papel
Governo adiou o leilão previsto para setembro, mas empresas já receberam para gerenciar projetos e máquina pública engordou
ADAMO BAZANI – CBN
Apesar de o Governo Federal garantir que o projeto de trem bala que ligaria São Paulo ao Rio de Janeiro por Campinas não foi abandonado, mesmo com seu adiamento por mais de um ano, o mercado não tem convicções plenas de que este meio de transporte vai de fato sair do papel.
Mas mesmo que o trem bala nunca venha a existir no Brasil, ele já consumiu dos cofres públicos cerca de R$ 1 bilhão, valor superior a muitos corredores de ônibus e terminais de ônibus urbanos, uma das grandes carências das cidades.
O dinheiro foi usado entre estudos de viabilidade econômica, a contratação de uma consultoria e o gasto com a criação da companhia pública EPL – Empresa de Planejamento e Logística, responsável pelo projeto executivo que deveria ficar pronto até dezembro de 2014.
Em 2007, foram gastos R$ 28,9 milhões para os estudos que criaram o modelo do edital que foi rejeitado pelo mercado. Esse dinheiro foi pago ao Consórcio Halorow Sinergia e Prime Engenharia, com o contrato via BNDES – Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social.
A EPL, presidida por Bernardo Figueiredo, ex diretor da ANTT – Agência Nacional dos Transportes Terrestres, cuja recolocação no cargo foi rejeitada pelo Senado, era para ser apenas uma acionista do trem bala, mas acabou virando sócia com 45% de participação no modo de transporte. Isso mostra que muito dinheiro público, que deveria ser da iniciativa privada, sairia para a concretização do chamado TAV – Trem de Alta Velocidade.
Para constituir a empresa, o governo injetou R$ 5 milhões. Em 2012, os gastos foram de R$ 28,2 milhões e só neste ano, dos R$ 152,7 milhões previstos para a EPL, cerca de R$ 60 milhões já foram consumidos. A Empresa de Planejamento e Logística é uma verdadeira máquina pública, agora inchada com o adiamento: tem três diretores, 151 empregados e paga um aluguel de R$ 137 mil por mês no novo prédio que foi instalada, ou R$ 1,64 milhão por ano.
Mas os custos do trem bala vêm de antes, desde 2005, na gestão de Luís Inácio Lula da Silva.
Na época, quem gerenciava o projeto era a empresa pública envolta a diversos escândalos, a Valec – Engenharia, Construções e Ferrovias S.A. Ele contratou a empresa italiana Italplan Engineering para fazer o projeto básico da obra.
A contratação virou briga judicial: A Ítalplan cobra do Governo Federal R$ 270 milhões sobre serviços que alega ter feito e não ter recebido. O Governo Federal contesta e para contestar pagou por dois anos R$ 1,26 milhão para um escritório de advocacia internacional. O caso começou na Justiça Italiana e agora está no STJ – Superior Tribunal de Justiça.
O Governo Federal diz que o dinheiro não foi gasto à toa, já que a implantação do trem bala ainda está nos planos de Dilma, mesmo que num eventual segundo mandato ou que Lula volte ao Palácio.
O mercado, entretanto, é cético. O mesmo mercado, formado por empresas e especialistas, que esvaziaram os leilões e que dizem que os cálculos de R$ 33 bilhões e depois R$ 37 bilhões do Governo como custo do trem bala estavam subdimensionados e que a linha não sairia por menos de R$ 55 bilhões.
A verdade é que sonhar não é de graça. E o “sonho do trem bala” já consumiu quase R$ 1 bilhão do dinheiro do contribuinte, inclusive para o Consórcio Geodata que vai receber R$ 77 milhões, dos quais R$ 25 milhões só este ano, apenas para contratar empresas que vão elaborar o projeto executivo, que vai detalhar todos os passos e características da obra. Sim, foi contratado alguém para contratar.
DESCULPA QUE NÃO CONVENCEU:
O Governo Federal diz que adiou o leilão pelo fato de apenas a espanhola CAF estar interessada no projeto e que não queria fazer um certame apenas com uma empresa.
A desculpa não convenceu especialistas e o mercado.
Além dos erros e falhas do projeto e na condução do negócio por parte do Governo Federal, politicamente seria um desastre para Dilma e para o PT o trem bala.
Primeiro porque enquanto milhões de pessoas saíram às ruas pedindo mais corredores de ônibus, metrô e queda no alto custo das tarifas do transporte público, o Governo Federal empenharia grandes esforços e recursos num modal que atenderia uma demanda pontual e sem estimativa de um bom retorno tanto financeiro como em relação à utilidade da obra.
Depois porque pediram mais tempo e participariam a Siemens e Alston, as mesmas empresas acusadas de formação do cartel da CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos e do Metrô de São Paulo do PSDB, o grande inimigo político do PT.
A má notícia é que se o trem bala não sair do papel, este dinheiro foi gasto à toa. A outra má notícia é que se o trem bala sair do papel, muita coisa vai ser refeita e também haverá recursos gastos à toa.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes