Lucro das empresas de ônibus em SP é maior que a média nacional

ônibus

Protestos contra as tarifas de ônibus não são novidade em São Paulo e nem criação do MPL – Movimento Passe Livre. Vários anos registraram a insatisfação popular. Em 1958, quatro pessoas morreram em protestos quando a tarifa dos bondes e ônibus subiram da noite para o dia sem prévio aviso pelo prefeito Ademar de Barros, conforme mostra arquivo da Folha da Noite (que pertenceu a Folha de São Paulo). A diferença é a ajuda (e não única responsabilidade) das redes sociais.

Lucro das empresas de ônibus é São Paulo é superior ao da média nacional
Só o Grupo de José Ruas Vaz recebeu R$ 2,07 bilhões de repasses no ano passado e transportou 57% de todos os passageiros de 2012
ADAMO BAZANI – CBN
Enquanto as discussões depois dos últimos movimentos sobre o valor das passagens de ônibus ganharam força, os empresários de ônibus entraram no foco de atenção dos debates.
As planilhas dos sistemas de transportes são verdadeiras caixas-pretas, às quais pouquíssimos têm acesso ou entendem?
E os empresários? São verdadeiros barões das catracas que lucram exorbitantemente?
Não é mentira dizer que as empresas de ônibus lucram bastante. São negócios e quem investe quer retorno. Para enriquecer, claro (qual empresário ou trabalhador que não quer?) e para manter a capacidade de investimentos em melhoria e expansão dos negócios.
Os lucros que os empresários de ônibus recebem devem ser discutidos? Claro que sim! Tudo tem de entrar na pauta da discussão.
Mas a lucratividade dos empresários não pode acabar sendo cortina de fumaça para esconder problemas como a ineficiência do poder público em gerenciar os transportes coletivos.
Boa parte dos que os ônibus gastam é pela falta de prioridade ao transporte público no espaço urbano. É dinheiro gasto a mais em combustíveis e pessoal por causa dos congestionamentos. Em corredores de ônibus é possível realizar mais viagens com menos ônibus sem prejudicar a demanda atendida, ou seja, aumentar e eficiência e a produtividade. Isso impactaria diretamente nos dois principais itens que compõem os custos de operação dos ônibus: Pessoal (45,5%) e Diesel e Lubrificantes (20,95), de acordo com a gerenciadora SPTrans – São Paulo Transportes.
A carga tributária que incide sobre as empresas de ônibus também deve ser levada em consideração. Algumas desonerações já foram possíveis para parte das reduções das tarifas, como ocorreu na Grande São Paulo, ou para impedir aumentos maiores, como foi visto no Rio de Janeiro, em São Paulo e com os trens do Metrô e da CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos.
Há também um custo que, por conveniência, pouco é discutido, que é o repasse que as empresas fazem ao poder público para gerenciadoras, como SPTrans e EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos. Estas empresas deveriam fiscalizar, orientar e melhorar os transportes, mas aparentemente essas funções não são feitas como se espera.
EMPRESAS DE SÃO PAULO LUCRAM ACIMA DA MÉDIA NACIONAL:
Levantamento com base em dados da SPTrans – São Paulo Transportes e da NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos – , divulgado neste domingo, dia 30 de junho pelos jornais Folha de São Paulo e Agora São Paulo (do mesmo grupo), mostra que o lucro líquido das empresas de ônibus da Capital Paulista é superior ao da média nacional de empresas em outras regiões no País. Lucro líquido é o quanto o empresário ganha já descontados os investimentos, custos de operação e impostos.
O lucro líquido das empresas em São Paulo é de 6,8%. Isso representa R$ 406,8 milhões sobre os R$ 6 bilhões de repasses previstos pela Prefeitura este ano.
De acordo com a NTU, que reúne 538 empresas de ônibus em todo o país, a média nacional é de lucro de 4,5%, que se fossem aplicados nas companhias da Capital Paulista, baixaria os lucros de R$ 406,8 milhões para R$ 270 milhões.
No entanto, um esclarecimento importante que não foi prestado, é que cada região tem diferentes planilhas , custos operacionais, riscos e número de passageiros transportados.
Assim, mesmo que o lucro seja considerado grande, não é de se estranhar que as empresas de ônibus de São Paulo movimentem percentuais maiores que em regiões onde o trânsito é menor (portanto com menos gastos e menos necessidade de retorno) e o número de passageiros também é reduzido quanto à quilometragem percorrida.
Há diferentes realidades operacionais e as comparações podem ser feitas, mas com o cuidado de se levar em consideração essas diferenças.
A taxa de retorno das empresas de ônibus paulistanas também é acima da média nacional, mas abaixo de atividades como coleta de lixo.
Taxa de retorno é o prêmio oferecido aos empresários para investirem numa concessão e deve ser geralmente maior que os rendimentos de aplicações financeiras. Caso contrário, é melhor “deixar o dinheiro no banco”. Leva em conta a procura das empresas para operar determinado serviço (quanto menos empresas interessadas maior tende a ser a taxa de retorno), os riscos operacionais e os custos além do nível de endividamento dos municípios. Quanto mais dívida uma cidade tiver, em tese maior tem de ser a taxa de retorno para minimizar os riscos de calote.
Em São Paulo, a taxa de retorno é de 14%. A média das empresas em todo o País é de 10%. A taxa de retorno das empresas interestaduais em todo o território nacional é de 8,6%. Mas há atividades com maior taxa de retorno, como os ônibus na Grande São Paulo, com 16,6% e a coletiva de lixo em São Paulo, com retorno de 18%.
PASSAGEM EM SÃO PAULO CUSTA R$ 4,13 E EMPRESÁRIO LUCRA R$ 0,13 POR TARIFA.
Apesar de os passageiros pagarem R$ 3,00 desde o dia 24 de junho pela tarifa de ônibus, de acordo com a SPTrans, a tarifa custa na verdade R$ 4,13. E é sobre este valor que é calculado o lucro do empresário e o nível de subsídio.
Acompanhe:
R$ 4,13 é a tarifa-técnica, ou seja, que representa os verdadeiros custos a cada passageiro.
Deste total, como na catraca são cobrados R$ 3,00, a prefeitura tem de injetar R$ 1,13 a cada passagem como forma de subsídio para operação e gerenciamento dos sistemas.
Ainda dos R$ 3,00, é subtraído R$ 1,02 para bancar as gratuidades como de idosos, portadores de deficiência física, carteiros, policiais militares, oficiais de justiça, profissionais dos transportes entre outros. Também é bancada a meia tarifa que os estudantes não pagam e as integrações da segunda passagem em diante ou de parte das tarifas do trem e do metrô, no Bilhete Único, por exemplo. Tudo isso é bancado pelo passageiro pagante. Por exemplo, no caso de algumas categorias profissionais, como de carteiros, os Correios, que são de economia mista, não ajudam em nada no pagamento das passagens. Não que se deva tirar o direito destas categorias, mas as secretarias públicas e empresas responsáveis poderiam ter uma participação no custeio.
Com todos estes descontos e os subsídios, sobre os R$ 3,00, as empresas de ônibus recebem R$ 1,98 e lucram R$ 0,13.
Os principais componentes que formam as tarifas de ônibus em São Paulo, de acordo com a SPTrans, são:
Folha de Pagamentos: 45,4%
Óleo Diesel e lubrificantes: 20,9%
Depreciação dos investimentos (como perda do valor dos ônibus, garagens e materiais): 8,8%
Peças e acessórios: 8,0%
Lucro Líquido das empresas de Ônibus: 6,8%
Despesas Administrativas: 5,8%
Imposto de Renda e Contribuição Social: 2,4%
INSS Patronal 2%
SETOR É EXTREMAMENTE CONCENTRADO:
Se a lucratividade das empresas de ônibus é alta demais ou justa ou se a questão do lucro das empresas pode ser usada como cortina de fumaça para encobrir a ineficiência do poder público, que nunca optou por uma política de prioridade ao transporte coletivo (sim ao individual) e possui gerenciadores com competência questionável, um fato não pode ser negado: o setor dos transportes é altamente concentrado.
Como o Blog Ponto de Ônibus vem divulgando há vários anos, neste domingo, a Folha de São Paulo e o Jornal Agora São Paulo mostraram apenas uma parte desta concentração que está nas mãos do empresário José Ruas Vaz e seu grupo. Com 85 anos de idade e há mais de 50 anos no setor, o português José Ruas Vaz, que iniciou sua vida profissional em São Paulo como funcionário de uma padaria, tem participação em todo o País em cerca de 50 empresas de ônibus, além de ser dono da encarroçadora Caio-Indusscar, que atua em diverso países. Não é a toa que a maior parte dos ônibus que operam na Capital Paulista possui carrocerias desta marca.
De acordo com a SPTrans, no ano passado, somente o Grupo Ruas transportou 941 mil passageiros em São Paulo, 57% do correspondente à concessão, ou seja, às empresas de ônibus.
Dos repasses para o setor, 56% foram para as empresas da família de José Ruas Vaz, que no ano passado recebeu R$ 2,07 bilhões.
O Grupo também é sócio da Pra SP, empresa que vai reformar e trocar 7 mil abrigos e ônibus na Capital e explorar publicidade por 25 anos dos espaços.
Também como o Blog Ponto de Ônibus já havia divulgado (e estranhamente criticado por alguns comentários postados) na matéria “Eles devem (e muito) para os Trabalhadores”, José Ruas Vaz e integrantes de seu grupo empresarial figuram entre os maiores devedores do País, não só em tributos trabalhistas, mas também de outras ordens, além de acusações de fraude e ter penhora de bens.
Na Capital Paulista ele e sua família detém integralmente o controle ou possui sociedade em empresas como VIP – Viação Itaim Paulista, que possui diversas garagens, Viação Campo Belo, Viação Cidade Dutra, Viasul, entre outras.
Há outros empresários que detém parcelas significativas do sistema, como Belarmino de Ascenção Marta (Viação Sambaíba) e Luiz Augusto Saraiva, de empresas como Viação Santa Brígida.
A concentração dos transportes é crime? Não. O que contraria a lei de concessões e de licitação é o monopólio, como se quer fazer voltar em Mauá, na Grande São Paulo, de forma velada.
Mas o que se questiona : até que ponto a presença de empresários tão poderosos deixam o poder público nas mãos deles, diminuindo o poder de negociação e até fiscalização das prefeituras?
PROTESTOS EM SÃO PAULO RESSURGIRAM:
A onda de protestos em São Paulo, que contagiou o País, sobre as tarifas de ônibus, que fez novamente despontar o nome do MPL – Movimento Passe Livre- pode ter uma novidade: a ajuda (e não a única responsabilidade) das redes sociais, como o Facebook.
Mas atos contra as tarifas altas de transportes fazem parte da história de São Paulo, como relembra a reportagem da Folha de São Paulo e do Agora São Paulo.
Em 30 de outubro de 1958, São Paulo se transformou num grande palco de manifestações após o prefeito Ademar de Barros ter ordenado o aumento das tarifas do dia para a noite, sem aviso prévio à população.
A passagem dos ônibus e trólebus subiu de Cr$ 3,00 para Cr$ 5,00 e a dos bondes foram de Cr$ 2,50 para Cr$ 3,00.
Pela manhã, os manifestantes, boa parte formada por estudantes, tomou as ruas do centro de São Paulo e os ônibus, trólebus e bondes não puderam circular. Lojas foram fechadas.
Na parte da tarde, a Força Pública e a Guarda Civil foram convocadas para porem fim ao movimento. Foi um massacre. Ônibus foram depredados, lojas destruídas e o pior, quatro manifestantes, entre eles um adolescente de 16 anos, foram mortos.
À época, não se usava balas de borracha. Os mortos e feridos pela Força Pública e Guarda Civil foram atingidos por munição comum.
A tarifa não baixou.
Em 1947, quando a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos foi criada para regulamentar os transportes da cidade, as tarifas de bonde dobraram de preço.
Foram vários dias de protesto e muito quebra-quebra.
Ônibus, trólebus e bondes foram incendiados em 1947.
Não houve redução nas tarifas, mas os serviços melhoraram e as tarifas foram congeladas em seis anos, até 1953.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes

8 comentários em Lucro das empresas de ônibus em SP é maior que a média nacional

  1. Para melhorar o sistema,três coisas são importantes para ser tomadas,ESTATIZAR O SISTEMA,MORALIZAR O SISTEMA E QUEBRAR A DITADURA DOS SINDICALISTAS DENTRO DAS GARAGENS

    • OS SINDICALISTAS DAS GARAGENS NAO RESOLVEM NADA, ABSOLUTAMENTE NADA! FUNCIONARIOS PAGAM O SINDICATO ATOA POIS QDO PRECISAM DE AJUDA,QDO PRECISAM RESOLVER OS PROBLEMAS DIARIOS, É UM PASSANDO A BOLA PRO OUTRO E RESUMINDO NAO RESOLVEM NADA NADA NADA NADA!

  2. Honestamente, Adamo, falta vontade politica por parte dos Governantes, que, poderiam muito bem abrir concessões para vários empresários, uma concorrência livre e sadia, no entanto somente 3 empresários é que controlam todo o sistema. Isso também não é diferente no Grande ABC, que Você sabe muito bem, em Guarulhos e em todo o Alto Tietê. São válidos os protestos, só que também, deve-se protastar por uma reforma política total, a extinção desse códico penal brasileiro extremanete ultrapassado, a maioridade penal à partir dos 16 anos, a mudança total do custo de vida que é muito alto, etc. Vamos protestar, sem violência. Aproveitando, fora Novo Horizonte da Zona Leste. Desapareça de uma vez por todas.

  3. O GRUPO BELARMINO PRECISA MELHORAR AS CONDIÇOES DE TRABALHO DOS MOTORISTAS QUE VOLTARAM A TRABALHAR COM ONIBUS VELHOS E BARULHENTOS E COM MOTOR DIANTEIRO! NINGUEM MERECE HEMMM! CADE O SINDICATO CADE CADE, QUE NUNCA FAZ NADA DE BOM PARA OS MOTORISTAS DA GARAGEM 3? É MTA GENTE QUERENDO MANDAR, FAZER E ACONTECER QDO LHES CONVEM. FAVORECEM UNS E FERRAM COM O RESTANTE DA MAIORIA! PREFEREM TER FUNCIONARIOS TRABALHANDO EXTRESSADOS E DESCONTENTES!

  4. HERNESTO HONESTO // 3 de julho de 2013 às 01:01 // Responder

    Porque será que o imparcial reporter deste blog não reproduziu a publicação da materia sobre o Grupo Ruas(Jose Ruas Vaz) publicada no caderno cotidiano do jornal FOLHA DE SAO PAULO no ultimo dia 30-06-2013. Bom, já que foi dada a dica, quero ver se o PALADINO defensor dos usuarios do transportes vai reproduzir esta materia neste BLOG ou vai fingir não saber dos mandos e desmandos dos Baroes do Asfalto. Com certesa se fosse uma materia contra outras empresas, vide Novo Horizonte e Nova Maua cujo o HONESTISSIMO REPORTER não tem o rabo preso a mesma já estaria imediatamente estampada neste BLOG em nome do exercicio da cidadania.

  5. Amigos, boa noite

    Essa é mais uma PREVISÍVELLLLL.

    Se o lucro do Buzão de Sampa não fosse maior, não tria ‘linguição de 28 metros”, batendo lata nos corredores da cidade, em especial o 9 de Julho e Santo Amaro.

    PREVISÍVEL

    Att,

    Paulo Gil

  6. Everton Lourenço // 18 de Janeiro de 2017 às 17:19 // Responder

    O que combatemos em matéria de preço? Nada mais, nada mesmo do que o SUPER LUCRO. A que serve Sr. Empresário você e teus sócios faturarem mais do que R$ 300.000.000.000,00 anuais, se a maioria de seus clientes tem arrecadado R$ 36.000,00 anuais, no país que a maioria dos sonhos de seus clientes é ter uma casa própria. Parabéns Empresário, Parabéns…

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